quinta-feira, 31 de maio de 2012

Negrinha (Monteiro Lobato)

O conto Negrinha, escrito em 1920, durante a transição do Pré-Modernismo para o Modernismo, relata a história de uma pobre órfã negra, filha de escrava, que é criada por Dona Inácia, uma senhora da aristocrata, dona de uma fazenda, viúva e sem filhos.

Inconformada com a abolição da escravatura, Dona Inácia conservava a menina unicamente para extravasar à sua crueldade, aplicando na criança os mais severos maus tratos, tantos verbais (xingamentos, ordens duras e palavras rudes) como físicos (beliscões, tapas e “crocres”, etc), como se ela fosse seu “brinquedinho”. 

Dona Inácia descarregava sua amargura na menina, e deleitava-se com isso, a ponto de seu rosto ganhar um brilho especial só em imaginar a aplicação de um castigo na criança.

Quando Dona Inácia recebe em sua fazenda suas sobrinhas vindas da capital para uma temporada de férias, ocorre uma reviravolta no cotidiano de Negrinha.

As meninas, com suas vestes elegantes eram alegres e agitadas e Negrinha pensava que seriam castigadas pelas balbúrdias, assim como ela era castigada se fizesse barulho. Não houve castigo, pois ficara claro para Negrinha a diferença que existia entre ela e aquelas meninas.

Estas, ao perceberem que Negrinha poderia ser uma companhia de brincadeiras durante a temporada na fazenda oferecem-lhe uma boneca, e acham graça quando vêem que Negrinha nunca havia pegado em uma boneca.

Nesse período de estadia das meninas na fazenda Dona Inácia poupa Negrinha do rude tratamento habitual, pois estava vendo que suas sobrinhas tinham com quem brincar. 

Ao final das férias, Dona Inácia, mais serena, já não castigava a criança, mas algo se transformara para Negrinha pois uma vez que pôde vislumbrar um outro tipo de vida, ela teve a liberdade de exercer seu lado criança, brincando, sem medos dos castigos. 

Depois da partida das meninas Negrinha fôra tomada pela tristeza e pela melancolia, e em seu canto, ficara até morrer, esquecida por todos. 

Na cidade grande as meninas riam e lembravam de Negrinha como uma menina “bobinha” que não sabia nem o que era uma boneca. 

Dona Inácia fora tomada pela nostalgia, por ter perdido seu “brinquedinho” e por não ter mais em quem descarregar as suas maldades.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Papéis Avulsos (Machado de Assis)

Papéis avulsos é o terceiro livro do escritor Machado de Assis, em sua fase realista. Foi lançado em 1882. Os textos são decisivos na constituição do cânone de Machado de Assis. Com esse livro, a narrativa curta é legitimada como gênero de primeira importância no Brasil. A partir de Papéis Avulsos, onde há uma reunião de excelentes histórias, percebemos o grande aperfeiçoamento da linguagem do autor. Este livro pode ser considerado um momento de ruptura na escrita do autor. A começar pelo título, sugerindo casualidade no arranjo dos escritos, tem-se a postura sutilmente corrosiva e implacável na representação dos desvios à norma ou da incapacidade de se estabelecer uma norma para uma sociedade estruturada em bases contraditórias e violentas, sob uma camada muito tênue de civilidade. Escritos no mesmo período da renovação de Memórias póstumas de Brás Cubas, os contos reunidos no volume sistematizam traços estilísticos da forma livre, com que Machado de Assis inscreve sua obra no grande diálogo internacional da sátira menipéia, fundada no humor paródico e no relativismo cético. Em Papéis Avulsos as histórias se armam principalmente em cima do aparecer, do mostrar aquilo que se quer ser, exposto na trilogia da aparência dominante formada pelos contos A Sereníssima República, O Segredo do Bonzo e Teoria do Medalhão. Em Papéis avulsos, o autor começa a cunhar a fórmula mais permanente de seus contos: a contradição entre parecer e ser, entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante. Machado procura roer a substância do eu e do fato moral considerados em si mesmos; mas deixa nua a relação de dependência do mundo interior em face da conveniência do mais forte. É a móvel combinação de desejo, interesse e valor social que fundamenta as estranhas teorias do comportamento expressa nos contos que compõem os "Papéis avulsos" machadianos. Vamos aos contos:

Advertência: Machado avisa que apesar de serem contos separados há pontos comuns.

