domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Estrangeiro – Albert Camus


Na segunda metade do século XIX para o século XX, o mundo começou a passar por profundas mudanças. O ideal da literatura romântica quanto à natureza essencialmente boa do ser humano e a idéia de que o progresso traria necessariamente a felicidade para a humanidade, cedia, pouco a pouco, lugar a um pessimismo histórico e à crescente desvalorização destes conceitos. O lançamento do Manifesto Comunista e da Origem das Espécies, a explosão da Primeira Grande Guerra, entre outros acontecimentos, jogou por terra a visão teocêntrica que a humanidade fazia do mundo naquela época. O sentimento geral era de ruptura, de novos tempos e modos de vida, que se refletem até os dias atuais. Tal transformação, logicamente, não deixaria de marcar as mais diversas formas de artes.
Surgiu um movimento vanguardista que buscava o novo em detrimento do velho, romper quase inteiramente com o passado. Para eles, ou se fazia uma nova arte ou era melhor nem ter arte alguma. Explorar as sensações, os anseios e os piores medos do presente e, se possível, do futuro. Desse movimento, surgiram alguns dos maiores escritores e livros de todos os tempos. “A Terra Estéril”, de T. S. Eliot. James Joyce e seu monumento literário, “Ulisses”. Kafka, o criador de alguns dos mais perturbadores e estranhos romances já escritos. E, ainda, Dostoievski, provavelmente o escritor mais influente da literatura moderna.
Albert Camus, influenciado por essas vanguardas pôde expressar meticulosamente seus pensamentos, declarando a morte do conformismo em suas obras e influenciando milhares de pessoas até hoje. Seus esforços foram finalmente premiados com o Nobel de Literatura de 1957 (3 anos antes de seu falecimento).
Seu pensamento ganharia reflexo até na cultura pop até na mais insuspeita das mídias: o mangá. Em Cavaleiros do Zodíaco, o autor Masami Kurumada baseou o nome, os ensinamentos e a personalidade do Cavaleiro de Aquário homônimo em Camus.
Quando entrei para a prisão, percebi logo ao fim de poucos dias que não gostaria de falar dessa parte da minha vida.
Desde que nasceu, Albert Camus conheceu de perto o gosto amargo da morte e do sofrimento. Seu pai morreu na Primeira Grande Guerra e sua mãe teve que trabalhar duro para conseguir sustentar sozinha toda a sua família. A infância de Camus foi de fome e miséria. Porém, foi com a pobreza que ele descobriu os elementos e os temas que permeariam seus ensaios, suas peças, seus livros e seus romances.
Enquanto crescia, presenciaria acontecimentos que alteraram a vida e a obra de toda uma geração. A Grande Depressão, a Guerra Civil Espanhola, os milhões de mortos, as cidades destruídas e os países economicamente arruinados na Segunda Guerra Mundial, além da descoberta da bomba atômica. Influenciado por eles, e junto com personalidades como seu amigo Sartre, dedicaria sua vida a desmistificar os valores impostos por uma sociedade que não se importava com a dignidade humana. “O Estrangeiro”, um de seus melhores e mais famosos livros, alcançou esse objetivo.
Pensei que passava mais um domingo, que mamãe já estava enterrada, que ia regressar ao trabalho e que, no fim das contas, continuava tudo na mesma.
Meursault é um jovem escriturário, um homem comum como qualquer outro. Trabalha, paga sua contas, se relaciona com mulheres, entre outras atividades comuns. Normal por fora. Por dentro, é um cidadão sem ambições, conformado com sua vida e sem muita empatia social. Vazio por dentro, segue sua vida apenas com contentamentos imediatos como nadar ou dormir com sua namorada, Marie. Para ele, tanto faz. Tanto faz ter uma posição melhor no escritório. Tanto faz casar com uma mulher que nem ama só para fazê-la ficar feliz. Tanto faz se sua a mãe morre. Mais dia, menos dia, isso iria acontecer mesmo. Ele era como o mundo, indiferente. Centenas de pessoas podem morrer hoje e talvez até virem notícia de jornal e lamentemos a morte deles, porém tudo continuará como era antes. O mundo permanecerá girando e nós prosseguiremos fazendo o que fazíamos antes. Dormimos todas as noites com a mais profunda tranquilidade sobre a ruína de centenas de milhares de outras pessoas. Meursault era exatamente assim. Consequentemente, seu relato, com toda a sinceridade que só um homem que não tem mais nada a perder, carece de certo envolvimento emocional.
Não me arrependia muito do que tinha feito.
Toda a vida de Meursault muda em um curto e impensado momento em que comete um grave crime. É preso e começa a esperar seu julgamento. Na prisão, passas pelas agonias do confinamento. As artimanhas para ocupar as cada vez mais longas horas e dias cada vez mais idênticos, a falta de cigarros e de mulheres. E, o pior, a vontade de sair, de nadar na praia, de conversar com as pessoas. Ele descobre a beleza da vida livre quando a perde e sua única chance de recuperá-la é no julgamento.
Todo o problema estava em matar o tempo. Por último, acabei por já não me angustiar, a partir do instante em que aprendi a recordar. Quanto mais pensava mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi então que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem.
A escrita de Camus é cuidadosa. Fica logo claro que muito antes de se sentar para por a história no papel ele já tinha todos os detalhes da história de “O Estrangeiro” em sua mente. Nada, nenhum incidente, personagem ou diálogo é inútil, feito só para aumentar o número de páginas. Cada pequena ação tem uma força que impulsiona o romance e o faz seguir até o seu inevitável desfecho. “O Estrangeiro” é uma aula de concisão. Todos os acontecimentos são narrados brevemente, os personagens são pouco descritos e explorados. E, mesmo assim, podemos sentir a personalidade e as motivações de cada um. Porque são exatamente como qualquer pessoa. Um vizinho de prédio, um colega de trabalho, o dono de um estabelecimento que você costuma frequentar. São passíveis de erros, mentiras e outros defeitos. Enfim, vivem. Movimentam-se pela narrativa como as pessoas que por uma coincidência ou não afetam irremediavelmente nossas vidas.
