sábado, 29 de setembro de 2012

Singularidades de uma rapariga loura (Eça de Queirós)


O narrador tratava-se de um viajante que chegado a uma hospedaria durante o jantar iniciou uma conversa com um homem que mais tarde veio ser apresentado como Marcário. O viajante perguntou a ele se ele era da Vila Real e tendo uma resposta afirmativa comentou que de lá vinham as mais belas mulheres. Marcário, em seguida, se calou e perdeu o sorriso se retirando da mesa.
Depois disso o viajante foi para seu quarto, o de número 3, que por coincidência era o mesmo de Marcário e foi ali na escuridão da noite que ele contou ao viajante a sua história.
Marcário trabalhava com seu tio Francisco, um caixeiro. Ele era um homem honesto, fiel ao seu trabalho, vivia uma vida simples e casta, mas que o satisfazia. Foi então que um dia viu no peitoral da janela defronte a do seu escritório uma linda mulher, pálida, vestida de luto e com lindos cabelos negros. Pensou nela o resto do dia e no dia seguinte, até que viu no peitoril da janela uma moça jovem, em seus vinte anos, diferente da outra que aparentava os quarenta anos, e esta era dona de também lindos cabelos loiros. Logo a julgou filha da mulher de luto.
Não demorou para que Marcário se apaixonasse pela vizinha. E assim já não era o mesmo, sempre desfrutando dos nervos que a paixão causava. Em um dia, as vizinhas, mãe e filha, como ele acreditava, foram à loja que ficava no andar térreo do prédio de seu tio. As duas procuravam por casimiras pretas, e a única justificativa para duas mulheres estarem procurando tal produto era o interesse em se aproximar de Marcário. Assim alegremente ele desceu e falou a elas sobre como aquelas casimiras eram de qualidade. Depois elas olharam alguns lenços da Índia.
Mais tarde, o tio Francisco disse ao sobrinho que lenços da Índia tinham sumido.
Seguidamente Marcário viu na rua um amigo, este retirou o chapéu de palha que levava para cumprimentar as duas senhoras que estavam no peitoril. Imediatamente Marcário foi ter com ele, perguntou-lhe se as conhecia, se eram boa gente, de boa família e se tinha meio de ele as conhecer melhor.
Logo Marcário começou a freqüentar o mesmo serão que elas, e em seguida a casa das duas. Foi em uma dessas reuniões que ele e Luisa – este era o nome da loira – se aproximaram. Em uma delas, um dos convidados exibia uma jóia que adquirira e a balançava no ar encantando Luisa. Em dado momento, a peça caiu no colo da menina, mas ninguém a encontrou.
Ao longo desses fatos, Marcário decidiu casar-se com Luisa. O motivo foi um beijo puro que deram. Pediu ao tio licença pra casar, surpreendentemente esse não permitiu e como o sobrinho insistia no casamento, Francisco o despediu como empregado e familiar. Assim Marcário, decidido, partiu da casa do tio levando seus poucos pertences e crente de que emprego não lhe faltaria, pois era bom empregado.
Começou em uma hospedagem, mas logo se mudou de lá. Não conseguia emprego! Os que conheciam seu serviço não o contratavam porque isso os levaria a romper as relações com o tio Francisco. Sendo assim, Marcário foi vendendo seus poucos bens até chegar ao dito estado de miséria. Por essa razão, ele passou a ver Luisa apenas durante a noite, porque assim ela não via o estado de pobreza que suas roupas demonstravam.
Foi então que o seu amigo do chapéu de palha lhe fez uma proposta: servir no Cabo Frio. Falou com Luisa pedindo que ela o esperasse e assim partiu, passou por muitas coisas muitas vezes desagradáveis, mas finalmente voltou e com fortuna feita. Assim, ele pediu a mão de Luisa e a mãe dela o aceitou de braços abertos.
Porém, o amigo do chapéu de palha lhe pediu uma alta quantia de dinheiro emprestado, e como foi ele quem o ajudou em outros tempos, Marcário se tornou fiador. Essa situação não perdurou, pois o tal amigo fugiu com uma mulher e o negócio, assim como Marcário, faliu.