O Alienista: sátira a uma fase arrogante da medicina e uma fascinante análise do poder e de seus mecanismos psicológicos e sociais. Em O alienista o escritor nos propõe o problema da fixação de fronteiras entre o normal e o anormal da mente humana.

Verba testamentária: centra-se no comportamento patológico de seu protagonista, Nicolau. Nele, a aparente espontaneidade decorre de procedimentos formais que, igualmente, promovem a adesão do leitor ao universo ficcional. Ainda que alicerçado na ficção, o conto revela, a partir de uma perspectiva satírica, comportamentos reais, constituindo uma alegoria da natureza egotista do ser humano.

Teoria do Medalhão: narrado como um diálogo entre pai e filho.

A Chinela turca: um homem preso em um diálogo tedioso começa a se imaginar em uma narrativa fantástica. É por intermédio da visão que a “realidade” se confunde com o sonho. As transições são calcadas na visão.

Na Arca: narrado como uma escritura, com versículos. Os filhos de Noé, Sem, Jafé e Cam discutem sobre como dividir a terra após o Dilúvio. Neste conto temos uma recriação da linguagem bíblica.

D. Benedita: conto narrado em 3ª pessoa, versa sobre a psicologia feminina. A personagem é elaborada a partir do sentido do termo veleidade, que, no entanto, só será revelado ao leitor nas últimas linhas do conto. A personalidade fugaz da protagonista é contaminada pelo vírus da indecisão. Com breves pinceladas, à maneira de um pintor, surgem a hesitação, a volubilidade, a inconstância no eterno vai, não vai; casa, não casa; viaja, não viaja. D. Benedita é lapidada com tamanha perfeição que quase pode ser tocada, pressentida pelo leitor em suas pequenas ações.

O Segredo do Bonzo: narrado como um relato de um desbravador, Fernão Mendes Pinto, que visita o reino de Bungo e descobre o milagroso Bonzo Pomada, capaz de convencer outras pessoas.

O Anel de Polícrates: narrado como um diálogo entre transeuntes. Este conto, além de relatar um evento particular, constitui um caso exemplar do que seriam as limitações da felicidade humana ou a lógica caprichosa do destino. Os relatos de Cícero são exemplos de situações diversas: desapego em relação aos bens materiais e ironia diante das pequenas mentiras da vida cotidiana.

O Empréstimo: narrado como anedota. Conto onde o autor retrata dois personagens com visões diferentes sobre o dinheiro. Em O empréstimo, o autor apresenta o tabelião Vaz Nunes, em um final de expediente, recebendo a visita de Custódio, que veio lhe pedir dinheiro. O primeiro tem a capacidade de desvendar o interesse que se esconde atrás da aparência, o segundo tem “a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho”. Nessa hora em que se confrontam, revela-se a natureza de cada um deles. Machado mergulha com precisão detalhista no gesto de olhar por cima dos óculos, no movimento dos braços, no modo de pegar a carteira, na maneira de caminhar de cabeça erguida. São detalhes do cotidiano. Essa ação narrativa e o tempo que passa não trazem, contudo, transformação. A melancolia que perpassa essa anedota humorística deixa um travo amargo, posto que de fel irônico, no riso do leitor. A passagem do tempo não implica transformações; são personagens alegorizados e congelados, incapazes da mudança. É como se o destino estivesse consumado em vida. O leitor acompanha o confronto de disfarces entre os dois cavalheiros. A cada lance desse jogo, cada um dos contendores aparenta estar jogando a sua última cartada, ao mesmo tempo que cada uma das partes disfarça os trunfos de que ainda dispõe: a elasticidade da ambição, de um lado, e a capacidade de concessão, do outro. Encerrada a contenda, ambos parecem sair satisfeitos com o próprio desempenho cujo ganho é mínimo para um e a perda, insignificante para o outro.

A Sereníssima República: narrado como um texto científico, descrevendo a "política das aranhas" (as aranhas eram o elemento utilizado por Machado para formular a personificação no conto). A temática central do texto envolve a corrupção política e as diferentes formas de distorção de uma teoria que, quando submetida à prática, se revela como falha. Por meio de uma metáfora reflexiva, o escritor denuncia irregularidades políticas como resultado da apropriação das leis do estado.