Simplesmente somos colocados na mesma situação em que o protagonista se encontra. Camus não trabalhou incansavelmente cada sentimento que pretendia despertar no leitor e nem se esforçou em escrever uma história grandiosa, como era costume da maioria dos grandes autores contemporâneos de sua época.
“O Estrangeiro” é um romance curto, que pode ser lido em um só dia, mas, paradoxalmente, não é breve. Podemos sentir na nossa a pele a demora do processo, o passar dos meses em uma cela minúscula, sem nada pra fazer. Mas o autor não se perde em descrever minuciosamente esse tempo, só as sensações e os pensamentos de Meursault são transmitidos. O conhecimento de mais detalhes é desnecessário e não afeta a história. Não fosse assim, “O Estrangeiro” não teria a mesma qualidade. Porque se casa com perfeição ao estilo taciturno de Meursault. Além disso, sem a narração em primeira pessoa, o livro não seria metade do que ele é.
Dizia que, em boa verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que existem no coração dos homens, me era acessível.
O que difere Camus de muitos escritores é que seus romances sempre estavam relacionados à sua filosofia, que se desenvolvia no enredo e nos diálogos dos personagens. Sua obra tinha o intuito de construir um mundo novo, de identificar as situações negativas da vida e os meios para modificá-la. Reconstruir sobre os escombros. Para Camus, quem nasceu para não modificar nada não merecia seu respeito.
Tudo se passava sem a minha intervenção. Jogava-se a minha sorte sem que me pedissem a minha opinião.
E “O Estrangeiro” não é diferente. O livro em si é uma grande crítica ao sistema judiciário. Demonstra como o julgamento, responsável pelo destino de milhares de pessoas, pode ser falho. A forma como os advogados e os promotores manipulam a verdade. De um lado, Meursault é um monstro desalmado, do outro é um homem bom e responsável, que só cometeu um erro. Demonstra também como pouco a pouco já não é mais o crime que é julgado e sim questões aleatórias. E como o réu se torna um mero espectador, quando é seu destino que está em jogo. Todas as deficiências do sistema judiciário estão ali, representadas da forma como são.
“O Estrangeiro” faz parte da trilogia do absurdo de Camus, composta, além dele, de um ensaio, “O mito de Sísifo” e uma peça de teatro, “Calígula”. O mundo de Camus é um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Da fraternidade e da bondade. Da guerra e da miséria. Do calor e do Sol. Em “O Estrangeiro”, o Sol, por mais ilógico que pareça, mata por causa do sol. Assim como Meursault e muitos escritores modernos, Camus também se considerava um estrangeiro (ou um estranho, já que, no original em francês, L’Etranger, tem este duplo sentido) neste mundo, por isso o título do livro, sem um lugar para chamar de pátria. Um exilado, incapaz de compreender costumes e crenças locais. Um estranho no ninho.
Assim como Nietzsche, Camus acreditava que a felicidade era medida pela quantidade de prazer sentido pelo corpo. O próprio Meursault só se contenta com prazeres imediatos, como sexo e cigarros. Quanto mais a vida lhe valia, mais era absurda. Ambos andam lado a lado e a vida só encontrava sentido se a pessoa mergulhasse por completo no absurdo. Segundo suas próprias palavras, o absurdo era um “abismo sem fim, colocado diante do ser humano”, o vazio onde Albert Camus buscava, paradoxalmente, encontrar o sentido para a sua vida.
Infelizmente, são características como essas que mais podem afastar os leitores modernos. Não é novidade que “O Estrangeiro” não tem a mesma quantidade de fãs que os sempre populares livros de Jane Austen, um “Moby Dick” ou um “Drácula”. Não existe uma grande paixão entre suas páginas. Nem uma vingança pessoal como em “O Morro dos Ventos Uivantes” e o “Conde de Monte Cristo”. O próprio título talvez já não tenha poder de atrair leitores, e talvez esse seja um problema do duplo sentido no original estranho/estrangeiro e da falta disso na tradução. Ainda assim, a banda bem conhecida não apenas pelos góticos, mas por muita gente, The Cure, fez uma música inspirada em “O Estrangeiro”.
Este é um livro que merece e deve ser lido. Talvez você se identifique com ele, por ser um estranho no ninho, talvez por algum outro motivo, mas é uma obra fundamental na literatura contemporânea.
E essa também é nossa função. Não só divulgar livros que estão na lista de mais vendidos, mas de também indicar os pouco ou não tão conhecidos. Ao resenhar “O Estrangeiro”, aponto um dos mais originais romances já escritos e melhor do que a maioria dos romances escritos hoje em dia das listas dos bestsellers.
Camus faleceu em 4 de janeiro de 1960, aos quarenta e sete anos, num acidente de carro quando voltava para Paris. No acidente, o automóvel se espatifou contra uma árvore. Apenas Camus morreu na hora. O relógio do painel do carro parou no instante do acidente: 13h55min. O curioso é que Camus não iria seguir viagem de carro, mas de trem, tanto que já tinha até comprado sua passagem. Ele só aceitou entrar no veículo após muita insistência. E, assim, sua morte foi como a sua vida inteira. Um completo absurdo, confirmando as palavras que pôs em seu personagem Meursault de O Estrangeiro:
Todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que morrer aos trinta ou aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. No fim das contas, isso era claro como água, hoje ou daqui a vinte anos, era o mesmo eu quem morria.