Assim, com o casamento adiado, Marcário foi falar com o tio mais uma vez (em outro momento ele já tinha ido falar com ele). O emprego e tudo mais estavam ali disponíveis, mas ele só poderia voltar se fosse ficar solteiro. Então Marcário veio procurar o tio pela última vez: para dizer adeus. Surpreendentemente o tio o aceitou de volta e também o casamento. Os bons tempos voltaram e o casamento foi marcado para um ano depois.
Faltando seis meses para Marcário se casar, ele e Luisa foram comprar o anel de noivado, demoraram a escolher, mas por fim decidiram-se. Marcário voltaria no outro dia para buscar o anel que precisava ser ajustado. Saíram alegremente da joalheria, porém o dono da loja os chamou de volta e disse que Marcário tinha se esquecido de pagar, não o anel que buscaria no outro dia, mas o que Luisa estava levando com ela.
Em poucos segundos, Luisa, assustada, entregou o anel ao noivo que pagou o preço dele, afirmando que ela tinha só se enganado e que não fora nada, mas bastou que os dois ficassem sozinhos para que ele, ali mesmo na rua, desmanchasse o noivado: não se casaria com uma ladra.
E esse foi o desfecho da história contada por Marcário ao viajante.

O caso dos dez negrinhos (Aghata Christie)


Dez pessoas de passado escuso são convidadas pelo misterioso Sr.U.N.Owen à passarem as férias de verão em sua mansão na ilha do negro.O anfitrião não aparece e depois de um jantar perfeito ouve-se uma voz sinistra acusando a cada um de crimes ocorridos no passado e que se encontravam apagados da memória de todos. O pânico instala-se e mortes inexplicáveis sucedem e sobre as cabeceiras das camas a sentença do criminoso: a canção infantil dos Dez negrinhos. Quem será o assassino justiceiro?

O livro conta a história de dez pessoas convidadas a passar o fim de semana na Ilha do Negro, que ninguém sabia ao certo a quem pertencia. Cada membro do grupo havia sido convidado por um conhecido, nunca íntimo. Quando chegam a tal ilha, a identidade do anfitrião se torna cada vez mais misteriosa, tanto que esse não aparece para receber os convidados. Um fato curioso e essencial na história é que no quarto de cada hóspede há um poema sobre dez negrinhos que vão morrendo de diferentes formas até não sobrar nenhum. O clima se torna tenso quando um dos hóspedes morre subitamente seguido por uma empregada. Os outros tentam desesperadamente descobrir se é tudo acaso ou se são assassinatos e no caso de ser assassinatos, quem seria o executor. O final é surpreendentemente inteligente, bem ao estilo de Agatha Christie.

A trama é perfeita, e em nenhum momento, ao longo da leitura, desconfiamos de como será o fim. Wargrave não se delatou em momento algum (nem em seus pensamentos, como podemos notar no início do livro). Alguns podem até ter desconfiado de Wargrave durante 78% do livro, até que ele aparece com um tiro na testa e ficamos completamente confusos, e logo depois surpresos com a genialidade do final.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Confissões de Lúcio (Mário de Sá-Carneiro)


