sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Se Houver Amanhã (Sidney Sheldon)


Sidney Sheldon tem uma forma única de criar um personagem marcante e nos transportar para dentro da história, e com este empolgante romance nos leva às aventuras de Tracy Whitney.
Tracy é uma jovem idealista, trabalha em um banco e está noiva e grávida do socialite Charles Stanhope III. Custa a crer na sorte que tem e está radiante de felicidade.
Mas o suicídio de sua mãe muda todo o seu destino: (ao descobrir que a mãe se matou por não suportar perder todo o patrimônio que o marido lhes deixara) para Joe Romano - integrante da máfia - Tracy resolve tirar satisfações com o mesmo, e se vê enredada numa armação criminosa que a leva a ser presa e condenada por roubo e tentativa de homicídio.
Na prisão ela tenta falar com o noivo, que a despreza e abandona sem nem tentar ouvi-la e entender o que aconteceu.
Na penitenciária ela se vê cercada das criminosas mais violentas que jamais imaginou existir e, ao ser estuprada e violentada por elas, perde o bebê que estava esperando, mas começa a enxergar sua nova realidade: o mundo que conhecia não existia mais, a mãe maravilhosa e carinhosa estava morta e o noivo perfeito não a queria mais, e se quisesse sobreviver para se vingar daqueles que a haviam colocado ali, teria que mostrar a todos um outro lado que ela não tinha. Conseguiu impor sua posição dentro da cela e ganhou a amizade e o respeito da chefe de suas companheiras. A ajuda desta chefe, a negra Ernestine Littlechap, a protegeria também dos assédios da chefe de um grupo rival: Big Bertha, uma homossexual grandalhona e agressiva.
Seus dias na penitenciária são para ela um tempo de aprendizado para quando conseguir fugir colocar em prática seus planos de vingança. A oportunidade de fuga surge quando ela trabalha como babá da filha do diretor do presídio, e consegue formular um plano para escapar no caminhão da lavanderia. A rotina da criança é de dormir após o almoço, e é neste horário que ela planeja escapar. Mas no dia marcado há visitas na casa - o Governador e o Comitê de Reforma Penitenciária - e a mãe da menina muda os hábitos, mandando ela sair com a criança. Sem saber o que fazer, pede a alguém para olhar a criança e sai correndo, mas a menina chama a sua atenção ao ficar na borda de um lago artificial e cai nas águas profundas. Ela volta para salvar a criança e perde a chance de fugir. Mas em reconhecimento a sua coragem e apego à criança, ela ganha através do governador o perdão e a liberdade.
A primeira providência de Tracy é se vingar das pessoas que armaram contra ela: Joe Romano, o chefão Anthony Orsatti, o advogado Perry Pope, o Juíz Henry Lawrence e seu ex-noivo Charles Stanhope III.
Uma vez de volta ao mundo civilizado e tendo satisfeito seu desejo de vingança, ela tenta recomeçar sua vida e, inocentemente quer ter seu antigo emprego de volta. Não consegue, é claro, e não consegue outros porque sua ficha criminal a precede e ninguém quer se arriscar a lhe dar emprego. Uma presidiária havia lhe indicado uma pessoa, um dono de uma joalheria que ajuda ex-presidiárias. Tracy o procura, mas o que ele propõe é que ela se torne uma ladra profissional. Ela recusa e volta a tentar um emprego honesto. Quando não tem mais saída nem recursos financeiros ela volta à joalheria e aceita o trabalho.
Daí por diante sua vida se transforma completamente. Tracy se torna expert em disfarces e passa a circular nos meios mais sofisticados, conhecendo as pessoas mais ricas e importantes de vários lugares do mundo. Se apresentando como nobre européia ou esposa de magnatas do petróleo, ou como viúva rica e desamparada e mil outros disfarces engenhosos, ela consegue entrar em lugares fabulosos e cometer roubos fantásticos.
Nesse submundo do crime, Jeff Stevens, de má índole, é seu rival constante, e se torna uma disputa entre eles saber o que o outro planeja e chegar na dianteira, e após um confronto na tentativa de um grande roubo ao Museu do Prado, eles se descobrem apaixonados. Trabalham juntos em outro grande desafio e resolvem se assumir e mudar de vida.
Mas será que após todo esse tempo eles conseguem viver de outra maneira?
Tracy consegue se vingar das pessoas que a prejudicaram e muda o rumo da sua vida, mas o que ela tem agora nem de longe lembra o que seria sua vida antes da prisão. Ela vive fugindo e se escondendo, é conhecida mundialmente e bem sucedida financeiramente longe do que poderia um dia sequer imaginar.
Tracy se impôs à condição de só aceitar um trabalho quando tivesse certeza de que a pessoa atingida fosse  tão criminosa quanto ela e que isso não prejudicasse outras pessoas.
Para ela e Jeff o amanhã poderia trazer uma aventura irresistível, viagens para lugares exóticos, fortunas difíceis de calcular. Como abrir mão desta vida? Só o amanhã dirá.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Marley e eu (John Grogan)

O livro conta a história de amor entre um cachorro e seu dono. O autor demonstra como pode ser forte a relação do ser humano com o animal, como ele pode ser importante na vida de um casal. 

John e Jenny haviam se casado a um ano . Já tinham muita vontade de ter filhos, mas como um dia John deu para Jenny uma planta Comigo-ninguém-pode e a planta morreu nos primeiros dias, achavam que precisavam "testar" seus instintos maternais cuidando de um cão.

Jenny havia achado um anúncio na seção CÃES no jornal, que dizia "Filhotes de labrador, amarelo. AKC raça pura. Todos os matrizes. Pais no local" . Quando finalmente John aceitou, foram ver os filhotes. Na porta do "canil de fundo de quintal" encontraram Lori, a criadora, acompanhada por Lily, a orgulhosa mamãe. Mas o pai não estava lá. John e Jenny nem se importaram e foram correndo ver os filhotes. Um macho havia chamado a atenção deles; os filhotes machos estavam por 375 dólares , mas Lori disse que fazia por 350 aquele que eles tinham gostado. Eles adoraram o filhote e Lori disse que depois de 3 semanas poderiam levá-lo para casa. Ao irem embora, viram um grande Labrador cheio de lama correndo para os quintais da casa da criadora. Eles haviam acabado de conhecer o pai dos filhotes. 