Os Sofrimentos do Jovem Werther Resumo (Goethe)


Na obra-prima de Goethe, o jovem Werther, por motivos de trabalho, está longe de sua família e amigos, mas comunica-se com Wilhelm (Guilherme, amigo) através de cartas nas quais narra sua história de paixão e tragédia com a jovem Charlotte (Carlota).

Desde o início ele soube que sua amada estava prometida a um noivo: Albert (Alberto), homem qual Werther adquiriu grande admiração e amizade desde sua apresentação.

Mas o tempo é um martírio para as almas envoltas pela paixão. Com o convívio diário, Werther apaixonava-se cada vez mais. Passeios no campo, longas conversas, poemas, todos os momentos que contribuíram para fazer com que esquecesse do mundo todo e só visse importância em Charlotte (Carlota).

Werther, culpando-se do amor que sente pela jovem Charlotte, muda-se para outra região, mas não consegue esquecer a amada, por vezes, tentou afastar esse pensamento, sabia que nunca poderia tê-la para si. Mas a certeza cega de que ela também o amava fez com que retornasse para, mortalmente, ser atingido pela paixão.

Charlotte casa-se com Alberto, que passa a ter ciúmes de Werther, este percebendo o embaraço que causa ao casal, continua nutrindo um amor platônico por Charlotte. Werther promete não mais visitá-la e no último encontro com a moça, lê em voz alta, os Cantos de Ossain.