Em 1895, Lúcio vai estudar direito em Paris. Encontra outro português, que o apresenta a uma exótica mulher, a americana, e ao poeta Ricardo. Esta mulher dá uma festa indescritível de sensualidade a que comparecem os três rapazes portugueses. Um mês depois da festa a amizade de Ricardo e Lúcio está mais que consolidada. Após dez meses de longos papos, Ricardo retorna inexplicavelmente a Portugal. Durante um ano escrevem-se cartas: Ricardo duas e Lúcio três. Em 1897, no mês de Dezembro, Lúcio também volta a Portugal e encontra o amigo casado com Marta, ou pelo menos vivendo com ela.
Durante vários meses freqüenta a casa do amigo e acaba tornando amante de Marta. Um dia descobre que ela tem outro amante, sente ciúmes: "aquele corpo esplêndido, triunfal, dava-se a três homens – três machos se estiraçavam sobre ele, a poluí-lo, a sugá-lo!... Três? Quem sabia se uma multidão? ... “e ao mesmo tempo esta idéia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse... " Em 1899, enciumado, espiona a mulher e, com o marido (por acaso), vê quando ela entra na casa de um russo. Torturado pelas emoções conflituosas, deixa Portugal e volta para Paris.
Em 1900, o empresário Santa-Cruz de Vilalva o encontra em Paris e pede para encenar sua peça. Lúcio deixa e, mais tarde, reescreve o final, levando-o a Portugal para mostrar ao empresário. Este não aceita o novo final, e Lúcio impede a montagem do espetáculo.
Lúcio encontra Ricardo e o agride verbalmente. Ricardo confessa que mandava Marta possuir os amigos que ele amava. Para ele era uma forma de se materializar e retribuir as amizades, principalmente a amizade por Lúcio que era seu maior amigo. Ricardo, muito abalado tira um revólver e atira em si próprio deixando sua arma cair aos pés de Lúcio. Marta desaparece imediatamente. Lúcio é acusado pelo crime e vai preso. Aproximadamente 10 anos depois ( porque não se esclarece o tempo de duração do processo)  Lúcio termina de cumprir a pena e vai para um lugar retirado, no interior. Aí escreve a sua confissão que é datada de 1913, quando escreve sua história.


Angústia (Graciliano Ramos)


Publicado em 1936, Angústia, de Graciliano Ramos, um dos autores mais importantes do Modernismo, é um dos romances mais ricos que a Literatura Brasileira produziu, pois consegue passear tanto pelo campo social, quanto pelo existencial, psicológico e até metalingüístico.
Os fatos acontecem durante o primeiro governo de Vargas, pois o narrador faz referências aos crimes após a revolução de 1930. Predomina o tempo psicológico, pois o que prevalece durante a leitura é a ação interior, os pensamentos do protagonista. O enredo se arrasta moroso, de forma bastante aborrecido e aborrecedor, confirmando o título da obra.
A ação acontece em Maceió, capital de Alagoas. Além de ruas, cafés e casa de prostituição, predomina o espaço doméstico, em que se pode notar a decadência.
Primeiramente, pode-se interpretar a obra como reveladora da crise resultante da mudança de sistema, o que se vê pelas transformações que se processaram geração após geração, de Trajano, senhor de terras que fora poderoso, passando por seu filho, Camilo, que sedimenta a derrocada, terminando em Luís da Silva, o narrador, fruto de todo esse declínio.
Nesse contexto, o conflito que se estabelece entre o protagonista e Julião Tavares, este tomando daquele a posse da afeição de Marina, pode ser entendido como representação de uma nova ordem que se está estabelecendo e para a qual Luís da Silva estava completamente inadaptado.
Dois são os temas centrais. Se entrelaçam a leviandade e fraqueza moral da mulher e o poder da corrupção do dinheiro.