O espelho: Machado de Assis esboça em O Espelho uma nova teoria da alma humana, subtítulo que dá para o conto; aliás, um estudo sobre o espírito contraditório do homem, simbolizado pelo espelho. Tem como tema a alma humana, metaforizada no espelho. Neste conto, o autor ironiza a sociedade da época em uma das mais arraigadas crenças do povo cristão, que é a existência de uma única alma portadora de expressão única e inabalável até então.

Uma Visita de Alcibíades: narrado como uma carta, em que um chefe de polícia descreve como o general grego Alcibíades apareceu em sua casa. É um conto em forma de carta. Um desembargador, que gosta de temas gregos e é espírita, invoca o grego Alcibíades. Não apenas seu espírito aparece, mas o homem de carne e osso. Ao ficar sabendo sobre a vestimenta nos dias atuais, o homem morre novamente. Em uma única carta ao chefe de polícia, o desembargador narra sua aventura. Não aparecem personagens femininas. O foco narrativo está em duas figuras masculinas, tanto Alcibíades quanto o desembargador estão conversando sobre a moda – que não seria um tema tradicionalmente considerado feminino? Além de tudo, este conto machadiano nos revela o contraste existente entre a vestimenta típica do homem na Grécia Antiga e a indumentária característica do homem no século XIX. Ao contrapor a toalete do herói grego Alcibíades àquela apresentada por um distinto desembargador, Machado de Assis acaba demonstrando como o próprio conceito de elegância e beleza sofre importantes modificações ao longo do tempo. Estas reflexões aproximam-se de algumas das principais idéias defendidas pelo poeta e crítico francês Charles Baudelaire, que esclarece: “cada século e cada povo tem a sua própria expressão de beleza e moral”. “Uma visita de Alcibíades” desmonta a máscara mais ostensiva da representação social identificada com os requintes da arte de se vestir. Ridicularizando a instabilidade da moda vista a partir da perspectiva de um olho estranho, o repertório metafórico mobilizado pela fala anacrônica do visitante antigo identifica, no vestuário de uma noite de gala, o estigma permanente do homem seduzido pela ostentação da elegância efêmera. O conto, ainda que seja uma sátira mordaz, é a primeira obra em prosa de ficção da literatura brasileira em que surge um personagem espírita. Nessa narrativa, o desembargador Álvarez afirma que sua conversão ao espiritismo é decorrente da descrença em todas as religiões. Contador de histórias, Álvarez relata a estranha visita que recebera de Alcibíades e assume, convictamente, a personalidade do personagem que interpreta: “Posso dizer que vivo, como, durmo, passeio, converso, bebo café e espero morrer na fé de Allan Kardec.

Verba testamentária: a história de um homem que nunca aceitava ser inferior, Nicolau B.

sábado, 26 de maio de 2012

A Menina que roubava livros (Markus Zusak)

