sábado, 27 de agosto de 2011

O Ateneu (Raul Pompéia)



O Ateneu - resumo e análise da obra de Raul Pompéia

Quem aprecia uma boa leitura não pode deixar de ler o livro O Ateneu, de Raul Pompeia. O autor narra como um garoto de cerca de 11 anos passa pela experiência de estudar em um internato, que dá nome ao livro. De inicio o jovem mescla a preocupação de abandonar o aconchego do lar, onde recebe todo cuidado maternal com a expectativa de poder sair de casa, definir sua individualidade, partir como um guerreiro para travar e vencer a luta contra o ambiente do Ateneu.
Sérgio, nome que recebe o garoto, já havia estado por duas ocasiões no Ateneu e trazia ótimas recordações do que presenciara ali. Eram as festividades da cidade quando pessoas tão nobres como o Dr. Aristarco Argolo de Ramos da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de pedagogo, o ministro do império bem como a cidade em peso; Nessas ocasiões havia desfiles dos alunos impecavelmente vestidos. Uma outra vez foi por ocasião da festa da ginástica. As galas do momento faziam sorrir a paisagem. O arvoredo do imenso jardim, entretecido a cores por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de estranha alegria; os vistosos panos, em meio da ramagem, fingiam flores colossais, numa caricatura extravagante de primavera.
“Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pai prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse”... essa descrição mostra o quanto o garoto se iludia com a idéia de que o Ateneu era um lugar ideal para se viver. Note como o autor descreve o fascínio do garoto pelo Ateneu. “É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pai que eu ia ser apresentado ao diretor do Ateneu e à matrícula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legítimo instinto da responsabilidade altiva era uma conseqüência apaixonada da sedução do espetáculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender à comunhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empresa ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no cálculo pobre de uma experiência de dez anos”...
Mas ao chegar ao Ateneu Sérgio se depara com a fria realidade de um sistema onde o preconceito é marcado por distinções políticas, por distinções financeiras e na crônica escolar do discípulo. Levado a conhecer o internato, Sérgio descobre o quão severo é o rigor moral da instituição que não tolera a imoralidade em espécie alguma.  Encontrou em Rabelo um amigo que lhe ajudaria a lidar com os demais alunos mostrando os que eram bons e os que eram más companhias.
A solidão resultante da ausência do carinho materno aliado ao ambiente hostil ali encontrado logo cobrou seu tributo. Narrando os fatos ali vividos, o incidente no tanque de banho quando alguém covardemente o puxou para baixo da água quase o matando afogado  é citado como recordação que não gostaria de ter.
Ainda outro aspecto destacado é a relação do garoto com Deus que se desenvolveu a partir das aulas de catequismo o que acabou resultando na sua descrença devido a confusa maneira dos ensinamentos a respeito do Todo Poderoso.
As férias que lhe daria a oportunidade de rever a família veio como um bálsamo. As lágrimas de alegria se misturavam com a emoção de estar entre os seus. O assassinato de um homem envolvido na disputa do coração de uma criada causou grande confusão no Ateneu, em certa noite por volta da hora do jantar. E assim o autor continua vivendo entre uma aventura e outra, entre decepções e alegrias resultantes de sua permanência no internato até acontecer um incêndio que destruiu parcialmente o suntuoso edifício.
Tiramos uma lição muito valiosa deste relato entre a realidade e a ilusão a um grande abismo, alguns quando confrontados com a realidade preferem viver em ilusão; outros se esquecendo das ilusões encaram a realidade e amadurecem mais e mais fazendo da vida a verdadeira escola e do tempo o verdadeiro mestre.