Personagens:
  • Luís da Silva, protagonista e narrador, intelectual frustrado que sonha sempre que vai escrever e ficar famoso com suas obras. Tem aversão aos abastados. Complexado, tímido, acha-se feio, não consegue aceitar os amores e sensualidade dos outros, julgando tudo grosseiro e animalesco. No entanto, vive querendo sentir o cheiro das mulheres na rua e pensando indecências como ele mesmo diz.
  • Trajano, avô do protagonista, fazendeiro em tempos antigos.
  • Camilo, pai do protagonista, pessoa rude que para ensinar o filho a nadar enfiava-o dentro d'água, segurando por um braço, até quase se afogar.
  • Marina, vizinha, namorada do protagonista. Moça vaidosa e superficial, interesseira e vazia.
  • Julião Tavares, antagonista de Luís da Silva. Sujeito gordo, vermelho. Era literato e bacharel. Reacionário e católico. Aproveitando-se de sua condição econômica, seduz as moças e depois as abandona, até que é assassinado por Luís da Silva.
  • Moisés figura muito interessante. É um judeu que não sabe cobrar, morre de vergonha de ter que cobrar o amigo Luís.
  • Vitória, criada de Luís da Silva, tem 50 anos de idade, cheia de pelancas no pescoço. Tem pêlos no buço e verrugas escuras. É muito feia.
  • D. Adélia, mãe de Marina. Mulher sardenta, pessoa humilde.
  • Seu Ramalho, pai de Marina. Pessoa quieta. É ele quem censura o comportamento da filha.
Resumo:

Luís da Silva recorda acontecimentos do passado, é o oprimido tendo tudo em seu histórico caminhando para o seu rebaixamento. Além de ser preferido por Marina sem qualquer justificativa, tem um histórico de vida recheado de dificuldades. Com a morte do pai, vê-se desamparado, vivendo de favor de casa em casa. Parte, tornando-se retirante, chegando a dormir nos bancos de praça e a pedir esmolas. Até que vira um humilde funcionário público, o que lhe dá um equilíbrio precário, pois se atola em dívidas, aumentadas com as despesas iniciais para o enxoval do casamento que havia assumido. Mora numa casa decrépita em uma vizinhança mais decrépita ainda, exageradamente preocupada em cuidar da vida alheia. Tem como empregada uma senhora cheia de manias, que acompanha pelos jornais com paixão as chegadas e partidas de navios e enterra seus trocados no fundo do quintal. Os acontecimentos que lhe vêm na lembrança têm a ver com pessoas que já morreram ou com a morte delas, como por exemplo, o próprio pai, Camilo, e o avô Trajano. Entre as pessoas de quem ele se recorda duas são insistentes e estão ligadas a fatos mais recentes da sua vida: Marina e Julião Tavares. Aos poucos dá para conhecer a história de como ele conheceu Marina, sua vizinha, como esta o conquistou. Chegou a pedi-la em casamento, mas isso não se realizou porque Julião Tavares apareceu e roubou Marina de Luís. Julião não se casou com ela. Depois de engravidá-la, ele á abandonada. Marina aborta o filho.
Luís da Silva estava sufocado com a idéia de ter sido abandonado, indignado com o fato de Marina ter sido largada pelo cortejador, o que apressou nela um processo de decadência que culminou até no recurso criminoso do aborto, o protagonista atinge o ponto de ebulição quando toma conhecimento de que Julião Tavares estava impunemente de caso novo. De maneira doentia vigia os passos do seu oponente, até que numa madrugada surpreende-o voltando da casa da amante recente. Com a corda, que não saía do seu bolso, estrangula-o. Deixa-o pendurado numa árvore, a simular um enforcamento.
Tal delito, como se percebe, mostrava-se fruto de uma angústia em que se via Luís da Silva.
Após o crime, Luís recolhe-se em sua casa e fica febril, delirando. Um mês depois se recupera e começa o livro em meio às reflexões, de mãos feridas, que não consegue realizar o seu serviço, pois em todo canto vê o rosto de Julião Tavares e se lembra do esganamento. Acompanhando-o em seu mergulho na rememoração de todo o contexto que gerou o assassinato, vemos que é uma sondagem existencial que vasculha a memória do narrador o que faz de Angústia uma obra que antecipa o romance intimista ou o psicológico. Nesse ponto, é interessante ver como os fatos vão puxando outros e compondo, no final de uma narrativa impressionantemente em nada caótica, o todo de uma personalidade em que o aspecto psicológico interpenetra-se ao social.
Trecho escolhido:
Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da Praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.
Nesse excerto, Luís da Silva está atormentado com a idéia de Marina ir de carro à ópera na companhia de Julião Tavares. As lembranças da moça vestida de forma chique e seu perfume misturando-se à gasolina do veículo, além do vermelho, cor predileta dela e sua marca registrada, vão-se fundir de forma obsessiva, ecoando em vários elementos da praça. O mundo externo, na verdade, passa a ser visto filtrado e reinterpretado pelo transtorno mental do narrador. 