O romance se passa na época da segunda guerra mundial e é narrado pela Morte. O cenário de fundo é nada mais nada menos que a Alemanha que aos poucos se transformava pela Segunda Guerra Mundial. O livro conta a história de vida de uma menina alemã que foi posta em um orfanato pela mãe e adotada por um casal, e daí a história segue contando sua trajetória, das pessoas que conheceu e como passou a adorar livros – a ponto, como o título indica, de roubá-los. E talvez o que há de mais interessante no livro é seu narrador: a própria Morte. A história se passa entre 1939-1943, era nazista do "Füjer". Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar a sua história. Liesel Meminger, com pequenos sinais judios, vê o irmão morrer na metade do caminho, com sua mãe supostamente comunista. Já no cemitério, no enterro do seu irmão, ela roubava seu primeiro livro, "O Manual do Coveiro". Foi o primeiro de vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram estes livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou e destacou de suas páginas seriam mais tarde aplicadas ao contexto de sua própria vida. Liesel então é encaminhada para um casal de alemães, como diziam - puro sangue ou ariano legitimo – Has Hubermann, o pai adotivo, pintor de paredes desempregado, de olhos cristalinos, e Rosa Hubermann, a mãe adotiva de postura rabugenta. Liesel demorou um certo tempo para se acostumar com seus novos pais, principalmente com Rosa Hubermann pois vivia chamando a atenção da garota. Já com Has Hubermann foi muito mais fácil já que era ele que a acordava, no meio da madrugada, dos pesadelos que ela tinha com seu irmão no trem. Ele passava o o resto da madrugada consolando Liesel e depois passou a lhe ensinar a ler. O modelo de ensino na era Hitler era um fracasso. Liesel levara várias surras da professora na sala de aula por não saber ler. Liesel adorava jogar futebol com os garotos da Rua Himmel, onde morava em Molcking. Seu melhor amigo era Rudy Steiner. A cidade era devota de Hitler. Toda semana o III Reich fazia uma fogueira para a apresentação dos objetos a serem queimados na fogueira, considerados subversivos. E foi perto desse local que a menina roubou seu segundo livro levemente chamuscado, chamado "O dar de ombros". Rudy Steiner vivia paquerando Liesel Meminger, mas ela sempre se esquivava da situação. Rosa Hubermann, a mãe adotiva de Liezel, mandava-a entregar sacolas de roupas por toda a cidade, até a casa do prefeito, onde sua mulher, Ilsa, era uma cliente. Um belo dia quando Liesel ía saindo da casa do prefeito sua esposa resolveu convidá-la para uma visita à biblioteca, dizendo que ela podia ler quantos livros quisesse quando fosse lá entregar as roupas. Passava o tempo e a guerra ía piorando a situação econômica da Alemanha. Cada vez que Liezel (as vezes acompanhada de Rudy) ía à cidade entregar as roupas lavadas e passadas, tinha que ouvir em cada casa um pedido cancelamento do serviço alegando que a guerra estava prejudicando as finanças. Umas das últimas clientes de Rosa Hubermann, Ilsa, a esposa do prefeito, deu a Liesel um livro e cancelou o serviço de lavagem das roupas que Rosa fazia. Revoltada pela situação a menina explodiu em sua fúria, disse tudo o que pensava do filho de Ilsa que fora para guerra e não voltara. Acabou até “xingando” o prefeito. Depois mais tarde Liesel ficou arrependida. Has Hubernann tocava acordeão em um bar e considerava isso um hobbie. Ele era pintor de paredes e até então vivia de bicos. Mas com o tempo seus melhores clientes que eram judeus foram sumindo; uns estavam completamente na miséria; outros foram levados pelo Partido com suas lojas saqueadas. Um judeu chamado Max Vandenburg procura Has Hubermann dizendo que é filho do homem que lhe dera o acordeão (Has herdara o acordeão de um amigo de guerra que morrera em combate). Has, então, levou Max para sua casa e combinou com Rosa e Liesel que Max ficaria no porão junto as suas tintas. Ninguém poderia saber que um judeu morava ali. Liesel, agora via seu mundinho se dividindo em dois: da porta para dentro onde todos ficavam apreensivos com um judeu escondido no porão e da porta para fora onde tinha seu melhor amigo Rudy e os outros garotos do futebol. Aos poucos Liesel foi se aproximando de Max Vandenburg até chegar ao ponto de dividir os sonhos e pesadelos que eles tinham: agora não era um gemido de uma menina, era dois gemidos gritando em um pesadelo. Max Vandenburg ficou dois longos anos habitando o porão da casa dos Hubberman; nesse período ele contribuiu com dois exemplares para a coleção de Liesel; foram escritos em um Mein Kampf que teve as páginas pintadas de branco; o primeiro livro foi o Vigiador, onde fazia referência a sua vida até então, culminando com o tempo em que Liesel passava velando-o em seu coma de três dias; o segundo foi a Sacudidora de Palavras onde ele mostra o poder das palavras; foi concebido a partir da história ocorrida durante um aviso de ataque aéreo. Esse ultimo livro foi escondido de Liesel a pedido de Max para que fosse entregue a ela só quando ela estivesse pronta. Antes da entrega houveram acontecimentos importantes: Hans ajudou um velho judeu que compunha a comitiva de desvalidos que seguiam para o campo de concentração de Dachau; percebeu tarde o problema que havia arrumado, pois ele mesmo tinha um judeu no porão e vinha o medo de que os nazistas insistissem em revistar sua casa em busca de algum material subversivo e, encontrassem um judeu. Essa situação fez com que os Hubberman mandassem Max embora mesmo com muito pesar. Depois da ida de Max, o pedido de Hans para se fiiar ao partido nazista fora aceito e ele destacado para servir na ELS, divisão que limpava áreas atingidas por ataques aéreos. Hans serviu, mas depois do acidente voltou pra casa. Começa um bombardeio que vai se aproximando da cidade. Liesel e Rudy criam um estranho hábito de roubar. Liesel adora roubar os livros da casa do prefeito e acha que a esposa dele deixava a janela aberta de propósito. Enquanto Rudy, era um eterno esfomeado, muito magro, só pensava em roubar comida da casa alheia ou em plantações. Max havia ido embora e a saudade daqueles tempos acompanhava a menina. Um dia Liesel encontrou Max Vandenburg, mas logo foi separada dele por um soldado. Após a libertação dos judeus Max reencontra Liesel. No terceiro encontro com a morte, Liesel foi salva pelas palavras; enquanto a cidade dormia ela estava no porão escrevendo suas histórias quando veio um bombardeio surpresa matando todas as pessoas da Rua Himmel (onde moravam). Liesel, então, se salvou desse bombardeio que acabou matando a todos: Rudy, Rosa e Has. A menina sobreviveu porque estava sentada num porão, escrevendo a história de sua própria vida, verificando os erros (Liesel só encontrou a Morte pra valer, já com uma idade bem avançada e bem longe dali, em Sydney). Depois de morto Rudy ganhara o tão desejado beijo da menina. A morte já havia passado por Liesel três vezes, mas só a levou mais tarde, após ter lido muitas vezes a história que Liesel havia escrito sobre sua vida. A morte diz ainda não ter entendido muito bem a sua história e com isso leva Liesel calmamente para fazer uma observação... "Os seres humanos me assombram". Características: Em sua condição de ser imortal, o narrador retorna e adianta o tempo variadas vezes, e faz divagações em sua própria narrativa. Enfim, existe um sabor todo especial da escolha do narrador – que, a despeito de sua função, realmente se importa com a humanidade. Neste pano de fundo da expansão nazista pela Alemanha e pela Europa, assim como a reunião e eventual extermínio dos judeus nos campos de concentração, Liesel Meminger vive intensas relações com os Hubermann, sua família adotiva; Rudy Steiner, amigo na infância e mais tarde um romance velado; a mulher do prefeito; e o lutador judeu Max, que em seu esconderijo chega a ter sonhos delirantes de lutar contra o próprio Hitler (que não é, a bem dizer, uma luta justa). A menina que roubava livros é um livro suave, com a quantidade certa de drama e que certamente não explora tanto seu cenário, o que é bom. O avanço do terror da guerra sobre o enredo é sutil e não cansa, nem fica no caminho da história, pelo contrário, se funde a ela com perfeição.