Análise do livro
Sérgio, o protagonista, relembra os dois anos em que viveu no internato chamado Ateneu, num texto marcado por características do naturalismo, mas que não se limita a seguir os preceitos desse movimento literário
O Ateneu, livro de Raul Pompéia que tem como subtítulo Crônica de Saudades, foi publicado em folhetins em 1888. Considerada uma das grandes obras da literatura brasileira, narra os dois anos em que Sérgio, o protagonista, vive no internato chamado Ateneu.
A primeira dificuldade na análise do livro é enquadrá-lo numa categoria fixa, ou seja, fazer uma classificação rígida sobre que tipo de romance ele representa. Pode ser considerado desde um relato autobiográfico até um romance de formação, ou ainda uma típica narrativa de cunho naturalista. Vistas isoladamente, no entanto, essas abordagens deixam a dever no entendimento final da obra.
NATURALISMO SUBVERTIDO
De acordo com os preceitos do romance naturalista, ao qual se pode associar o livro, depreende-se em O Ateneu uma crítica feroz às instituições de ensino das elites do século XIX. O colégio é visto como microcosmo da sociedade. Para isso, o narrador utiliza descrições de toda ordem, físicas ou psicológicas, levadas a cabo com rigor e riqueza de detalhes quase científicos.
A narrativa é assim apresentada num movimento linear de fora para dentro, do macro para o micro. É como se o leitor penetrasse em um organismo vivo. Inicialmente, a instituição educacional é mostrada a partir de um foco externo: as festas, os discursos, os ginastas e suas coreografias, a princesa imperial, que prestigiava os eventos, e, principalmente, a figura central de Aristarco, pedagogo e dono do colégio.
Desse ponto de vista, o narrador encara o Ateneu com certa perplexidade e maravilhamento. O colégio não se revela ainda um mundo rebaixado, como se verá mais tarde. Nesse nível, a percepção do que é a escola se situa no âmbito do discurso publicitário, “dos reclames”, no dizer do narrador, o que é sublinhado, de forma irônica, por meio do personagem Aristarco.
Esse primeiro exame dá conta do viés naturalista. Há, porém, um aspecto que deixa a leitura mais complexa. A estética naturalista concebe uma arte na qual o autor assume o papel de observador, daí seu pretenso distanciamento em relação à matéria narrada, para que possa criticar de forma mais adequada as doenças do mundo. Era a maneira – que naquele momento tinha grande prestígio na Europa – de conceber as artes: o artista se coloca como cientista e se isola do mundo por ele examinado.
Em O Ateneu, no entanto, há um narrador-protagonista. O foco em primeira pessoa subverte os preceitos naturalistas, de isenção e distanciamento. Sérgio narra e comenta o mundo narrado. Desse modo, a compreensão sobre o que é o Ateneu se estrutura na obra com as impressões do personagem principal. E, como elemento complicador, isso se realiza pautado na perspectiva adulta. O romance é um relato das memórias de Sérgio a respeito dos dois anos em que passou no internato.
Há, então, uma matéria narrada (o mundo do Ateneu), impregnada da consciência, das impressões do narrador, e recuperada por sua memória daquele tempo. Essa atitude literária afasta a obra do modelo clássico de realismo/naturalismo. Por outro lado, o romance abriga vários aspectos naturalistas, como o determinismo, a presença do homossexualismo e os aspectos animalescos (comparações de personagens com animais).
ESPAÇO
A obra é claramente dividida em dois espaços: fora e dentro do colégio. O primeiro é visto como ambiência do mundo natural. O segundo funciona como rito de iniciação, acontecimento traumático por meio do qual ocorre a passagem do universo infantil para o adulto, espaço para a formação do homem.