sábado, 8 de setembro de 2012

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (Jorge Amado)


  • Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.
  • Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e muitos outros...
  • Primeiro é preciso que se tenha em mente o "descompromisso" do Autor com o registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz constantemente sobre seu "estilo". Jorge Amado já se autoproclamou "um baiano romântico e sensual". É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias.
  • Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a mínima para as normas gramaticais e ortográficas. Incorpora, com a maior naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua Bahia idolatrada.
  • Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular, pausterizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude, numa língua que esse povo fala e entende.
  • O texto que serve de suporte a este estudo centra-se na fixação dos tipos marginalizados para, por intermédio deles, analisar e criticar toda a sociedade. A ação dá-se, basicamente, em Salvador e gira em torno da boêmia desqualificada das cercanias do cais do porto.
  • A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água é uma das melhores narrativas publicadas por Jorge Amado. Veio a lume em 1958 e conquistou desde logo a admiração de quantos dela se aproximaram. Nitidamente imbricada no Realismo Mágico, mistura sonho e realidade; loucura e racionalidade; amor e desamor; ternura e rancor, de forma envolvente e instigante.
  • Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto: família, respeitabilidade, conhecidos, amigos, tradição. Caiu na malandragem, no alcoolismo, na jogatina. Trocou a vida familiar pela convivência com as prostitutas, os bêbados, os marinheiros, os jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador.
  • Joaquim era o “rei dos vagabundos” da Bahia pois escreviam sobre ele nas colunas policiais das gazetas. Era também “cachaceiro-mor de Salvador”, “o filósofo esfarrapado da rampa do mercado”, “o senador das gafieiras”, “o vagabundo por excelência”.
  • Seu apelido é porque um dia ao entrar em uma venda, viu uma garrafa no balcão com uma límpida cachaça. Encheu um copo e virou-o de uma vez. Aí deu um Berro muito forte: Águuuuuua!
  • Sua sede era saciada com cachaça e seu descanso era no ombro acolhedor da prostituta. Fez-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio: era o paizinho, sábio e conselheiro, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira. Sua opção pela bandalha representa o grito terrível do homem dominado e cerceado por preconceitos de toda sorte e que um dia rompe as amarras e grita por liberdade.
  • Seus amigos mais íntimos: Curió, Negro Pastilha, Cabo Martim e Pé-de-vento.
  • Morreu solitariamente sobre uma enxerga imunda e sua morte detonou todo o processo de reconhecimento/desconhecimento por parte da família real e da família adotada. Sua suposta morte foi em um quarto da ladeira do Tabuão.
  • Os amigos durante o velório se embriagam e resolvem, bêbados, levar o defunto para um último "giro" pelo baixo-mundo que habitavam. O passeio passa pelos bordéis e botecos, terminando em um saveiro, onde há comida e mulheres. Vêm uma tempestade e o corpo de Quincas cai ao mar.
Ao renunciar à família, mudar de ambiente e de costumes, Quincas morreu pela primeira vez; na solidão de seu quartinho imundo, envolvido por farrapos e curtindo a última bebedeira, morreu pela segunda vez; ao cair ao mar, não deixando qualquer testemunho físico de sua passagem pela vida, morreu pela terceira vez.