Hamlet Autor: William Shakespeare


Hamlet é uma das peças de teatro mais famosas de Shakespeare. Foi escrita entre 1600 e 1602 e impressa pela primeira vez em 1603.

Para Hamlet a existência tornara-se insuportável desde que o espectro do seu pai recentemente morto apareceu-lhe numa noite assombrada no alto da torre do castelo. O fantasma, tétrico, reclamava desforra. Contou ao filho que um crime ignominioso o vitimara. Seu próprio irmão, o rei Cláudio, o matara. Atordoou-se o príncipe. Seu lar abrigava a traição e a maldade! A serpente acoitara-se na sua própria família. O mundo era injusto. O assassino, seu tio, não só usurpara o trono como arrastara sua mãe, a rainha Gertrudes, para um casamento feito às pressas, onde, suprema ignomia, serviu-se os manjares que um pouco antes, ainda mal esfriados, tinham sido oferecidos na refeição fúnebre. Algo deveria ser feito. Faltava, porém a Hamlet o talento para a ação. O máximo que conseguiu de imediato, além de aferrar-se ao luto e ao mau humor, foi entregar-se especulativamente à vingança.

A Mais bem sucedida da História

Hamlet é certamente a mais bem-sucedida história de vingança levada aos palcos. Ela, desde o início, coloca o público ao lado do jovem príncipe porque o ato da vingança que Francis Bacon definiu como uma forma selvagem de fazer justiça sempre seduziu a todos. Hamlet sente-se, pois é um reparador de uma injustiça, um homem com uma missão. A ela irá dedicar todos os momentos da sua vida, mesmo que tenha que sacrificar seu amor por Ofélia e ainda ter que tirar a vida de outras pessoas. Talvez seja essa obsessão, essa monomania que toma conta dele desde as primeiras cenas do primeiro ato, que eletrize os espectadores e faça com que eles literalmente bebam todas as palavras do príncipe vingador.
Hamlet é o personagem que mais fala na obra de Shakespeare, recita 1.507 linhas.
           

Os personagens

Inicialmente o trágico envenenamento do rei Hamlet motiva o retorno de seu filho, o príncipe Hamlet a Dinamarca. Hamlet na tentativa de entender os acontecimentos ocorridos em sua ausência sente a necessidade de fingir-se de louco após a revelação de um espectro (figura de seu pai, o rei Hamlet) sobre o que de fato acontecera com ele. Hamlet contém vários personagens dentre os quais merecem destaque especial o próprio protagonista Hamlet, homem movido pelo ódio e pela vingança. Ódio por ter que conviver sem a presença do pai, agora exercida por seu tio Cláudio que tomara de conta do trono e se apossara de sua mãe a rainha Gertrudes. Vingança por saber que seu pai fora assassinado, vitima de conspiração. O rei, homem ambicioso capaz das piores atrocidades para atingir seus objetivos como destaca o fragmento da obra (...) se ele está agora de volta, desistindo da viagem, sem idéia de retomá-la, quero levá-lo a uma cidade fatal, que tenho meditado há algum tempo, da qual não se conseguirá livrar (...) Horácio, amigo íntimo de Hamlet a quem o príncipe conta todos os seus segredos e angústias. Personagem que desempenha um papel fundamental dentro da trama. Polônio, confidente do rei, personagem que poderá ser comparado a uma extensão da pessoa do rei, pois juntos conspiram contra Hamlet. Por exercer tão fortemente sua função de conselheiro perde a vida. Laertes, filho de polônio também é mais um personagem que se destaca após a morte de seu pai. Mais uma personagem movida pela vingança. Laertes passa a odiar o protagonista após saber que ele assassinara seu pai e foi à causa da ruína de sua irmã Ofélia. Ofélia, jovem que adora ser galanteada, é cortejada por Hamlet, porém finge não entender os galanteios do príncipe e na obra participa de uma trama para desmascará-lo. Rosencrantz e Guildenstern, antigos amigos de Hamlet, agora vivem em função das ordens do rei e são usados também pelo rei na tentativa de desmascarar o plano de Hamlet. A rainha Gertrudes, desempenha a figura de uma mulher recatada que se coloca a serviço do rei e do filho, porém movida pelas vontades do rei a quem deposita toda a sua confiança e participa de todos os seus planos, mesmo que inconsciente, ato que a conduz a ruína, ou seja, a morte envenenada pelo veneno por ele preparado.Os demais personagens envolvidos não serão destacados pelo pouco destaque desempenhado na obra em questão. Destaque merece o personagem Hamlet, que fora capaz de vencer todas as tramas do rei que tinham como intenção a sua destruição, Hamlet dentro da obra destaca-se como um sujeito inteligente e astuto, faz uso em alguns momentos de parábolas para expressar seus sentimentos. A figura do rei aqui será destacada para fazer uma correlação oportuna com nossa contemporaneidade. Quantas pessoas em nossa contemporaneidade não se assemelham a pessoa do rei e são capazes de cometer as maiores atrocidades e destruir vidas humanas na tentativa de alcançar seus objetivos, correlação esta que torna a obra de William Shakespeare, ou seja, não está distante de nossa contemporaneidade. Hamlet tem como cenário a corte dinamarquês e como já mencionado o conflito que desencadeou todo o episódio fôra a morte de Hamlet. O momento de maior tensão dentro da obra está centrado na luta entre Hamlet e Laertes tendo como resultado a morte da rainha, (que tomou o veneno que o rei preparou para que Hamlet o tivesse tomado), a morte de Laertes, a morte do próprio Hamlet (morto envenenado pela espada de Laertes).
O enredo da obra de William Shakespeare é psicológico, pois está centrado nas emoções do príncipe Hamlet. Ele não pensa em mais nada a não ser em vingança. Hamlet é movido durante toda a narrativa por seu desejo de sentir-se vingado, pelo desejo de destruir seu inimigo.




Encarnação (José de Alencar)


O livro Encarnação, de José de Alencar, só foi publicado em 1877, postumamente. É o último dos romances urbanos do autor. As personagens femininas de Alencar propõem-se, inicialmente, como retratos emoldurados pela marca da firmeza, da inteligência e do espírito crítico. À medida que a narrativa se desenvolve revelam-se como duplos da personagem masculina e confirmação do seu desejo.
A personagem feminina, criada no registro masculino, não coincide com a mulher real do cotidiano. No espaço da ficção, nasce a heroína literária romântica sempre pronta a ser o desejo do seu herói. No texto, surge uma miragem de mulher, tornando-se um modelo a seguir.
Encarnação é o elogio da submissão. No início do romance, Amália é aquela que zomba do amor romântico, do homem ideal.
O romance “Encarnação”, de José de Alencar, nos apresenta a história de amor entre duas almas, Hermano e Julieta. Quando a morte da amada os separa, Hermano se fecha em seu mundo, agindo como se o espírito da falecida o acompanhasse. É quando surge Amália, que fica fascinada pela intensidade desse amor. Ela acaba desejando ser amada por Hermano assim como Julieta era amada, portanto, usa de seus encantos e de seu dom musical para conquistá-lo. Assim, eles se casam, mas parece que Hermano ainda não conseguiu se desfazer da imagem de Julieta. Amália age como a morta, fazendo os mesmos gestos, cantando a mesma música, e até disfarçando a cor dos cabelos. O processo de conquista implicará a transformação de Amália em Julieta, por meio de um jogo de gestos, penteados e hábitos da esposa morta, até que Hermano, confundindo as duas mulheres, acabará por apaixonar-se por Amália e realizar-se no imaginário desse amor de conjunção total. Com esse jogo, Amália perde sua identidade. Hermano se apaixona por um ideal. Amália pode ser considerada o protótipo da submissão a um modelo patriarcal, por legitimar o narcisismo de Hermano.
Sentindo-se culpado de amar Amália e Julieta ao mesmo tempo, Hermano decide se matar provocando um incêndio em sua própria casa. Mas, antes que a casa pegasse fogo, ele tem uma alucinação onde Julieta diz para ele que ela encarnou no corpo de Amália, que elas são a mesma pessoa. Então Amália chega em casa a tempo de salvar seu marido e eles se mudaram para Europa. Cinco anos depois eles voltaram para o Brasil com a sua filha Julieta que, misteriosamente, se parecia com a falecida mulher de Hermano, ao mesmo tempo que tinha características de Amália.
Os espaços principais no romance são: o cotidiano da vida cortesã no Rio de Janeiro, segunda metade do século XIX, casa do Sr. Veiga (pai de Amália), casa de Hermano (ao lado), quarto de Julieta (cristalização de um passado), casa em  ruína (libertação da imagem de Julieta morta, da obsessão).
O olhar sustenta a ficção. No romance, Amália cria sua ficção e faz dela a sua vida. A curiosidade e o olhar para as casas vizinhas estruturam o enredo e permitem o conhecimento e o contato entre os protagonistas.
As manifestações lúdico-musicais (ópera, teatro, piano, canto, sarau) comparecem nos romances urbanos de Alencar como ingredientes da escolhida sociedade da corte. Os eventos servem de aproximação e definição do par amoroso. O canto funciona como uma chave que abre a passagem entre o mundo da fantasia e o mundo da realidade, entre a mulher imaginada e a mulher com quem depara. Depois quebra a indiferença inicial entre Hermano e Amália. Esta percebe o sentido simbólico da ópera Lúcia de Lammermoor e a executa, com a intenção de atrair sua atenção.
São  ainda características marcantes na obra: foco narrativo entre primeira e terceira pessoas, metalinguagem, linguagem rica e minuciosa, enredo perfeito, grande suspense. Vale a pena conferir a incapacidade de lidar com o passado de Hermano e a curiosidade e compulsão de olhar da personagem Amália.