O Ateneu, contudo, em vez de formar, deforma o homem. Trata-se de uma formação às avessas, ou seja, o que se espera de uma instituição é subvertido por uma educação bárbara. O ensino no colégio é determinado por um espaço no qual impera o ideal da força sobre os mais fracos.
TEMPO
O tempo é dividido em tempo psicológico e tempo vivido. O primeiro é o da memória, manuseado pelo narrador da maneira que lhe vem na consciência. Assim, na narração temos os episódios que ficaram na memória narrativa do autor. Já o tempo vivido se circunscreve linearmente aos dois anos de internato vividos pelo protagonista. Isso garante complexidade à obra e confere maior densidade a sua leitura.
ENREDO
Após a entrada de Sérgio no Ateneu, o local é apresentado de forma minuciosa e estilizada. Há abundância descritiva de detalhes. O narrador se atém a cada episódio, buscando na memória o fio condutor da narrativa. Tudo isso amparado por metáforas e comparações, o que garante uma prosa formalmente hiperbólica, com tom de grandeza, como se o estilo elevasse aquele mundo por meio da linguagem. Assim, a cada episódio são descritos os colegas, os desafetos, os baderneiros, os protetores, os professores, Ema e, principalmente, Aristarco.
As relações entre esses personagens, no relato de Sérgio, formam o Ateneu. Esse, por sua vez, como em O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, funciona na estrutura do livro como personagem. Essa é mais uma das singularidades do romance em relação ao que prescrevia a estética naturalista, para a qual o meio se sobrepunha sempre ao indivíduo, determinando-o, como no caso do citado romance de Aluísio de Azevedo. Em O Ateneu, isso quase sempre ocorre, mas, na caracterização formal que envolve Aristarco e o Ateneu num mesmo grupo de características, o meio e o indivíduo se identificam. Isso torna as forças de determinação do meio quase nulas, colocando em ação a determinação estrutural edificada pelo poder – como acontece na hierarquia institucional, nas relações de trabalho e nas relações sociais.
Aristarco é construído no mesmo processo. Ambos – a escola e seu diretor – são abordados de maneira grandiloqüente, nas comparações com vultos da Antiguidade clássica, deuses e monumentos sacros. No entanto, essa construção mascara um lado torpe. Por baixo da carapaça de uma instituição educacional de renome, há o pior dos mundos, retratado em relações homossexuais degradadas, nas quais os mais fortes subjugam os menores.
Aristarco é visto, inicialmente, como um pedagogo-modelo. Essa imagem, no entanto, como a do próprio internato, não passa de fachada. O diretor é conivente com o ambiente mórbido das relações entre alunos e professores. Tome-se, por exemplo, o caso de Franco, um dos internos, personagem que encarna o aspecto mais doentio do colégio. Abandonado pela família, serve como bode expiatório para Aristarco.
Aristarco e o Ateneu se determinam um em função do outro, tanto no processo de sua construção como na desconstrução, quando tragicamente um interno ateia fogo ao colégio. Ema, esposa de Aristarco, aproveita o momento para fugir e abandonar o marido.

sábado, 13 de agosto de 2011

Tentação (Adolfo Caminha)

• Tentação, de Adolfo Caminha, é um livro justaposto com a época da monarquia, como a família real, o Imperador do Brasil D. Pedro II e a Alteza Princesa Isabel.

• Bacharel Evaristo de Holanda fôra convidado pelo amigo Luís Furtado a sair do Maranhão para ir morar no Botafogo, no Rio de Janeiro - cidade de maiores perspectivas financeiras. O amigo lhe prometera um emprego no Banco Industrial. Então Evaristo e sua esposa Adelaide partiram para o Rio de Janeiro deixando a velha cozinheira, a Balbina.

• No Rio de Janeiro foram para a casa de Furtado onde conheceram a esposa dele D. Branca e uma amiga da família D. Sinhá, filha de um desembargador de nome Lousada, vizinho deles. Também conheceram os filhos do casal que se chamavam Raul e Julinha, uma menina ainda de colo.

• A mãe de D. sinhá era Dama do Paço e através dela o casal Furtado e D. Branca conheceram a família Imperial. O secretário do Banco Industrial, Luis Furtado conhecia o Rio de Janeiro de um extremo ao outro e tinha ótimas relações na sociedade fluminense, inclusive com o desembargador Lousada onde por ele conhecera outras pessoas de posições influentes na sociedade. A mulher do desembargador Lousada sendo Dama do Paço, tinha intimidade com a Imperatriz; por intermédio dela é que D. Branca se relacionara com a D. Isabel, princesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil! Ela seria a madrinha de batismo de Julinha por procuração.