Clara dos Anjos (Lima Barreto)


O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de casas, casinhas, casebres, barracões, choças e a vida das pessoas que ali vivem.
Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher sedentária e caseira. Joaquim era carteiro, gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, e também compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas. Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marramaque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas. Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque freqüentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.
Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas, tendo um cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas rodas de gente fina.
Clara era a segunda filha do casal. Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada com muito desvelo, recato e carinho e a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.
O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça: sua alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor como resultado de sua educação reclusa e temperada pelas modinhas.
Essa natureza elementar de Clara se traduzia na ausência de ambição em melhorar seu modo de vida ou condição social por meio do trabalho ou do estudo.
A descrição de Clara reforça os malefícios da formação machista, superprotetora, repressiva e limitadora reservada às mulheres na nossa sociedade.
Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor.
O padrinho Marramaque, que já lhe conhecia a fama, tenta afastá-lo de Clara quando percebe seu interesse. Na festa de aniversário da afilhada, provoca Cassi e deixa claro que ele não é bem-vindo ali e que seria melhor que se retirasse. Cassi vinga-se de modo violento: junta-se a um capanga e ambos assassinam Marramaque. Clara, que já suspeitava das ameaças do rapaz ao padrinho, passa a temê-lo, mas ele consegue seduzi-la, principalmente ao confessar seu crime, dizendo que matou por amor a ela.
Malandro e perigoso, Cassi já havia se envolvido em problemas com a justiça antes, mas sempre fora acobertado pela sua família, especialmente sua mãe, que não queria que fosse preso. Assim, conseguia subornar a polícia e continuar impune, mesmo depois de ter levado a mãe de uma de suas vítimas a perseguição da imprensa e ao suicídio..
O exagero narrativo de Lima Barreto torna-se patente ao descrever a figura do sedutor. Branco, sardento e de cabelos claros, é a antítese de Clara.
Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Convencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir reparação do dano. A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, geração após geração. .
E, na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “Nós não somos nada nesta vida”!


Caminho de Pedras (Rachel de Queiroz)


Há uma idéia matriz neste romance e em torno dessa idéia é que vai gravitar toda a sua ação: a da desigualdade social da mulher.
João Jacques é o marido de Noemi e ambos tem um filho, o Guri. Jacques não é borracho, nem libertino e nem portanto espanca a mulher. É ótimo pai e um bom marido vivendo em paz com a mulher. Mas a paz matrimonial é mais fecunda em paz do que em amor. Porém o espírito era diferente, o espírito da mulher de João Jacques do espírito dele.
Com isso, Noemi conhece um homem, o Roberto, que reflete um espírito como o dela, de idéias e gostos que se completam. Simpatizam-se e atrás da simpatia veio o amor entre eles.
Noemi, no entanto, não detesta o marido e vacila na separação. Ela sente, a mulher de João Jacques que não tem o direito de sacrificar ao egoísmo do seu prazer a alegria e a paz do momento. Portanto Noemi cometia o adultério se envolvendo escondida com Roberto.
Mulher de vontade própria, firme, acostumada a lutar como um homem pela vida e não querendo fazer do adultério uma traição, ela não sabe como ir a João Jacques e propor a separação, que depois se tornaria inevitável.
João Jacques, então, foi embora e Noemi passa a viver com Roberto e o filho. A sociedade a reprovava e até seu chefe a demitiu.
Um dia, o Guri, o filho de Noemi adoeceu e acabou morrendo por uma febre que lhe dava convulsões. Noemi ficou desesperada. Chorou muito!
No final do romance todos foram embora, um a um: João Jacques, o Guri, os seus amigos como Felipe e Angelita, e o Roberto. Sim, o Roberto. Ele foi preso e levado para longe pois quis dar proteção à Noemi que se encarregara de entregar o maço de boletins nos quarteirões. (Relaciona-se a propagandas subservivas por fazerem parte de uma organização trabalhista).
Roberto que foi junto com ela para protegê-la, acabou sendo preso e levado embora, para o Sul ou para uma  ilha, não se tinha certeza. E Noemi foi solta porque estava grávida de Roberto. Então acabou ficando sozinha.
 Assim termina o livro, com Noemi pisando em falso em uma pedra solta e subindo a ladeira, conversando com o filho no ventre:
- Mais devagar, companheiro!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)