Ambos se comovem, choram, se abraçam e se beijam. O mais sublime e apaixonado beijo da história da literatura, mas em seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo. Charlotte (Carlota) sabia que amava Werther, mas também sabia que este amor era impossível. Assim, ela pediu para nunca mais vê-lo e ele assentiu.

O jovem Werther parte acreditando que é amado mas ciente de que é um amor impossível. Resolve então suicidar-se, mandando pedir as pistolas de Alberto, alegando que ia viajar e precisava de proteção. Charlotte com o coração despedaçado, envia-lhe as armas. Werther dispara um tiro em sua própria cabeça e morre. No dia seguinte, Werther foi encontrado morto em seu quarto. Todas as suas cartas a Charlotte (Carlota) estão transcritas no livro. Sua morte é a prova da intensidade do amor romântico e doentio. A história de Werther retrata a paixão exacerbada e infeliz que culmina com o suicídio, o escapismo do romântico.
O romance de Goethe, quando publicado na Europa causou grande impacto entre os jovens, causando uma crescente onda de suicídio, tamanha foi a repercussão que alguns governos tentaram impedir a circulação da obra.


Um marco do Romantismo:

Os sofrimentos do Jovem Werther (1774) é a obra póstuma da escola literária chamada Romantismo (1750-1850, aproximadamente). Ela traz todas as características que marcaram esse movimento e a revolução que ele suscitou na criação literária da época.

Algumas dessas características românticas:
• Abandono do normativismo, isto é, o autor agora é um ser inspirado, não mais precisa prender-se a regras para criar, basta deixar seu talento trabalhar;
• Sem rima;
• Sem métrica perfeita;
• Liberdade de produção.

• Subjetividade: valorização das emoções e sentimentos individuais, em detrimento da razão e do pensamento objetivo;
• Idealização da figura feminina: a mulher adquire valor, agora ela é a causa da alegria e da tristeza, é um ser superior que o romântico quer alcançar;
• O vínculo com a natureza como algo inspirador: Werther mostra bem isso, relembrando momentos que viveu com Charlotte (Carlota) no campo, nos cenários em que seus sentimentos mais se destacavam, nos seus desenhos etc;
• Egocentrismo: para Werther nada mais importa, ele quer apenas Charlotte (Carlota) e se não pode conseguir, de que adianta viver?
• Dramaticidade;
• Substantivos abstratos;
• Uso de figuras de linguagem (comparações, metáforas, antíteses).
Na obra também vemos a presença do trágico, elemento que era a característica principal das tragédias gregas, mas que persiste em estilos atuais. O trágico aparece nesta obra através do desfecho, onde o protagonista suicida-se.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Memórias De Minhas Putas Tristes (Gabriel Garcia Marquez)