domingo, 20 de maio de 2012

Encarnação (José de Alencar)


O livro Encarnação, de José de Alencar, só foi publicado em 1877, postumamente. É o último dos romances urbanos do autor. As personagens femininas de Alencar propõem-se, inicialmente, como retratos emoldurados pela marca da firmeza, da inteligência e do espírito crítico. À medida que a narrativa se desenvolve revelam-se como duplos da personagem masculina e confirmação do seu desejo.
A personagem feminina, criada no registro masculino, não coincide com a mulher real do cotidiano. No espaço da ficção, nasce a heroína literária romântica sempre pronta a ser o desejo do seu herói. No texto, surge uma miragem de mulher, tornando-se um modelo a seguir.
Encarnação é o elogio da submissão. No início do romance, Amália é aquela que zomba do amor romântico, do homem ideal.
O romance “Encarnação”, de José de Alencar, nos apresenta a história de amor entre duas almas, Hermano e Julieta. Quando a morte da amada os separa, Hermano se fecha em seu mundo, agindo como se o espírito da falecida o acompanhasse. É quando surge Amália, que fica fascinada pela intensidade desse amor. Ela acaba desejando ser amada por Hermano assim como Julieta era amada, portanto, usa de seus encantos e de seu dom musical para conquistá-lo. Assim, eles se casam, mas parece que Hermano ainda não conseguiu se desfazer da imagem de Julieta. Amália age como a morta, fazendo os mesmos gestos, cantando a mesma música, e até disfarçando a cor dos cabelos. O processo de conquista implicará a transformação de Amália em Julieta, por meio de um jogo de gestos, penteados e hábitos da esposa morta, até que Hermano, confundindo as duas mulheres, acabará por apaixonar-se por Amália e realizar-se no imaginário desse amor de conjunção total. Com esse jogo, Amália perde sua identidade. Hermano se apaixona por um ideal. Amália pode ser considerada o protótipo da submissão a um modelo patriarcal, por legitimar o narcisismo de Hermano.
Sentindo-se culpado de amar Amália e Julieta ao mesmo tempo, Hermano decide se matar provocando um incêndio em sua própria casa. Mas, antes que a casa pegasse fogo, ele tem uma alucinação onde Julieta diz para ele que ela encarnou no corpo de Amália, que elas são a mesma pessoa. Então Amália chega em casa a tempo de salvar seu marido e eles se mudaram para Europa. Cinco anos depois eles voltaram para o Brasil com a sua filha Julieta que, misteriosamente, se parecia com a falecida mulher de Hermano, ao mesmo tempo que tinha características de Amália.
Os espaços principais no romance são: o cotidiano da vida cortesã no Rio de Janeiro, segunda metade do século XIX, casa do Sr. Veiga (pai de Amália), casa de Hermano (ao lado), quarto de Julieta (cristalização de um passado), casa em  ruína (libertação da imagem de Julieta morta, da obsessão).
O olhar sustenta a ficção. No romance, Amália cria sua ficção e faz dela a sua vida. A curiosidade e o olhar para as casas vizinhas estruturam o enredo e permitem o conhecimento e o contato entre os protagonistas.
As manifestações lúdico-musicais (ópera, teatro, piano, canto, sarau) comparecem nos romances urbanos de Alencar como ingredientes da escolhida sociedade da corte. Os eventos servem de aproximação e definição do par amoroso. O canto funciona como uma chave que abre a passagem entre o mundo da fantasia e o mundo da realidade, entre a mulher imaginada e a mulher com quem depara. Depois quebra a indiferença inicial entre Hermano e Amália. Esta percebe o sentido simbólico da ópera Lúcia de Lammermoor e a executa, com a intenção de atrair sua atenção.
São  ainda características marcantes na obra: foco narrativo entre primeira e terceira pessoas, metalinguagem, linguagem rica e minuciosa, enredo perfeito, grande suspense. Vale a pena conferir a incapacidade de lidar com o passado de Hermano e a curiosidade e compulsão de olhar da personagem Amália.