Ciranda de Pedra, primeiro romance de Lygia Fagundes Telles, datado de 1954, reproduz o comportamento humano e seus relacionamentos. Isso é feito a partir de Virgínia, a protagonista, que vive uma complexa situação familiar e tenta ultrapassar as limitações sociais de um mundo masculino e busca uma identidade que defina um ser completo. Mais que apenas uma afirmação da condição feminina, da procura por independência e autosuficiência, o que a autora produz é uma reflexão sobre a própria condição humana, sobre a impossibilidade de se participar na ciranda de pedra.

Em Ciranda de Pedra vivencia-se a desestruturação de uma família burguesa e a dissolução dos costumes. Laura, mãe de Virgínia, a protagonista, comete adultério contra um marido que lhe dava pouca ou nenhuma atenção, abandona um casamento infeliz, mas, ao ter a coragem de romper com a ordem estabelecida, acaba tendo de sofrer as conseqüências. Fica sem duas de suas filhas e ainda tem de arcar com o castigo divino, a loucura. “Nossa mãe está pagando por um erro terrível, será que você não percebe? Abandonou o marido, as filhas, abandonou tudo e foi viver com outro homem. Esqueceu-se dos seus deveres, enxovalhou a honra da família, caiu em pecado mortal!”

Enredo

Virgínia é filha de um casal separado: Laura e Natércio. Sua infância é marcada pela tristeza e solidão. Quando da separação, Laura foi viver em casa de Daniel, seu antigo médico, levando consigo Virgínia. Em casa de Daniel, Laura conta com Luciana, empregada antiga e dedicada, para os cuidados tanto do dia-a-dia doméstico, quanto para com Virgínia, que é ainda muito jovem. Luciana exerce grande influência no espírito da menina. Laura, já muito doente, tem seu estado de saúde agravado, apesar de todos os cuidados e desvelo que Daniel concede a ela, inclusive recorrendo a todos os seus recursos financeiros para as despesas de saúde que exigem o estado de sua querida paciente. Sendo assim, a infância de Virgínia é marcada por grandes dificuldades: de um lado, as financeiras que não permitem à menina realizar pequenos desejos e sonhos (trocar a mobília, por exemplo), posto que todos os recursos de Daniel sejam voltados principalmente para os cuidados com sua mãe; de outro lado, a solidão em que vive e o profundo sentimento de rejeição, pois ela não se sente aceita sequer na casa de Natércio por ocasião das visitas semanais que lhe faz.

Estes sentimentos e conflitos nos são apresentados quando vamos conhecendo detalhes como o fato de Virgínia possuir duas irmãs, Bruna e Otávia que vivem em companhia do pai, Natércio, advogado conceituado que desfruta de bons recursos econômicos, conseqüentemente vivendo estas últimas em condições (econômicas) mais confortáveis que Virgínia (que, entre outras coisas, usa roupas reformadas da mãe, ou das irmãs, bem como os móveis de seu quarto, que são "sobras" do quarto reformado de Otávia). Seu sofrimento e amargura se afloram tanto mais quando em uma de suas visitas à casa de Natércio, muito grande e bonita, com vasto jardim onde existe uma ciranda de anões de pedra com uma fonte, local que ela costuma com freqüência visitar. Mas, apesar da ciranda de anões que ela ama, Virgínia sente-se muito desconfortável na presença das irmãs que a hostilizam e nas quais ela só vê qualidades, enquanto que ela, Virgínia, ao seu modo de ver, só tem defeitos. Sente-se desconfortável também por não conseguir de Natércio, gestos de carinho e afeto de que ela tanto necessita e que ele não oferece, posto que é um homem muito convencional e severo. Angústia e solidão. São estes os sentimentos que Virgínia conhece quer na casa de Natércio quer na casa de Daniel. Nesta última, a menina não pode sequer aproximar-se da mãe, pois esta tem raros momentos de lucidez e encontra-se em estado físico e mental bastante precários.