A época? Início do século XX. O lugar? Alguma cidade da Colômbia. Situação política? Ditadores alternam-se no poder. O protagonista? Um ancião, homem solitário, solteiro, telegrafista aposentado e jornalista atuante, escritor eventual de críticas musicais e cronista semanal do jornal em que trabalha há décadas. O improvável? Ao completar noventa anos, decide dar um presente a si mesmo: uma noite de amor com uma virgem. Durante sua vida, habituara-se à solidão e ao sexo com prostitutas. Nunca amara, o relacionamento mais longo, puramente sexual, fora com uma empregada que, no auge da decrepitude, ainda limpava sua casa. Pois este homem, conhecido como sábio, professor, há décadas fora noivo de uma mulher bem mais jovem, que fugiu com outro, no dia do casamento. Em dado momento, ele diz que o sexo o impedira de amar. Resolvera escrever um livro sobre as centenas de prostitutas com quem fizera sexo. Escreveria "Memória de Minhas Putas Tristes". Decidido, mantém contato com a cafetina mais famosa de sua época e encomenda uma virgem. Queria uma menina de apenas catorze anos. O senhor de 90 anos que nunca fora casado, é um velho cheio de manias e visto pela sua vizinhança como pão duro, que quis dar-se de presente uma noite de amor com uma jovem virgem. A jovem virgem, chamada por ele de Delgadina, de 14 anos, é uma garota pobre que trabalha em uma fábrica e cuida de seus irmãos. Então ele dirige-se ao bordel, local disfarçado de armazém, numa área da cidade sem o brilho do passado. Mas não aconteceu nada naquela noite. Não quis acordar a menina, que dormia profundamente. Na noite seguinte, foi a mesma coisa. Na terceira noite, também. O velho contentava-se em passar noites apenas dormindo com a jovem e descobre-se como um jovem de 15 anos, virgem e apaixonado, que dormia profundamente e acordava para a vida aos 90 anos. O sentimento que nos desperta ao reconhecer a paixão e doçura do velho jornalista que descobre o amor pela primeira vez aos 90 anos, é um sentimento de revigoração, e de como as vezes nos contentamos com coisas secundárias, como escreve o próprio Gabriel Garcia Marquez em um trecho do livro: " sexo é o consolo quando o amor não nos alcança" .
Um crime acontece: Um banqueiro famoso é misteriosamente assassinado e ele ajuda a cafetina a vestir o morto. O bordel é fechado. A versão oficial é que o homem fora morto por membros do Partido Liberal. Ele perde o contato com a cafetina e a menina. Procura a menina pela cidade, sem encontrá-la. Desespera-se. Algum tempo depois, a cafetina ressurge e encontra a menina. Ele retorna ao bordel, porém, ao vê-la mudada, crescida, uma prostituta, assusta-se, quebra o quarto. Acalma-se e visita-a frequentemente, decorando o quarto à sua maneira, dando-lhe presentes, sem jamais fazerem sexo. Amava a menina. A menina o amava.
O tempo passou e ele quis comprar o bordel, a casa, o armazém, o pomar, mas a cafetina preferiu fazer um acordo: o primeiro que morresse deixaria tudo para o outro. Ou melhor, para a menina. Concordou. Ele estava feliz, porque, velho, estava condenado a morrer amando, em qualquer dia depois dos cem anos.

Para completar a beleza da narrativa, a história se passa em uma cidade colombiana, em meados dos anos 30, a cidade é elegantemente descrita pelo narrador, sempre muito bem escritos pelo autor, o brilhante Gabriel Garcia Marquez.
O livro é mais uma obra prima do genial Gabriel Garcia Marquez, que volta a ficção depois de dez anos.
Espera-se que o leitor também acorde de seu sono e desperte para a simplicidade do romance, como o narrador que Gabriel Garcia Marquez nos presenteou.


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Eneida (Virgílio)

A Eneida (Aeneis em latim) é um poema épico latino escrito por Virgílio no século I a.C.. Conta a saga de Enéias, um troiano que é salvo dos gregos em Tróia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à região que atualmente é a Itália. Seu destino era ser o ancestral de todos os romanos.

Ambição de Virgílio:
Virgílio, ao escrever esta epopéia, inspirou-se em Homero, tentando superá-lo: Virgílio empenhou-se em fazer da Eneida o poema mais perfeito de todos os tempos. De certa forma, a primeira metade (seis primeiros cantos) da Eneida tenta superar a Odisséia, enquanto a segunda tenta superar a Ilíada. A primeira metade é um poema de viagem e a segunda um poema bélico.

Uma Epopéia por encomenda:
Virgílio já era ilustre pelas suas Bucólicas, um poema pastoril, e geórgicas, um poema agrícola. Então, o imperador Augusto encomendou a Virgílio a composição de um poema épico que cantasse a glória e o poder de Roma. Um poema que rivalizasse e quiçá superasse Homero, e também que cantasse, indiretamente, a grandeza de César Augusto. Assim Virgílio elaborou um trabalho que, além de labor lingüístico e conteúdo poético, é também propaganda política.
Muitos dos episódios na Eneida, que narra um tempo mítico, têm uma correspondência síncrona com a atualidade de Augusto. Por exemplo o escudo de Enéias, simbolizando a batalha do Ácio, quando Otávio Augusto derrotou Marco Antônio em 36 a.C. e a previsão de Anquises, no Hades, sobre as glórias de Marcelo, filho de Otávia, irmã do imperador.

Virgílio concluiu a Eneida em 19 a.C.. A obra está "completa" mas não está ainda "pronta" segundo o seu criador. Virgílio gostaria ainda de visitar os lugares que aparecem no poema e revisar os versos dos cantos finais. Mas adoeceu e, às portas da morte, pediu a dois amigos que queimem a obra por não estar ainda "perfeita". O grande poema, já era conhecido de alguns amigos coevos, não foi destruído - para nossa felicidade e fortuna literária. Sem a epopéia virgiliana, não haveria Orlando Furioso, O Paraíso Perdido, Os Lusíadas, dentre outros grandes clássicos da literatura mundial.

Dramatis personae:
Aviso: Este artigo ou seção contém revelações sobre o enredo (spoilers):
Há dois tipos de personagens na Eneida: os "humanos" e os "deuses". Há uma espécie de terceira entidade que é a do Fatum (Fado, destino) que nem os deuses podem obliterar.

Humanos:
• Anquises, pai de Enéias
• Ascânio, filho de Enéias e de Creusa.
• Creusa, esposa de Enéias.
• Dido, rainha de Cartago.
• Evandro, ancião
• Enéias, troiano, sobrevivente à guerra de Tróia
• Turno, rei latino, inimigo de Enéias em Itália



Deuses:
• Apolo, deus do Sol
• Éolo, deus dos ventos
• Juno, mulher de Júpiter, opositor de Enéias
• Júpiter, o rei dos deuses
• Mercúrio, o deus mensageiro
• Neptuno , deus dos mares
• Vénus, deusa do amor e da beleza, coadjuvante de Enéias

Nota: É de bom grado utilizar a terminologia latina (romana) para falar da Eneida, já que se trata de um poema romano.

Tempo da diegese:
O tempo da diegese, ou seja dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Tróia, portanto a Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero. Se a Odisséia narra as aventuras de um grego, de Ulisses (ou Odisseus), que tenta voltar para a sua casa e para a sua família, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição de Tróia, foge com a sua família. A sua fuga dá-se por mar. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.

Tempo do discurso:
Quando o texto começa, a aventura de Enéias já se iniciou (a narrativa começa in media res, isto é, a meio da acção). O herói naufraga ao largo de Cartago (a actual Tunes) e vai ter com a rainha Dido. Conta-lhe as suas viagens até ao momento em que se encontra. Esse é um processo de analepse (em inglês, flashback). A partir do quarto capítulo, o tempo da diegese é contemporâneo ao da narração do poema, ou seja os acontecimentos são narrados como se estivessem acontecendo no presente.

Capítulos ou Cantos:
A Eneida tem doze capítulos, exatamente metade que a Odisseia.

Eneias naufraga ao largo de Cartago:
Depois de partir da Sicília, Eneias é arrastado por uma tempestade que o faz naufragar. Eneias observa a cidade. Ele que vem de Tróia que fora totalmente arrasada e que tem por missão fundar uma nova cidade. É recebido por Dido, rainha de Cartago. Comove-se ao ver os afrescos nas paredes que narram a guerra de Tróia. Dido começa a apaixonar-se por Eneias.

II- Eneias narra a Dido o último dia de Tróia:
Dido solicita a Enéias que lhe relate a queda da lendária cidade de Tróia. Ele conta o célebre episódio do Cavalo de Tróia. E conta como se deu a batalha durante a noite. Como o incêndio começou a devorar a cidade. No desespero Enéias decide lutar até morrer. Vênus, sua mãe, aparece e lhe diz: "vai procurar o teu pai, a tua mulher e teu filho e abandona a cidade".
A cidade é tomada pelos gregos. Eneias procura sua mulher, Creusa, gritando pelas ruas à sua procura. Encontra o espectro dela. Com muita ternura o fantasma de Creusa diz-lhe uma profecia: "que ele irá ter muitos infortúnios mas acabará por conseguir fundar uma nova cidade".
Enéias consegue fugir com o seu pai às cavalitas e com o seu filho pela mão.

III- Eneias narra a Dido as suas viagens rumo à Itália:
Eneias continua a contar a Dido as suas peripécias para chegar à península Itálica, até aportar em Cartago temporária e acidentalmente. Conta a sua escala na Trácia e em Creta. A chegada a Épiro e à Sicília. Conta também seu encontro com Andrômaca (viúva de Heitor) e como faleceu o seu pai Anquises.

IV- Os amores de Dido e seu fim trágico:
A rainha Dido, segundo a Eneida de Virgílio, após ouvir a narração do fim de Troia e das viagens e peripécias de Eneias, influenciada por Vênus, deusa do amor e mãe de Eneias, vê-se completamente apaixonada pelo herói. Ela convida os troianos (Enéias e seus companheiros) para uma caçada. No meio de uma tempestade, abrigados em uma caverna, Dido e Eneias se amam. Entretanto Júpiter envia Mercúrio a Eneias para lhe lembrar que seu destino é encontrar o Lácio e fundar uma nova cidade que substitua a cidade de Tróia destruída e que governe as demais cidades do mundo. Eneias tenta sair de Cartago sem que Dido se aperceba. Sentindo-se abandonada, enganada e vilipendiada, furiosa e ensandecidada pelo amor não retribuído, ela se suicida enquanto partem os navios troianos e Eneias ainda pôde ver a fumaça da pira funérea saindo de seu palácio.

V- Os jogos fúnebres:
Eneias aporta à Sicília e decide realizar jogos fúnebres em honra de seu pai Anquises. Já se passou um ano desde que este morreu.
(Este capítulo é importante para quem estuda a antropologia dos romanos porque dá indicações de como eles se relacionavam com a morte.)

VI- Descida de Eneias ao Mundo dos Mortos:
Eneias e a sibila de Cumas, por William Turner.
Este é um dos episódios mais famosos da Eneida. Depois de Eneias ter partido da Sicília fez escala em Cumas. Nesse local consulta uma sacerdotisa (uma sibila - Antes o termo era empregado como nome próprio e com o tempo passou a ser usado como comum para todas aquelas que servissem a um deus) de Apolo. Ele tem um desejo intenso (em sonhos seu pai o havia conclamado a fazê-lo) de falar uma última vez com seu pai para lhe pedir conselho sobre a viagem. Obtém permissão de descer ao mundo dos mortos (este episódio faz lembrar outras descidas famosas ao mundo dos mortos: o episódio de Orfeu e Eurídice, a nekya de Odisseu, no canto XI da Odisséia. No mundo dos mortos vê vários espectros. Um deles o de Dido que, ladeada por seu primeiro esposo, não lhe responde.
O seu pai Anquises dá-lhe importantes informações sobre a sua viagem e faz uma longa profecia sobre o futuro glorioso de Roma.

VII- Chegada ao Lácio:
(Latium, província romana onde Roma se situará)

VIII- Evandro. Descrição do Escudo de Eneias:
O canto VIII começa com o rio Tibre a falar com Eneias, que lhe diz que deverá fazer aliança com Evandro e o seu povo. Eneias e os troianos são recebidos por Evandro com um banquete de consagração a Hércules, Evandro conta a história do monstro Caco. Evandro faz uma visita guiada, mostrando a cidade a Eneias. Vénus suplica armas a Vulcano, seu marido. Vulcano forja então o escudo de Eneias. (remetendo-nos para o episódio do escudo de Aquiles, da Ilíada de Homero) Um relâmpago dá então o sinal das armas de Eneias. Palante, filho de Evandro vai então para a guerra com Eneias. Evandro suplica aos deuses que não permitam que o seu filho morra. Vénus leva então as armas a Eneias. É-nos dada a descrição do escudo de Eneias, onde Eneias aparece como vencedor da batalha de Accio.

Simbologias da Eneida:
A Eneida simboliza o poder imperial de Roma, sob o comando de César Octaviano Augusto.
Dido simboliza o poder de Cartago, rival de Roma, que seria por esta destruída na terceira das Guerras Púnicas. Dido também simboliza Cleópatra, rainha do Egipto, que se tinha aliado a um general romano, Marco António, para resistirem a Roma. Marco António e Cleópatra foram derrotados na batalha marítima do Áccio, ao largo do delta do Nilo. Dido simboliza assim a mulher misteriosa e sedutora do Oriente, que resiste ao poder romano mas que por ele é submetida. Por metonímia simboliza todo o Médio Oriente e Norte de África, que foram as últimas terras a serem conquistadas pelo Império Romano.
Turno simboliza os antecedentes latinos da "raça" romana, enquanto Eneias simboliza os antecedentes troianos (que são ficcionais). Eneias é uma personagem que permite dar a Roma uma ascendência mítica, juntando-se assim ao mito da fundação de Roma por Rómulo e Remo.

Repercussões literárias da Eneida:
Dante Alighieri, no seu famoso episódio da descida aos infernos, é levado pela mão de Virgílio para ver os mesmos. Luís de Camões inspira-se directamente neste grande épico romano para escrever os seus Os Lusíadas. CAPCOM inspira-se no autor para criar a personagem Vergil do jogo, "DEVIL MAY CRY".