John e Jenny começaram a brigar por causa do nome, mas depois de muita discussão decidiram que o filhote se chamaria Marley, ou melhor: Grogan's Magestic Marley Of Chunchill. 

Chegando em casa - John ficou as três semanas lendo mais sobre cachorros, até que chegou em uma frase que lhe assustou "Os pais são uma das melhores do futuro temperamento de seu novo filhote, Grande parte do comportamento é herdado" - Jenny havia viajado com a família para Orlando, e quando Marley chegou gritou tanto de medo que John colocou-o para dormir ao lado de sua cama.

Senhor Terremoto - Marley estava crescendo a uma velocidade incrível, e todas as visitas diziam "A casa de vocês já é a prova de bebês".

Uma noite Jenny se sentiu meio estranha, e quando ela fez o teste de gravidez constatou que estava grávida. Depois ela foi ao médico, que havia confirmado a gravidez. Quando foram fazer o ultra som não viram nada, e depois constataram que o feto estava morto.

No dia seguinte foram a uma prainha e ficaram brincando com Marley, e John ficava sacaneando ele por não conseguir pegar o graveto. Ao amanhecer do dia seguinte, John foi comprar um buquê de flores, e na volta foi comprar um osso gigante para Marley. Ao chegar em casa, Marley havia comido todos os cravos , fazendo Jenny ficar mais alegre.

Quando Marley tinha apenas seis meses, foi inscrito em aulas de adestramento, mas foi expulso na segunda aula. John ficou inconformado e começou a treiná-lo em casa. John e Jenny haviam decidido castrar Marley para diminuir sua hiperatividade.

John e Jenny foram viajar para a Irlanda, deixando Marley sob os cuidados de uma amiga, Kathy. Na Irlanda, aproveitaram bem e quando voltaram, Kathy estava pronta para ir embora, e semanas depois descobriram que Jenny estava grávida novamente.

Esta gravidez foi diferente. Jenny se afastou dos produtos químicos e compraram meias para o bebê. No aniversário de Jenny, John comprou um lindo colar para Jenny, que Marley engoliu no mesmo dia. Três dias depois, acharam o colar nas fezes de Marley. 

Nove meses depois, o dia tão esperado chegou. Era um menino, e se chamaria Patrick, o nome do primeiro Grogan a chegar nos Estados Unidos. Marley foi muito pacífico com o bebê, tornando-o seu melhor amigo.

Quando Patrick completou 9 meses, Jenny engravidou novamente, mas aos cinco meses de gravidez, o bebê começou a fazer contrações , obrigando Jenny a ficar na cama por algumas semanas. Quando completaram sete meses de gravidez, o bebê nasceu e se chamaria Connor. Marley o aceitou do mesmo jeito.

Marley fez o teste para um filme A Última Jogada , e passou.

A família se mudou para Boca Raton, onde tiveram Collen, a primeira filha..

John encontrou um novo emprego que seria na Pensilvânia. A Organic Gardening, estava procurando um novo editor-chefe. Uma revista chamada Organic Gardening (publicada até hoje) fora lançada em 1942 por J. I. Rodale. A teoria de Rodale era de que os produtos químicos estavam lentamente envenenando a terra e seus habitantes. Então J.I. Rodale começou a fazer experiências com técnicas de agricultura que imitavam a natureza usando material produzido por plantas em decomposição como fertilizante e nutriente natural para o solo depois que esse material havia se transformado em um riquíssimo húmus escuro. Na agricultura orgânica não é permitido o uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente.

A família então se mudou para a Pensilvânia onde John iria trabalhar. As crianças e Marley conheceram a neve, que fornecia muitas brincadeiras para a família.

Marley envelhecera e aos quatorze anos teve que ser sacrificado. Foi enterrado sob as cerejeiras e algumas semanas mais tarde viram um cão idêntico a Marley sendo doado no abrigo de cães da cidade. A família então achou que ele havia renascido dos mortos.


domingo, 4 de dezembro de 2011

A Luneta Mágica (Joaquim Manuel de Macedo)

I- O romance
A ascensão da burguesia ao poder, e o surgimento do jornal [o primeiro aparece em 1808, no RJ] vieram modificar o gosto do público pela literatura. A nova mentalidade, menos refinada, menos educada e mais pragmática - voltada para os problemas do dia-a-dia - requer um gênero literário que possa estar à altura do seu entendimento e do seu gosto. E o romance, que há mais tempo vinha tomando forma [na Espanha, na Inglaterra e na França, sobretudo], começou a ensaiar seus primeiros passos no Brasil. Dos primeiros folhetins, publicados em jornais, por autores agora completamente esquecidos, passamos às primeiras manifestações mais apropriadas e logo festejadas pelo grande público. Atentos, sempre, ao anseio do novo público, surgiram os primeiros romancistas. E, com eles, os primeiros folhetins, entre estes está A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo.

II- Autor
Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí [RJ], em 1820. Fez o curso de Medicina e, no mesmo ano de sua formatura, 1844, publicou A Moreninha, muito apreciado pelo público da época. Foi jornalista, professor secundário, dramaturgo e romancista, obtendo destaque literário com este último gênero. Fundou, em 1849, a 'Revista Guanabara', juntamente com Gonçalves Dias e Araújo de Porto Alegre. Morreu no RJ, em 1882.
Macedo é o criador da ficção brasileira 'pela forma e pelo estilo'. Estuda a psicologia feminina, enquadrando-a no contexto emocional do Romantismo. Excelente observador retrata a burguesia carioca, reproduzindo seus costumes, manias e a mediocridade de seu pensamento.
Suas obras, apesar de variadas, apresentam estilo falho e superficial análise psicológica dos personagens, sendo, portanto, o seu principal mérito o de ser o introdutor da prosa de ficção em nosso Romantismo.
Também Macedo proporcionou aos leitores duas coisas que lhe garantiram popularidade: narrativas cujo cenário e personagens eram familiares, de todo o dia; peripécias e sentimentos enredados e poéticos, de acordo com as necessidades médias de sonho e aventura.