Distante também é seu relacionamento com Daniel, com quem até hesita em alguns momentos, entre o desejo de ter alguma atitude mais afetuosa, porém recuando sempre, na dúvida de como seria recebido seu gesto. O sonho de Virgínia, nessa época, se resume entre o desejo de ir morar com o pai e as irmãs, e, o que seria a realização máxima, a recuperação de sua mãe com o conseqüente retorno das duas para aquela casa e a família novamente reunida. Porém, o estado de saúde de Laura se agrava, fazendo com que Virgínia realize parte de seu sonho: ela volta a morar naquela casa, passando a conviver com as irmãs, Bruna e Otávia, com Frau Herta (a governanta), e os amigos Conrado (por que é apaixonada), Letícia (irmã de Conrado) e Afonso. No momento em que Virgínia volta a morar naquela casa, ela se dá conta de que aquele ambiente familiar com o qual ela sonhava, era uma ilusão. Sentindo-se rejeitada pelas irmãs que criticam a mãe por ter-se separado do pai, e sem receber de Natércio o afeto, apoio e carinho que esperava, a menina percebe que não há lugar para ela nesse fechado círculo. Compara a ciranda de anões de pedra do jardim, que era sua paixão, com o grupo tão fechado formado por Bruna, Otávia, Afonso, Letícia e Conrado.

É nesse conflito de sensações que, duas semanas após a sua chegada àquela casa, Virgínia recebe a notícia da morte da mãe, seguida do suicídio de Daniel. É também nessa circunstância que Luciana (que era apaixonada por Daniel), num momento de profunda dor, revela à menina, durante uma visita, que Daniel era seu verdadeiro pai. Sente-se, então, mais sozinha do que nunca e, dando-se conta que jamais seria aceita no grupo, da maneira que desejava, pede a Natércio que a interne no colégio, pedido este que é por ele aceito.

A segunda parte do romance tem início com uma Virgínia já adulta deixando o colégio e voltando para a casa de Natércio. Acreditando que já havia superado todas as suas angústias chega àquela casa, mas não demora a perceber que o grupo continua fechado: uma ciranda de pedra mais rígida que nunca. Bruna, ainda mais moralista, havia se casado com Afonso. Otávia, alienada, dedicava-se à pintura e a alguns amantes ocasionais. Natércio, envelhecido, já não trabalhava mais. Frau Herta estava doente, só e abandonada em um cômodo sujo e pobre de um bairro afastado. Letícia, agora, dedicava-se ao esporte: uma tenista premiada e que se interessava apenas por mulheres. Por fim, Conrado, seu grande amor de infância, amor que ardia ainda em seu coração, vivia isolado, recuado, com sérios problemas sexuais. O retorno de Virgínia ao convívio com o círculo familiar reabriram-lhe as antigas feridas. Mas é neste momento também que ela percebe a real face de cada componente da ciranda, suas fraquezas, suas amarguras. Cada máscara se rompe. Ela se dá conta do que, na verdade, se escondia por trás daquela hostilidade e rejeição: ela era desejada por todos ao mesmo tempo e, por isso, temida. Aos poucos, então, vai-se apresentando uma Virgínia mais amadurecida e forte, independente e segura. Ela abandona, por fim, as tentativas de sua entrada nesse círculo fechado, decidindo-se por uma longa viagem, sem perspectiva de volta. Não mais a ciranda de pedra, não mais o desejado jardim, não mais os sonhos. Nem mesmo Conrado. Tudo havia ficado no passado. Mas, como uma rocha, em suas lembranças estaria gravado. “... um dia, um besouro caiu de costas. E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais".