sábado, 30 de novembro de 2013

Feliz Ano Novo (Rubem Fonseca)


Publicado em 1975, Feliz Ano Novo reúne contos escritos por Rubem Fonseca. O livro sofreu censura durante o regime militar, sendo proibido de circular no ano seguinte ao lançamento. Entre vários contos com críticas sociais, pode-se destacar: “Feliz Ano Novo”, “Passeio Noturno” e “Pedido”.

Em “Feliz Ano Novo”, Pereba e o personagem narrador conversam no apartamento deste na noite de ano novo. Zequinha chega ao apartamento e diz que estava aguardando umas armas que viriam de São Paulo. Então, os três vão ao apartamento de uma velhinha, Dona Cândida, buscar as armas. As armas eram do Lambreta e seriam usadas no dia 2 para assaltar um banco na Penha, subúrbio do Rio de Janeiro.

 Ao retornarem ao apartamento com as armas, ficam observando e decidem usar naquela mesma noite para assaltar uma festa de “bacanas”. Com isso, roubam um carro e partem para São Conrado a procura da casa ideal. Encontram uma festa com pouca gente, colocam as meias na cabeça e entram. Mandam todos deitarem no chão, rendem os empregados e Pereba sobe com uma mulher para encontrar uma senhora doente que estava na parte de cima da casa.

Pereba violenta a mulher e mata as duas. O narrador personagem arranca o dedo da senhora para roubar o anel que não saía. Ao descerem novamente, comem a ceia e um dos homens pede a eles que levem tudo e que não irá dar queixa à polícia. Isso revolta ainda mais o narrador personagem, pois percebe que o que roubaram não era nada perto do que os ricos tinham.

Com raiva, manda o homem se levantar e atira, tentando grudá-lo na parede com a força da potente arma. E mata mais um homem, violenta outra mulher. Assim, eles voltam para casa onde estendem uma toalha no chão com as comidas que roubaram e brindam com um “Feliz ano novo”.

Em “Passeio Noturno” parte 1, o narrador personagem chega em casa depois de um dia de trabalho, sua esposa está jogando cartas e bebendo uísque. A esposa diz que ele trabalha demais e precisa aprender a relaxar. Ele vai para a biblioteca enquanto aguarda o jantar. Depois do jantar, os filhos lhe pedem dinheiro. O narrador vai dar seu passeio de carro, como faz todas as noites. Fica um pouco irritado por ter que tirar antes os carros dos filhos, mas ao olhar seu para-choque com reforço especial duplo de aço cromado sente uma euforia.

Sai à procura de uma rua deserta em busca de sua vítima. Começa a ficar tenso por não encontrar ninguém em condições. Até que vê uma mulher andando apressadamente e carregando um embrulho. Apaga as luzes do carro e acelera em direção à mulher, acertando-a acima dos joelhos. Depois parte rapidamente com o carro, voltando para o asfalto, ainda olhando o corpo desengonçado e sangrento da mulher que havia parado em cima do muro. Ao voltar, verifica orgulhoso, que não havia nenhum arranhão no para-choque. Em casa, a família continuava vendo televisão, a mulher pergunta se ele estava mais calmo depois da voltinha na rua. Ele dá boa noite e vai dormir, pois terá no amanhã um dia terrível no trabalho.

Em “O Pedido”, Amadeu, um português viúvo e já adoentado, resolve pedir dinheiro emprestado a seu compatriota Joaquim, dono de um depósito. Os dois não se falavam havia cinco anos, mas Amadeu estava realmente necessitado. Joaquim acha um abuso o pedido de Amadeu e lhe pergunta por que não pedia para seu filho, que havia se formado doutor. Amadeu lhe conta que o filho havia falecido, não tinha mais ninguém e pretendia comprar uma passagem e ir viver com o neto e a nora, na Bahia.

O motivo da briga dos portugueses era porque enquanto o filho de Amadeu se tornava doutor, o de Joaquim, Manuel, só queria vadiar. Joaquim reclama dizendo que quinhentos cruzeiros era muito dinheiro, mas a miséria de Amadeu e a morte de seu filho doutor dissipam o ressentimento e Joaquim resolve ajudar.

Amadeu, na intenção de ser agradável, pergunta sobre Manuel, filho de Joaquim. Isso faz com que Joaquim se aborreça, entendendo a pergunta como uma afronta e dizendo que o filho é um vagabundo. Então, Amadeu se levanta e vai embora, com dificuldades. Joaquim, envergonhado e com lágrimas escorrendo pelos olhos, corre para alcançar Amadeu, mas este já havia ido embora.

Importância do livro:

O livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, é uma coletânea de contos que giram em torno do tema da violência da vida urbana. A obra foi publicada em 1975, momento em que o país vivia a ditadura militar. E, como tantos outros, o livro também sofreu censura, principalmente por conta do teor de violência das estórias e porque mostravam os problemas sociais que contribuíam para a violência. Além de girar em torno desse tema, os contos narram a vida das pessoas na cidade grande, abordando também outros problemas como a solidão, a melancolia e a desilusão.

Período histórico:

O livro foi lançado durante a Ditadura Militar e como muitas obras críticas foi censurado um ano depois do lançamento. Feliz Ano Novo foi recolhido por conter críticas sociais e contos sobre a violência urbana.

Análise:

No livro de contos Feliz Ano novo, Rubem Fonseca registra a vida urbana brasileira de forma muito realista, o que resulta em um relato brutal de situações cotidianas assustadoras. O autor consegue captar a violência que impera nas ruas do país, principalmente no Rio de Janeiro, que muitas vezes é ignorada pela sociedade em geral.

A violência narrada pode surgir de circunstâncias sociais, como em “Feliz ano novo”. Mas, outras vezes, surge de onde menos se espera, de forma gratuita, como em “Passeio Noturno”. Assim, o autor mostra que a violência está presente na sociedade independente da classe a que pertençam os personagens.

As narrativas em primeira pessoa possibilitam ao autor dar a cada narrador uma voz específica, que se adapta a classe social e a geração de cada personagem. O contexto da cidade também mostra, além da violência, a solidão dos personagens, que estão presos à objetivos de vida fúteis. As histórias abordam a melancolia e a desilusão como características comuns a esses personagens.

Por trás das histórias grotescas, utilizando muitas vezes palavras de baixo calão, o autor faz uma crítica à sociedade que se formava valorizando o consumismo e o individualismo. Algumas cenas chocantes são contrapostas a uma situação de normalidade, mostrando a hipocrisia e o cinismo presentes na vida cotidiana da cidade urbanizada.

Os personagens representam os dois extremos da nação: os que vivem à margem e os que constituem a elite privilegiada do sistema. Esta contraposição, mostrada de forma clara no conto “Feliz ano novo”, ilustra o grande problema da desigualdade no Brasil.

Personagens:

- Pereba (Feliz Ano Novo): personagem de classe baixa, ele comete um assalto com seus parceiros em que violenta e mata algumas pessoas. Justifica sua violência dizendo que as vítimas “engrossaram” e ele teve que tomar uma atitude. Lida com a morte de forma banal, brincando com as armas.

- Narrador-personagem (Passeio Noturno I): o personagem não é nomeado. É um homem de negócios, tem um trabalho estressante numa companhia, tem uma esposa e dois filhos adolescentes. Seu passeio noturno de carro à noite é a forma que encontra de relaxar do cotidiano estressante. Atropela pessoas nas ruas, sentindo uma enorme satisfação e alívio.

- Amadeu (O Pedido): um português viúvo e adoentado que resolve pedir dinheiro emprestado a seu compatriota e inimigo Joaquim. Com muita vergonha, toma coragem para fazer o pedido, mas acaba ficando sem o dinheiro por tocar no assunto do filho de Joaquim, desagradando-o.

O Homem que calculava (Júlio César de Mello e Souza)


Malba Tahan é o pseudônimo do professor Júlio César de Mello e Souza que além do Homem que Calculava escreveu mais de 15 livros sobre os costumes e lendas do povo árabe. 