III - Enredo
No romance A Luneta Mágica, Macedo nos conta a história de Simplício, um rapaz que padece de um mal terrível: uma dupla miopia.
Miopia física: que o impede de ver ou distinguir qualquer coisa a duas polegadas de distância dos seus olhos.
Miopia moral: o impede de entender ou distinguir as idéias alheias ou de ajustar suas próprias idéias. [trata-se de um parvo, ingênuo,...]

Simplício ficou órfão aos 12 anos de idade e, desde então, vive com o mano Américo, que administra sua herança, com a devota tia Domingas e com a prima Anica. Certo dia, apesar de sua miopia, foi convidado para fazer parte de um júri. Lá conhece o Sr. Nunes que lhe fala do Reis, um gravador de vidros, capaz de resolver seu problema de miopia.
Depois de muitas tentativas, de lentes do mais alto grau, Reis reconhece que não pode ajudar Simplício, sua miopia é muito forte. Condoído, no entanto, com a dor do rapaz fala-lhe do Armênio - um artista de habilidades mágicas trazido da Europa pelo próprio Reis para trabalhar em sua oficina.
O desejo de Simplício de ver era tão grande que ele acaba aceitando ir visitar o Armênio. Este promete-lhe uma luneta mágica, mas avisa-lhe também que em pouco tempo o rapaz vai ter a convicção de que é melhor ser cego do que ver demais.
Assim, depois de pensar muito sobre tudo o que o Armênio havia lhe falado e consultar sua família, Simplício vai ao encontro do mágico no horário marcado, a meia-noite. Lá presencia o ritual de construção da luneta. Depois de muitas luzes, fogos e palavras mágicas, finalmente o mago entrega-lhe o objeto mágico, mas não antes de lhe avisar sobre os poderes e perigos da luneta: Simplício não deveria fixá-la mais de 3 minutos sobre qualquer objeto ou ser humano, pois assim passaria a ter a visão do mal [vingança da salamandra presa no vidro] e, além disso, não deveria também fixá-la em nada além de 13 minutos, pois esta seria a visão do futuro e, neste caso, para própria proteção do rapaz, a luneta se quebraria.
Ansioso com a possibilidade de enxergar, Simplício volta para casa e espera o amanhecer para experimentar a luneta. Maravilhado com a visão da aurora, acredita que será impossível ver qualquer coisa má nesta cena e decide, portanto, fixar sua luneta por mais de 3 minutos. De repente, fica horrorizado com o que vê: '-Meu Deus!...como a aurora é enganadora e falsa!...e como o sol é feio, terrível e mau!!!'. Concorda com o Armênio e diz que basta a visão da superfície e das aparências, a felicidade do homem está nas ilusões dos sentidos, nos enganos da alma, quer ser feliz e, portanto, não fará mais uso da visão do mal. No entanto, nosso jovem ingênuo, acaba por não resistir à visão do mal e começa a fixar sua luneta sobre tudo e todos.
A visão do mal permite-lhe ver a 'verdade' sobre a prima Anica, moça fria, sem sentimentos, mulher-cálculo, incapaz de amizade, interessada em se casar com Américo ou com Simplício por causa da fortuna; mano Américo, ambicioso avarento, rouba a família na administração dos bens; tia Domingas, invejosa, fofoqueira, sovina, deseja o casamento da filha com Américo pela fortuna...
Estas descobertas deixam Simplício horrorizado e decepcionado fazendo-o decidir procurar um advogado para administrar seus bens e uma esposa para formar uma nova família. Procura o Nunes para que este o ajude com seus planos. No entanto, ao fixar sua luneta sobre o velho, descobre um farsante e interesseiro.
Passa-se um mês e ele só encontra decepções, ninguém em quem confiar, nada em que acreditar. Os amigos são todos interesseiros, exploradores, as moças são todas falsas e impuras.
De repente, a cidade inteira comenta sua loucura e ele passa a ser perseguido e execrado em todos os locais. A família decide que ele está doente, tranca-o em casa e quer destruir sua luneta. A visita de um médico, no entanto, impede que ele seja declarado louco. Todos concordam que ele foi iludido pela magia e que com amor e carinho conseguirá superar tudo.
Ainda assim, Simplício não entrega a luneta e sabe que, embora não seja considerado louco será visto como um maníaco, portanto não há salvação. Decide, então, que a única coisa que poderá salvá-lo será a visão do futuro. Ele quer saber qual o seu futuro e por isso decide fixar a luneta nele mesmo [no espelho] por mais de 13 minutos. Entretanto, antes de chegar na visão do futuro, chega à visão do mal e se descobre um infame, caluniador, um inimigo da família, um homem capaz de maldizer todas as criações de Deus, um maldito...Antes de chegar na visão do futuro, a luneta quebra-se em suas mãos.
De novo, Simplício acha-se na escuridão, arrependido de ultrapassar a visão da superfície e das aparências, descobre-se, agora, sem nada, sem qualquer possibilidade de ver.
Depois de 8 dias enclausurado em casa, decide que já pode sair, as pessoas não lembrarão de mais nada - 'Não há atividade de opinião que resista à extensão, à eternidade de oito dias na nossa capital'.
Durante o passeio, reencontra o Reis que lhe conta sobre as fofocas do Nunes e o convence (novamente) a procurar Armênio. Assim, fica combinado um novo encontro, a meia-noite, no gabinete do mágico.
Mais uma vez Simplício presencia todo o ritual de construção da nova luneta e ouve os alertas do Armênio sobre o uso correto da lente. Dessa vez, se fixada por mais de três minutos, ela lhe dará a visão do bem.
Ao voltar para casa, esperançoso e feliz com a possibilidade de ver novamente, Simplício decide que escreverá a todos os jornais e falará sobre as maravilhas de que o Armênio é capaz. Ele não entende a descrença do Reis nas potencialidades mágicas. Acredita que o Armênio poderá ajudar muitas outras pessoas e que, portanto, não faz sentido manter tudo isso em segredo.
Depois de se questionar sobre que mal poderia haver na visão do bem, mais uma vez Simplício desobedece ao mágico e fixa sua luneta por mais de três minutos. Começa por enxergar a prima Anica, um anjo de inocência e de candura; tia Domingas, a devoção e a piedade personalizada; o mano Américo, a pura dedicação fraternal.
“-Eu tinha a febre da felicidade. O mundo e a vida me festejavam o coração; eu desejava rir, divertir-me, folgar”.
Maravilhado com a visão do bem, apaixona-se pela prima Anica e por mais trinta e tantas outras moças, inclusive por Esmeralda, uma conhecida prostituta do 'Alcasar Lírico'. Reconhece a bondade e a pureza de coração em todos que dele se aproximam, ajuda a todos, paga jantares, dá esmolas, contribui para fundos de caridades através dos 'amigos', que são cada vez em maior número. Reencontra o Nunes, visita-lhe a família, apaixona-se por sua filha, salda suas dívidas. Enfim, passa a ser explorado e ridicularizado por todos sem perceber. Quando alguns tentam lhe avisar sobre o que está acontecendo, fica confuso, pois descobre a verdade na boca destas almas boas, mas não entende como isso pode ser possível.
Mais uma vez desesperado e angustiado, descobre que a visão do bem é um martírio.
Com a alma atormentada, presencia um funeral e percebe a beleza, a felicidade da morte. Decide, portanto, que o melhor que tem a fazer é morrer. Como não tem armas ou veneno, nem meios para consegui-los, sobe até o alto do Corcovado para se jogar de lá de cima. Antes, porém, pensa uma vez na visão do futuro, dá uma última olhada através da luneta mágica para a cidade, a capital do Império do Brasil. Passa-se os treze minutos e a luneta se quebra em suas mãos. Mais uma vez nas trevas, Simplício não hesita e se joga do parapeito. Duas mãos possantes, no entanto, suspenderam-lhe pelas orelhas - era o Armênio.
Depois de conversarem sobre tudo o que havia acontecido, o mágico fala-lhe sobre as lições das lunetas:
• “Exagerar é mentir”.
• “No mundo há o bem e o mal como há na vida o prazer e a dor”.
• “Mas o bem é o bem, o mal é o mal como são e não podem deixar de ser para humanidade que é imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela”.
• “A imperfeição e a contingência da humanidade são as únicas idéias que podem fundamentar um juízo certo sobre todos os homens...Cada qual é o que é e cada qual tem as suas qualidades, e seus defeitos”.
• Depois desta conversa, o Armênio decidiu dar-lhe uma última luneta mágica - A Luneta do Bom Senso -. Desta vez, no entanto, Reis faz Simplício prometer segredo sobre o assunto.

sábado, 26 de novembro de 2011

Noite na taverna (Álvares de Azevedo)


Noite na Taverna é uma narrativa (novela ou conto) construída em sete partes, contendo epígrafes e os nomes de cada personagem, como subtítulos, antecedendo as narrativas, contadas em uma taverna. Há, na última parte, o entrelaçamento da história de Johann e de alguns personagens.
Mais do que pelos elementos romanescos e satânicos que a condimentam (violentação, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia, assassinatos por vingança ou amor), a obra impõe-se pela estrutura: um narrador em terceira pessoa introduz o cenário, as personagens, a situação, e praticamente desaparece, dando lugar a outros narradores - as próprias personagens, que em primeira pessoa contam, uma a uma, episódios de suas vidas aventureiras.
Na última narrativa, a presença física (na roda dos moços) de personagens mencionadas em uma narrativa anterior faz com que todo o ambiente fantástico e irreal dos contos se legitime como
verídico.
Noite na Taverna, obra escrita em tom bastante emotivo, antecipa em vários aspectos a narração da prosa moderna: a liberdade cênica, a dupla narração e suas confluências, a mistura do real ao fantástico confere atualidade à obra, apesar de toda a atmosfera byroniana.

Primeira parte
A primeira parte constitui uma espécie de apresentação do ambiente da taverna, da roda de bebedeira, de devassidão em que se encontram os personagens, do clima notívago e vampiresco. O tom declamatório anuncia a noitada e as histórias que estão por vir.
As primeiras páginas deixam antever o clima das gerações do mal do século, a irreverência incontida, a tendência a divagações literário-filosóficas, a vivência sôfrega e, principalmente, a morbidez e a lascívia.
Entre os "brados" e as taças que circulavam, são apresentados os personagens, e alguns deles tomas a palavra. Em primeira pessoa, relatam histórias pessoais. O primeiro a tomar a palavra é Solfieri que faz suas evocações, remontando-as a Roma, a "cidade do fanatismo e da perdição", onde "na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido". Certa noite, Solfieri vê um vulto de mulher. Segue-a até um cemitério; o vulto desaparece e o personagem adormece sob o frio da noite e a umidade da chuva. A visão deste vulto de uma mulher atordoou o personagem durante um ano, nada o satisfazia na troca de amores com mundanas. Uma noite, após prolongada orgia, sai vagando pelas ruas e acaba entre "as luzes de quatro círios" que iluminavam um caixão entreaberto. Lá estava a mulher que lhe provocara tantas alucinações e insônias. Era agora uma defunta. O homem tomou o cadáver em seus braços, despiu-lhe o véu e...
Mas, para disfarçar o caso de necrofilia, a mulher não estava morta, apenas sofrera um ataque e catalepsia. Ao perceber que a mulher não havia morrido, Solfieri levou-a para seu leito, contemplou-a e ela, depois de breve delírio, veio a falecer. Solfieri mandou fazer uma estátua de cera da virgem, guardou-a em seu quarto, conservou com uma grinalda de flores.
Johann, Bertram, Archibald, Solfieri, o adormecido, Arnold e outros companheiros estão na taverna, dialogando sobre loucuras noturnas, enquanto as mulheres dormem ébrias sobre as mesas. Falam das noites passadas em embriaguez e pura orgia. Solfieri os questiona a respeito da imortalidade da alma, sendo mais velho, parece não crer nela, por isso, Archibald o censura pelo materialismo. Solfieri acredita na libertinagem, na bebida e na mulher sobre o colo do amado. Os homens só se voltam para Deus quando estão próximos da morte, Deus é, pois, a "utopia do bem absoluto".

Segunda parte - Solfieri e a Necrofilia
Solfieri decide contar sua história, conforme sugere Archibald, desejoso de histórias fantásticas, cheias de sangue e paixão. Conta, então, que uma noite, ao vagar por uma rua, em Roma, passa por uma ponte, quando as luzes dos palácios se apagam. Vê a sombra de uma mulher chorando, numa escura e solitária janela, parecendo uma estátua pálida à lua.
Ela canta mansamente, saindo para a rua, sempre seguida por Solfieri. Pela manhã, ele percebe que está em um cemitério, sem saber, ao certo, se adormeceu ou desmaiou. Sente muito frio, adoece, delira, tendo visões com a bela e pálida mulher. Retorna a Roma um ano depois, sem encontrar alento nos beijos das amantes, perseguido pela visão da mulher do cemitério. Certa noite, muito bêbado, após uma orgia, se encontra num templo muito escuro e, vendo um caixão semi-aberto, crê que a mulher está lá dentro. Arranca-lhe a mortalha, faz amor com ela, que, pela madrugada, dá sinais de vida, retornando da catalepsia para desmaiar em seguida.
Solfieri coloca sua capa sobre a moça e foge com ela. Encontra com o coveiro e depois com a patrulha, que o considera um ladrão de cadáveres. Justifica-se, apresentando a esposa desfalecida. Ao chegar em casa, a moça grita, ri e estremece, morrendo 2 dias depois. Solfieri levanta o piso do quarto para dar lugar ao túmulo, suborna, antes, um escultor que lhe faz em cera a estátua da virgem. Aguarda um ano para estátua definitiva ficar pronta.
Volta-se para Bertram, recordando-lhe a visita deste em sua casa e de a ter visto por entre véus, sendo a ela apresentado como "uma virgem que dormia". Os amigos surpresos com a história desejam saber se se trata de um conto, mas ele jura por todo mal existente que não. Como prova, mostra sob a camisa a grinalda de flores mirradas, pertencente à moça.

Terceira parte - Bertran e a Antropofagia
A seguir, Bertram, um dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta que, também, uma mulher, uma donzela de Cadiz, Angela, o levou à bebida e a duelar com seus três melhores amigos e a enterrá-los. Quando decide casar com ela e consegue lhe dar o primeiro beijo, recebe carta do pai, pedindo seu retorno à Dinamarca. Encontra o velho já moribundo, chora, mas por saudades de Angela. Dois anos depois, vende toda fortuna, coloca o dinheiro num banco de Hamburgo e volta para a Espanha. Encontra a moça casada e mãe de um filho. A paixão persiste e os amantes passam a se encontrar às escondidas, vivendo verdadeiras loucuras noturnas até que o marido, enciumado, descobre tudo.
Uma noite, Angela, com a mão ensangüentada, pede ao rapaz para subir até sua casa e por entre a penumbra, ele encontra o marido degolado e sobre seu peito, o filho de bruços, sangrando. Angela deseja fugir em sua companhia, saem pelo mundo, ela vestida de homem vive grandes orgias. Foge mais tarde, deixando o rapaz entregue às paixões e vícios.
Bertram bêbado e ferido é atropelado por uma carruagem, diante de um palácio, sendo socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela menina, que, mais tarde, foge para casar-se com Bertram. Vendida em uma mesa de jogo a Siegfried, um pirata, ela o mata e o envenena, afogando-se a seguir. De dissipação em dissipação, o rapaz resolve matar-se no mar na Itália, mas salvo por marinheiros, fica sabendo que a pessoa que o salvou acabou, acidentalmente, morta por ele. São socorridos por um navio e Bertram é aceito a bordo em troca de que combatesse se necessário.
Mas, apaixona-se pela pálida mulher do comandante e, durante uma batalha contra um navio pirata, ele o trai, fazendo amor com a mulher. O navio encalha em um banco de areia, despedaçando-se aos poucos - os náufragos agarram-se a uma jangada e, em meio à noite e à tempestade, o casal vive horas de amor. Vagam a ermo pelo mar as três figuras, sobrevivendo de bolachas e, mais tarde, tiram a sorte para ver quem morrerá. O comandante perde, clama por piedade, mas Bertram se nega ouvi-lo, prefere a luta. Mata o comandante, que serve, por dois dias, de alimento a Bertram e a mulher. Ela propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal gasta as últimas energias se amando. A mulher, enlouquecida, começa a gargalhar, Bertram febril a sufoca. Ela é levada pelas águas, enquanto o rapaz é salvo pelo navio inglês, Swallow.

Quarta parte - Gennaro e a Traição das Traições
A próxima história é a de Gennaro. Sua narrativa é sobre um velho pintor, Godofredo Walsh, casado com uma jovem de 20 anos, Nauza, que lhe serve de modelo e é amada como a filha do primeiro casamento, Laura, garota de 15 anos. Gennaro, aos 18 anos, é aprendiz de pintor e aluno de Godofredo. Vive na casa do mestre como um filho, recebendo  no corredor antes de dormir, beijos de Laura. Um dia, desperta e a encontra em sua cama, perdendo a cabeça diante da estonteante beleza da virgem. A cena se repete ao longo de 3 meses, quando a menina lhe diz que deve pedi-la em casamento, porque espera um filho. O moço nada responde, ela desmaia e se afasta, tornando-se cada dia mais pálida.
O pintor definha com a tristeza da filha, passeia pelos corredores à noite e deixa de pintar. Uma noite, Gennaro é chamado, porque Laura está morrendo e murmura seu nome. O moço aproxima-se e ela, sussurrando-lhe ao ouvido o perdão, diz que matou o filho e dá o último suspiro. O velho passa o ano endoidecido, chora todas as noites no quarto da morta, arfando ou afogando-se em soluços.
Enquanto isso, o rapaz e Nauza amam-se em seu leito. Uma noite, o velho o arranca da cama e o leva até o dormitório de Laura. Levanta o lençol que cobre um painel, descortinando a imagem moribunda de Laura, que murmura algo no ouvido do cadavérico Gennaro. Atordoado, o aprendiz confessa tudo a Godofredo.
No dia seguinte, o velho se comporta naturalmente, sem mencionar o ocorrido, lamenta apenas a falta da moça. Sonâmbulo, repete a mesma cena ao longo de várias noites e, numa delas, Nauza é testemunha. Uma noite de outono, após a ceia, Walsh convida Gennaro para um passeio fora da cidade. Após contornar um despenhadeiro, pede ao rapaz para esperá-lo, dirigindo-se a uma cabana de onde sai uma mulher. Depois, junta-se a Gennaro e ao chegar à beira de um penhasco, descreve a traição, envolvendo a filha e a esposa.
Pede ao rapaz para jogar-se precipício abaixo. Gennaro assim o faz, mas, após uma noite de delírios, acorda salvo por camponeses, em uma cabana. Decide retornar à casa de Walsh e pedir-lhe perdão, entretanto encontra pelo caminho o punhal do pintor. Decide vingar-se, mas encontra Nauza e Godofredo envenenados e apodrecidos, talvez, com o veneno obtido com a mulher da cabana.

Quinta parte - Claudius Hermann e a Paixão de Morte
Claudius Hermann, após preâmbulos em que discursa com os amigos de orgia acerca de diversos temas, expõe sua história, onde narra suas loucuras e orgias e de como desperdiçou uma fortuna no turfe, em Londres, onde vê uma bela amazonas, a duquesa Eleonora, esposa do duque Maffio. Antes de prosseguir com a história, Bertram indaga sobre a poesia, descrita como um punhado de sons e palavras vãs, enquanto Claudius a considera um prazer extremado, o que há de belo na natureza. Os colegas os interrompem, pedindo ao narrador que retome a história.
No dia em que avista a bela duquesa, Hermann dobra sua fortuna e, à noite, no teatro, a vê, mais uma vez. Ao longo de 6 meses, encontra a senhora em bailes e teatros até que decide comprar de um criado a chave do castelo. Entra, sorrateiramente, quando ela já está adormecida e coloca-lhe nos lábios narcótico. Aguarda que durma profundamente e então a possui, repetindo o fato, noite após noite, durante um mês.
Certa vez, após um baile, entra no quarto de Eleonora e vendo um copo com água junto à sua cabeceira, derrama nele o narcótico. Entram a duquesa e o duque que, antes de sair do quarto, prometendo-lhe retornar, bebe um pouco do líquido, seguido por ela. Claudius sabe que Maffio não virá ao quarto e que Eleanora dormirá profundamente.
Ergue-a do leito e foge com ela numa carruagem, chegando, ao meio-dia, a uma estalagem. Mais tarde, a duquesa desperta e surpresa por não estar em seu palácio, grita por socorro, desespera-se, ameaçando jogar-se pela janela. O rapaz lhe declara profundo amor e lhe descreve o rapto, dando-lhe duas horas para pensar se fica ou não com ele. Inconformada a princípio, decide aceitar o amor oferecido, pois a família e amigos, certamente, não a aceitariam mais.
Ao retornar, Claudius a encontra debruçada sobre um de seus versos. Interrompe a narrativa, retira um papel do bolso, mostrando o verso aos colegas. Conta que Eleonora lhe respondeu que ficava, mas caiu desmaiada. Dito isso, o rapaz tomba por sobre a mesa, calando-se. Archibald o sacode, implora para que desperte. Solfieri e os companheiros desejam saber sobre a duquesa, mas o rapaz está confuso, não se recorda de mais nada. Ouvem a gargalhada do louro Arnold que despertando, dá continuidade ao relato, dizendo que um dia Claudius entrou em casa e encontrou sobre a cama ensopada de sangue dois cadáveres; o Duque de Maffio matou Eleonora e enlouquecido, suicidou-se em seguida. Arnold estende a capa no chão e volta a dormir.

Sexta parte - Johann e o Incesto
Johann decide contar sua história. Está em um bilhar em Paris, jogando com Artur que, numa jogada definitiva para Johann, se encosta à mesa, por descuido ou de propósito. A mesa estremece e Johann é levado à derrota. O perdedor, enlouquecido de raiva, desafia o parceiro para um duelo. Antes, porém, Artur pede ao adversário que, caso morra, entregue a carta, que está em seu bolso, e o anel no seu dedo, para uma mulher que dirá, mais tarde quem é.
Saem com duas pistolas, uma carregada, a outra não; Artur é alvejado e morre, apontando para o bolso. Johann tira-lhe o anel, colocando-o em seu dedo e, a seguir, encontra dois papéis no bolso do morto: uma carta para a mãe, e outra indicando o horário e endereço para um encontro. O rapaz decide tomar o lugar de Artur. Descobre que aí mora a virgem namorada do rival que acaba na cama com Johann, num quarto escuro.
De repente, interrompe a narrativa, enche o copo e o bebe com estremecimento. Prossegue, narrando que ao sair do quarto, encontra um vulto à porta, cuja voz lhe soa familiar. É atacado com uma faca, luta ferozmente com o vulto; um homem desconhecido, que deixa cair o punhal, morrendo sufocado pela mão de Johann. Ao se retirar, tropeça numa lanterna e decide ver o rosto do estranho, estremece, a luz da lanterna se apaga. Vai arrastando o corpo até um lampião e, para sua surpresa, descobre tratar-se de seu irmão. Louco de terror retorna ao quarto, mas, outra vez, interrompe a narrativa, bebe mais um copo. Diz que encontrando a donzela desmaiada, a levou para a janela e percebeu que estava com a irmã nos braços.

Última parte - O Último Beijo de Amor
Com Último beijo de amor, Álvares de Azevedo fecha a obra Noite na Taverna. Ao contrário dos outros, traz a narrativa em 3ª pessoa.
É noite alta na taverna, todos dormem. Entra uma mulher pálida, vestida de negro, procurando alguém com uma lanterna na mão. Vê Arnold, tenta beijá-lo, mas o deixa em paz, voltando-se para Johann, tornando-se, subitamente, sombria. Traz, além da lanterna, um punhal, que crava no pescoço deste último, enxugando as mãos ensangüentadas no cabelo do ferido. Vai até Arnold e o desperta. Ele a reconhece; é a irmã de Johann, agora transformada na prostituta Giorgia, a quem Arnold pede que lhe chame de Artur, como outrora.
O rapaz recorda-se do duelo, do tempo passado no hospital para se recuperar, o desespero e a vida de devassidão a que se entregou por não encontrar mais Giorgia. Deseja ficar junto dela agora, mas a moça acha que é tarde demais, pede-lhe apenas um beijo de despedida, porque vai morrer. Leva Arnold até o corpo de Johann, dizendo que o matou por ter sido por ele desonrada, a ela que era sua irmã. Arnold horrorizado cobre o rosto, enquanto Giorgia cai ao chão. Arnold aperta o punhal contra o peito e cai sobre ela, sufocando os dois gemidos de morte. A lâmpada apaga-se.


sábado, 19 de novembro de 2011

Alves & Cia Eça de Queirós

Alves & Cia. é a firma da qual são sócios Machado e Alves e o título deste "pequeno romance" fala sobre o adultério e suas conseqüências. Quando no dia do aniversário de Ludovina, esposa de Godofredo (Alves), este a surpreende abraçada com Machado, aí começa a história. Alves perturbado com a surpresa, se retira e Machado foge da sala. Alves expulsa Lulu para a casa do pai (que recebe a notícia feliz com a pensão que receberá junto) e decide que ele e Machado tirarão na sorte quem se suicidaria. Posto que Machado e as testemunhas achem isto ridículo, vai-se decidindo por um duelo de pistolas, logo por outro duelo de espadas (porque "não foi tão sério"), e por fim por duelo nenhum. Ludovina viaja com o pai e volta mais tarde. Machado volta a trabalhar num clima seco e frio onde antes houveram dois grandes amigos.
Já nessa época Alves quer a reconciliação. O tempo vai passando, Alves se reconcilia com Ludovina. Sua amizade com Machado renasce; a firma prospera, Machado casa, enviuva, casa novamente, etc. Ao final de 30 anos, os três são felizes e ainda muito unidos, mas nunca esquecem o episódio lamentável em que se envolveram.
O romance tem como cenário a Lisboa nos fins do século XIX e seu imaginário social. O texto propõe o que já foi chamado de sociologia do adultério um dos temas recorrentes em Eça de Queiroz. Traz a visão de que o ócio degenerava a virtude da sociedade como um todo e, sendo assim, a mulher que tem muitas ocupações é mais fiel. Godofredo Alves, o protagonista, que vem de uma classe mais pobre e cresce com o comércio, vive um dilema: seus amigos, de dinheiro “fácil”, tem idéias de fidelidade diferentes da sua. E o que é, na verdade, essa idéia posta de fidelidade? O episódio que gera a questão vem logo no início da narrativa, quando Alves chega em sua casa e encontra sua esposa nos braços do sócio. Este mais jovem e com mais dinheiro. Godofredo se desespera, expulsa a mulher de sua casa e trama se vingar matando o sócio. Como fazer? Busca o auxílio de amigos próximos e entre discussões e desilusões repensa seus valores morais. O texto retrata o cotidiano do século XIX em Portugal e a mudança de costumes solidificados, representados por Godofredo Alves, como a própria fidelidade matrimonial, o duelo para justificar a honra, a mesada para a esposa traidora, as “aparências” que deveriam ser mantidas, frente a visão dos demais personagens: o sogro que preocupasse com a mesada da filha, seus amigos que lhe dão uma aula de experiências amorosas, os empregados que fazem vistas grossas aos acontecimentos. Depois de persuadido, Godofredo resolve retornar à mulher e aceita o sócio novamente. E fica o dito pelo não dito e viveram felizes, etc. A questão central de “Alves e Cia.” é a adequação do homem ao meio, a pressão da sociedade que o obriga a tomar posições frente aos acontecimentos em seu dia a dia; a degeneração da moral cristã que só existe como um véu encobrindo a realidade e o tempo – a velocidade das transformações sociais que atropela um conjunto de valores solidificados – que apaga todas as feridas. Tudo estava bem na vida do Alves. Até que um dia ele chegou em casa e teve a terrível visão em sua sala de estar: sua mulher, no sofá amarelo, em postura inconveniente, trocando afagos com um outro homem. Negócios, tranqüilidade, o doce lar, tudo veio abaixo de uma só vez, como num pesadelo terrível. Desesperado, Alves vê sua vida ruir e, indignado, anseia por vingança. Afinal, perde-se a mulher, mas não se perde a honra. O que é realmente importante para a vida social de um homem nesse conjunto que é o século XIX e, em determinadas classes sociais, para o homem de hoje? Tais questões permeiam todo o texto. Podemos perceber que o naturalismo – característico dos textos anteriores de Eça de Queiroz – já começa a dar espaço a um sarcasmo diluído na narrativa (que não invalida o naturalismo) que funciona como uma “saturação”, aparecendo em cada detalhe descrito do cotidiano português. A critica é tomada à sociedade burguesa. É o caso da construção de uma espécie de “anticiúmes’. Godofredo Alves é o estereótipo da prudência mercantil e da burguesia constituída em sólidas bases. Sua reconciliação com a mulher e com o sócio determina a prevalência dos negócios: a firma, as aparências, a conveniência social, etc. sobre as relações amorosas: “As paixões fortes pertencem aos livros”. As pressões de seus amigos e dos demais membros de sua convivência/conveniência social o persuadem a esquecer o "acidental" adultério, reduzindo-o a um acidente pouco significativo. O que sobrevive é, realmente, a necessidade de sobrevivência em uma sociedade capitalista.

sábado, 12 de novembro de 2011

Iaiá Garcia (Machado de Assis)


Luis Garcia era um homem reservado (pai de Iaiá ) e vivia exclusivamente por sua filha, Lina, uma garota mimada, que tinha toda a atenção de seu pai. Viúvo, ele vivia em uma casa mais afastada que se enchia de alegria quando Lina, ou melhor, Iaiá Garcia, chegava da escola. Na casa ainda havia um negro que era todo dedicado ao senhor e sua filha.
No círculo pequeno de amizades de Luis estava a Sra. Valéria, também viúva. Esta tinha um filho, Jorge. E foi por ele que Valéria chamou Luis à sua casa. Acontece que ela desejava mandar o filho à guerra do Paraguai e queria que Luis a ajudasse a “fazer a cabeça do jovem”. Justificava esse desejo afirmando que era seu dever como cidadão e também em referência às glórias e méritos que tais conflitos geram aos vencedores, não acreditando na morte do filho. Porém sua verdadeira razão era fazê-lo esquecer uma grande paixão.
Na casa de Valéria vivia Estela, filha de um grande amigo do seu  finado.. E fora justamente essa moça que despertara em Jorge a paixão verdadeira. Jorge a amava e até chegou a se declarar e furtar um beijo da moça, o que a fez resolver voltar à casa de seu pai. Mas ela apenas negava o amor que sentia; quando o descobriu logo acreditou em sua impossibilidade e o trancou para sempre ao fundo de seu coração.
Jorge que fundia a realidade com romances foi à guerra e lá se manteve fiel à paixão que em carta a Luis Garcia afirmava tê-lo transformado de criança a homem. Enquanto isso Estela não sofria de amores, seu sentimento era como que esquecido e ela mantinha-se orgulhosa, firme e até mesmo fria.
Durante os anos em que Jorge ficou na guerra, Valéria mesmo não acreditando em vestígios do romance de outros tempos chamou Estela de volta à sua casa e viviam em perfeita harmonia. Como era seu intuito, a senhora falou à moça da necessidade de se casar e assim lhe disse que quando achasse o homem conveniente a avisaria.
Nestas circunstâncias iniciou-se um convívio mais intenso entre a casa de Luis Garcia e de Valéria. Iaiá encantava a todos eles e ela e Estela logo se fizeram companheiras. Em seguida a menina deu a falar de um casamento entre seu pai e a companheira. Luis viu como as duas se davam bem, Estela viu como ele era um homem digno e assim se fez o casamento deles: companheirismo e respeito.
Por fim, Jorge voltou da guerra – e cheio de glórias. Sua mãe já havia falecido. Ele também já sabia do casamento de Estela e, como sua família era amiga da família de Luis, as visitas se fizeram necessária. Ele inicialmente se abalava enquanto ela era fria como antes.
Quando Luis Garcia ficou doente, a presença de Jorge se tornou mais presente e, como o doente lhe pedira que auxiliasse a família, ele passou a ser íntimo da casa da mesma forma que Procópio Dias era. A convivência ali era calma, no entanto, Iaiá que já se tornara moça parecia sentir por Jorge um desprezo injustificável. A doença de Luis Garcia teve fim, mas seus problemas no coração logo lhe tirariam a vida.
Em certo tempo, em uma limpeza de papel que Luis fazia, encontrou ali a carta que Jorge lhe mandara lhe descrevendo seu amor fiel que se transformara de criança para homem. Achou graça de tal texto e deu-lhe para Estela ler. Ele não viu nenhuma das alterações por qual a esposa passara diante da carta, porém Iaiá viu. Em seguida a menina passou a desconfiar que houvesse entre a madrasta e Jorge um romance proibido que fosse mantido em segredo no coração dos dois.
Nesse tempo também, Procópio Dias afirmava a Jorge o amor que tinha por Iaiá e pedia-lhe seu apoio, ainda mais porque se via obrigado a uma viagem ao Rio que demoraria quatro meses ou mais.
Foi também aí que Iaiá mudou seu relacionamento com a madrasta e com Jorge. Para com Estela vivia de acordo a favorecer a paz doméstica e com Jorge se tornava amável. Este fez referência a ela sobre o amor de Procópio Dias, ao que a menina não mostrava nem um pouco de interesse. E bastaram esses meses que ele se mantinha fora para que Iaiá e Jorge iniciassem um romance, amavam-se de fato.
Quando Procópio chegou já não se sentia tão abalado por Iaiá, mas ainda lhe guardava certa paixão. Ao mesmo tempo Luis Garcia sentia o peso dos problemas cardíacos que tinha e beirava a morte. Estela, que estava ciente do romance da enteada, não só afirmou se agradar de tal coisa como também incentivou o casamento dos dois o mais breve possível para que fosse possível a Luis Garcia ter o prazer de dar a bênção à filha.
Infelizmente ele faleceu antes. Iaiá, que era profundamente ligada ao pai, ficou abalada por longo tempo e assim adiando seu casamento. Jorge, depois de certo tempo de luto, questionou à noiva sobre a data do casamento ao que ela respondeu com uma carta de rompimento. E encarregou ao negro fiel da família a entrega de outra carta a Procópio, tendo esperanças nos sentimentos que ele afirmara ter por ela.
Jorge, como resposta a carta de rompimento, enviou outra a Estela perguntando o porquê da ação de Iaiá. Estela questionou à menina que respondeu que não poderia se casar com Jorge já que ela o amava. A madrasta, extremamente irritada, agiu até convencer Iaiá de que não havia amor nenhum entre eles e assim respondeu a Jorge que a carta da enteada não passara de um capricho.
Por sorte, o negro achou melhor não entregar a carta a Procópio e assim o casamento de Jorge e Iaiá foi marcado e concretizado. Estela fora pra outra cidade onde arrumara um emprego. Seu pai, que nunca fora confiável para Luis Garcia, sempre viveu dos outros e desejava ver a filha junto a Jorge, não foi com ela.
Madrasta e enteada trocavam cartas e no dia do aniversário de um ano da morte de Luis no cemitério Iaiá encontrou ali uma coroa deixada por Estela, a qual beijou como se fosse a madrasta, que sinceramente deixara ali flores ao falecido marido.