• Então haveria uma festa na casa do Furtado. O casal iria batizar sua filhinha Julinha e os convidados seriam pessoas ilustres, incluindo o desembargador Lousada, sua esposa, sua filha e outros. No entanto, para Adelaide, isso a estava perturbando pois não tinha uma roupa adequada para vestir na festa como tinha D. Branca. E ela chorava com isso. Porém, seu marido, Evaristo, que iria pegar um empréstimo no banco, acabou por aceitar o empréstimo do amigo Furtado, que seria sem juros e sem prazo para pagar. Com isso, obteve o dinheiro para comprar as roupas.

• Luis Furtado vivia bem com sua esposa, mas não podia ver um lindo rosto de mulher. E foi assim que ele admirou a Adelaide, a mulher de Evaristo de Holanda, desde a sua chegada.

• Chegou o dia do batizado. Todos os amigos ilustres de Furtado compareceram entre eles o desembargador Lousada, a viúva Tourinho, a D. Rosa, mulher do Loyola, tesoureiro do Banco. Vieram também o Valdevino Manhães (Dr. Condicional), o Sr. Visconde de Santa Quitéria, diretor do Banco luso-brasileiro. Adelaide via como um fantasma diante dela toda a Corte Imperial. Mas acabou dando tudo certo.

• Em um outro dia, Luis Furtado fez uma surpresa para o seu amigo Evaristo, comprando toda a mobília de que precisavam para ficarem melhor instalados no andar de cima da casa.

• A família toda agora unida (os dois casais) resolvera em um domingo fazer um piquenique no Jardim Botânico. Furtado convidara para o passeio apenas um dos amigos que devera favores, o Visconde de Santa Quitéria. Seria muito bom para todos curtirem um pouco a natureza e ficarem longe da “Rua Ouvidor” e dos mexericos do bairro.

• Durante o piquenique, por um momento Furtado ficara sozinho com Adelaide e como era muito galanteador jogara algumas palavras na tentativa de seduzi-la. Como Adelaide, talvez por timidez se mantinha calada, fôra beijada por ele. E ainda assim Adelaide não conseguiu dizer mais nada e nem pensou em contar ao seu marido.

• Passado o piquenique Adelaide ficava refletindo sobre a imoralidade de Furtado. “Ou será que ele a amava”?

• A Rua do Ouvidor era o local dos encontros onde se falava muito de política e literatura. Falavam também das mulheres, dos homens, dos amigos, das pessoas enfim. As maiores notabilidades da política, da literatura e das artes, os mais conhecidos escritores e homens de Estado viam-se ali, em grupos, à porta do Café de Londres, do Castelões ou do Pascoal.

• A família real resolve regressar para a Europa e houve um grande movimento de pessoas nas ruas para vê-los se despedindo. Furtado considerava e apoiava o imperador enquanto que Evaristo, republicano, não iria contra as suas convicções. Ele deixara sua esposa ir até o Arsenal da Marinha, ponto de embarque do imperador (monarca), mas ele mesmo não fôra.

• O governo ficou entregue à Sua Alteza Imperial Regente D. Isabel, herdeira do trono.

• Com o tempo começaram os conflitos na casa do Furtado. Furtado e Evaristo sempre discutiam política: enquanto Furtado defendia a monarquia, Evaristo vivia para a república e para o Clube Republicano de Botafogo. E o clima para ele diante dos amigos de Furtado era sempre ruim: - "Canalha de graúdos! Corja de mandriões! Visconde... que quer dizer um visconde? Que quer dizer um barão? Que quer dizer um comendador? Dizia Evaristo”!

• Enquanto isso, Furtado sempre por perto de Adelaide insinuando alguma coisa. E Adelaide, no entanto, já se encontrava um pouco envolvida em seus pensamentos, em sua imaginação: os olhos de Furtado, a boca sensual de Furtado, o rosto inteiro daquele homem que era como uma tentação do inferno a persegui-la, a persegui-la...

• Adelaide, em uma manhã, jurou ir-se embora daquela casa da Corte e fugir para longe, voltar à Coqueiros, na província, onde nunca o demônio lhe sorrira tão de perto.

• Então Adelaide começou a pedir ao seu marido que voltassem para Coqueiros. A princípio ele não queria voltar mas com o tempo vendo sua esposa muito nervosa e sensível resolvera sair do Rio de Janeiro.

• Uma certa noite, enquanto o casal Evaristo e Adelaide tinham se recolhido cedo no quarto do andar de cima viram D. Branca (que ficava na parte de baixo da casa) receber o banqueiro Visconde de Santa Quitéria em uma visita com um pouco mais de intimidade. Furtado na ocasião havia saído.

• Então Evaristo, indignado, encontrara ainda mais razões para ir embora. O bacharel não se conteve: - armou o punho indignado: - “Corja”! E pensava: - “Franqueza, franqueza... ele também se dera muito mal no Rio. Hipocrisia, hipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente encontrava. O próprio Luís Furtado e a própria Sra. D. Branca o que eram, senão uns hipócritas? O Visconde, o Desembargador, o Condicional, o Pessegueiro... tudo uma corja de hipócritas”!

• Outro dia, quando Evaristo e Furtado saíram para trabalhar, Adelaide no andar de cima, dera uns gritos finos em uma crise de nervos, talvez. D. Branca, a ama de Julinha e Antônio o empregado correram para cima para acudi-la. No entanto, D. Branca pediu a ama que pegasse o éter para Adelaide que se encontrava desmaiada. Pediu também ao Antônio que fosse ao banco chamar Evaristo. D. Branca não poderia sair dali para chamar o médico porque estava com trajes caseiros para sair à rua.

• Quando Evaristo chegou, foi correndo se encontrar com Adelaide que já havia acordado. Evaristo perguntou por que não chamaram o médico e D. Branca lhe disse que não tinha quem o fizesse isso. Então Evaristo explodiu: - “Deixavam-te morrer, minha mulher, deixavam-te expirar à míngua! - disse o bacharel transbordando ironia. - Onde há dinheiro falta piedade”...

• D. Branca se sentiu ofendida com as palavras de Evaristo e contou tudo ao Furtado, seu marido.

• Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no Campo da Aclamação. - "Bastava de fidalgos..." Não quis levar os trastes, porque - dizia ele - não lhe pertenciam; recolheu apenas os baús que trouxera do norte. Quando o carro parou em frente à casa do Furtado a vizinhança saiu toda para ficar olhando.

• O secretário ouvia tudo com uma resignação de carneiro imolado, sem proferir palavra, sem a mais leve queixa. Não foi pedir explicações ao amigo: esperou os acontecimentos com a mesma calma de homem que sabe ajuizar dos homens e crê numa fatalidade que a tudo resiste e tudo domina na ordem moral e nas relações sociais.

• Adelaide e Evaristo entraram no carro sem se despedirem. E para Adelaide apenas um objeto perdurava na sua imaginação - triste esfinge na aridez de um deserto - a figura do secretário, mais do que nunca tentadora, numa auréola deslumbrante que o divinizava, olhando-a, todo voltado para ela, todo dela...

• E Furtado, não quis que tomasse a pôr os olhos insaciáveis na miragem que o fizera sonhar noites inteiras, dias inteiros, na ânsia de um gozo novo. E sobre o amigo, pensava Furtado: “de que ia viver Evaristo, agora, sem um amigo que lhe desse a mão”? Por outro lado reconstruía mentalmente o episódio do Jardim Botânico, em que fora protagonista a esposa do bacharel, e sentia extraordinária volúpia cada vez que se lembrava daquele beijo de fogo, mais precioso que todas as riquezas do mundo e cujo calor como que lhe ficara impregnado na boca para todo o sempre... Ela o repelira brandamente, cheia de dignidade, cheia de pudor, fiel ao homem que escolhera para esposo; mas nisso é que estava o sabor esquisito e fidalgo que lhe ainda permanecia, por um efeito da imaginação, nos lábios trêmulos...


Personagens do livro:

• D. Pedro II: Monarca e Imperador do Brasil. Padrinho do Raul, filho do Furtado.
• D. Isabel: Princesa Imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil. Madrinha de Julinha por procuração.
• Visconde de Santa Quitéria: Capitalista, diretor do Banco Luso-Brasileiro.
• Valdevino Manhães (Dr. Condicional): Diretor da Revista Literária e autor de muitos livros, de muitíssimas obras, entre as quais o poema herói - cômico Juca Pirão, paródia ao "I-Juca-Pirama", de Gonçalves Dias. Pequenino, metidinho a critico, um bigodinho quase imperceptível, sempre de lunetas - era conhecido por Dr. Condicional, porque nunca dizia as coisas em tom afirmativo: tinha sempre um mas..., um talvez..., um se..., quando criticava obras alheias. Ninguém para ele era escritor feito, nem mesmo os consagrados: todos haviam de ser grandes poetas, grandes romancistas, grandes homens... se continuassem a estudar. Outra mania de Valdevino Manhães era falar na sua viagem à Europa. - Oh, em Lisboa merecera os maiores elogios, as mais belas referências de quanto jornalista sabe terçar a pena (terçar a pena era uma de suas frases prediletas.
• Luís Furtado: Ele conhecia o Evaristo desde criança, desde os bancos colegiais, quando ambos cursavam o Liceu; eram amigos, amiguinhos como dois irmãos. Luís Furtado era homem de meia -idade, alto, robustez física invejável, pele rósea e conservada, bigode negro, tratado a brilhantina, olhos negros e comunicativos, um pouco lânguidos, talvez por afetação, talvez por temperamento. Belo, verdadeiramente belo, ninguém o diria sem risco de profanar o ideal antigo da beleza máscula; no entanto, podia dizer-se dele que era, na acepção moderníssima, um bonito homem. A convivência na Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano setentrional. O Rio de Janeiro, com o seu maravilhoso poder de cidade cosmopolita, afinara-lhe a cútis e a educação. Davam-lhe doutor, mas, em verdade, nunca pusera os pés numa academia; os preparatórios mesmo, ele os não completara; e como no Rio de Janeiro, na Corte, toda a gente é doutor, ninguém punha dúvida no fictício diploma de Luís Furtado. Mas a qualidade característica do secretário do Banco Industrial era o amor às mulheres, uma tendência notável para as conquistas de boudoirs.
• D. Branca: Esposa de Furtado
• Bacharel Evaristo de Holanda: Formado, bacharel em direito, autor de muitos escritos. Casou com Adelaide, uma moça simples e tímida. Tinha uma vida sem ruído, sem luxo, indo logo morar em Coqueiros e acabando por achar aquilo muito fora da civilização, incompatível com a sua natureza irrequieta de homem que não veio ao mundo para morrer obscuro "num lugarejo humilde de província”...
• Adelaide: Rapariga dócil, de coração meigo como o coração das pombas.
• Loyola: Tesoureiro do Banco
• Xavier: Do Jornal de Notícias
• Desembargador Lousada: Vizinho do Furtado e padrinho da Julinha, filha do Furtado. A madrinha dela, a princesa D. Isabel, por procuração.
• D. Sinhá: Filha do Desembargador Lousada.
• Raul: Filho do Furtado e D. Branca
• Julinha: Filha do Furtado e D. Branca

domingo, 7 de agosto de 2011

Luzia Homem (Domingos Olímpio)


  • Na construção da penitenciária de Sobral, pequena cidade do Ceará, muitos retirantes trabalham para não morrerem de fome.
  • Uma linda morena chama a atenção de todos. É luzia que faz serviços de homem para poder receber ração dobrada, em virtude de ter a mãe doente em casa. Seu corpo é esbelto e feminino e, acostumada que fora na antiga fazenda do pai a trabalhar em serviços pesados, tinha muita força, fazendo o que muitos homens não podiam. Por isso recebera o apelido de Luzia-Homem. Recatada e silenciosa, não tinha muitas relações de amizade. No entanto, o soldado Crapiúna era apaixonado ou pelo menos atraído fisicamente com violência por Luzia. Esta não correspondia aos seus cortejos, desprezando-o e tornando o soldado cada vez mais obcecado por ela.
  • Tinha Luzia um amigo muito leal e respeitoso chamado Alexandre, rapaz bonito e educado, que trabalhava no armazém da Comissão. Teresinha era outra amiga de Luzia. Moça branca, de cabelos castanhos, que há muito havia fugido de casa e se prostituíra.
  • Certo dia passando com Teresinha pelo armazém viram um tumulto e ao se informarem ficaram sabendo que Alexandre fora preso por causa de um grande roubo que houvera no almoxarifado do armazém.
  • Luzia e Teresinha, acreditando na inocência de Alexandre que estava na prisão aguardando o julgamento, levavam-lhe comida todos os dias.
  • Tempos após, Teresinha, tendo ido se esticar na rede, vê nos fundos do quintal o soldado Crapiúna abrindo um baú e apanhando uma bolsa de couro de onça contendo dinheiro. Teresinha passa a desconfiar do soldado, o mesmo acontecendo com Luzia a quem Teresinha contara o ocorrido. Outra vez Luzia encontra Quinotinha que lhe diz ter ouvido Crapiúna confessando ser o autor do roubo a uma mulher que o amava. Luzia, certa da verdade, antes de falar com Teresinha foi até o delegado e lhe contou tudo, o qual não acreditando muito, foi até o quintal da casa de Teresinha encontrando o baú com as coisas roubadas do armazém.
  • No julgamento, Alexandre foi absolvido e Crapiúna expulso da corporação. O ex-soldado, vendo a felicidade de Luzia, jurou vingar-se.
  • Teresinha encontra a família que a estava procurando pelo sertão e vão morar juntos na casa dela.
  • Passados esses acontecimentos, Alexandre propôs a Luzia irem morar na serra, levando a mãe dela e a família de Teresinha. Luzia, que começara a despertar para o amor de Alexandre que já a amava silenciosamente há muito tempo, fica feliz e começam a arrumar as trouxas para a mudança.
  • Alexandre partiu no dia seguinte com a família de Teresinha para escolherem a casa.
  • Teresinha, Luzia, Josefina, Raulino e outros quatro homens foram na tarde do dia seguinte.
  • Teresinha saiu na frente para ajudar os outros na arrumação da casa. Os cinco homens carregavam a rede com D. Josefina. Ao chegar à serra, Raulino indicou um atalho à Luzia dizendo que eles levariam a rede com D. Josefina pela estrada. Luzia foi seguindo os passos de Teresinha no barro. Andou ao redor de um morro até que chegou a um rio cheio de pedras e de água pura. Quando ia  atravessá-lo ouviu um grito. Olhou a sua esquerda e viu Crapiúna que havia fugido da cadeia e estava segurando Teresinha pelo braço. Luzia atravessou o rio e gritou:  
- Solte a moça, seu Crapiúna!
               - Até que enfim nos encontramos, disse o bandido.
  • Capriúna largou Teresinha e avançou sobre Luzia, puxando-a e rasgando toda sua roupa. No desespero, Luzia reagiu cravando as unhas no rosto de Crapiúna, deixando-o desfigurado e tonto. Crapiúna arrancou uma faca e cravou-a no peito de Luzia, despencando em seguida do penhasco.
  • Neste instante chega Raulino que vê Teresinha horrorizada e, olhando a sua direita, aproxima-se de Luzia, já com os olhos arregalados e sem vida!