O homem que calculava trata de Beremiz Samir – um calculista brilhante – e suas aventuras pelo Oriente Médio. Ele e nosso narrador se conhecem durante uma viagem e passam a viajar juntos pelo deserto. Ali, encontram aventuras onde o cérebro do calculista será posto à prova diversas vezes e colher os frutos de ser tão inteligente e criativo na resolução de conflitos númericos, por assim dizer. 

Cada capítulo nos apresenta uma nova aventura e, com ela, um novo problema matemático que Beremiz resolve de maneira surpreendente e até divertida. Ele consegue romancear os números e deixar o leitor não só com a sensação de que está realmente entendendo o problema como também aprendendo coisas totalmente novas (ainda que não sejam). 

Ao longo da jornada, Beremiz vai conhecendo pessoas e lugares e solucionado diversas situações por meio de suas habilidades matemáticas: a partilha de 35 camelos para 3 herdeiros, a divisão de 21 vasos com conteúdos diferentes para 3 sócios, dentre outras questões. 

O protagonista encontra muitas pessoas importantes e a todos impressiona com sua inteligência e a forma prática e simples de resolver questões relacionadas à matemática. Chegando a Bagdá, Beremiz cai nas boas graças do Califa e também se torna professor de matemática da jovem Telassim, cujo rosto ele não pode ver. Mesmo assim se apaixonam. 

Beremiz pede, então, ao Rei, a mão da jovem Telassim, filha do xeique Iezid Abud-Hamid, em troca das riquezas e glórias prometidas por ele. 

O Rei após conferência com o xeique Iezid decide que Beremiz poderá casar-se com Telassim desde que resolva um problema criado por um dervixe (religioso mulçumano) do Cairo que consistia na seguinte questão: O rei possuía cinco escravas, duas tinham os olhos negros e as três restantes tinham os olhos azuis. “As duas escravas de olhos negros, quando interrogadas,” diziam sempre a verdade, enquanto as de olhos azuis sempre mentiam. 

Beremiz poderia interrogar três das escravas, que estariam com o rosto totalmente cobertos, mas poderia fazer apenas uma única pergunta a cada uma delas, para então descobrir a cor dos olhos de cada escrava. Beremiz usando de astúcia e lógica, pergunta à primeira escrava de que cor eram os olhos dela, mas esta responde em um dialeto desconhecido e Beremiz, apesar do rei determinar que as próximas perguntas devessem ser respondidas adequadamente, perdeu a resposta da primeira escrava. 

Sem se abalar, o calculista seguiu para a segunda escrava e perguntou qual fora a resposta que a primeira escrava acabara de proferir. A segunda escrava respondera: “Os meus olhos são azuis”. 

Á terceira escrava o calculista perguntou qual era a cor dos olhos das duas primeiras. Ela respondeu que a primeira tinha olhos negros e a segunda tinha olhos azuis. 

Assim o calculista descobriu a cor dos olhos das cinco escravas: a primeira tinha os olhos negros, a segunda tinha os olhos azuis, a terceira tinha os olhos negros e as duas últimas tinham os olhos azuis. 

Vencido o desafio, Beremiz se casa com Telassim, que já era cristã, e converte-se também ao cristianismo. Faz questão, no entanto, de ser batizado por um bispo que conhecesse a teoria de Euclides. Beremiz e Telassim vão morar em Constantinopla e têm três filhos. 

Importância do livro: 

O professor e engenheiro carioca Júlio César de Mello e Souza escreveu (sob o pseudônimo Malba Tahan) várias obras que o consagraram como pioneiro da difusão da educação matemática no país. Por meio da fantasia e do encantamento das lendas árabes, o autor difundiu o gosto e a curiosidade pelo mundo da matemática. O Homem que Calculava, tornou-se um clássico da literatura infanto-juvenil e é lido até hoje, estando na 75ª edição, a primeira edição data de 1938. O livro foi premiado pela Academia Brasileira de Letras. 

Análise: 

Apesar de não ser um livro didático, é muito recomendado nas escolas pela forma como apresenta a matemática. O autor busca colocar a disciplina de forma divertida e lúdica, incentivando uma nova maneira de pensar o aprendizado. Como professor de matemática, o escritor Júlio César conhecia bem as necessidades dos alunos e acreditava que o ensino podia ser mais agradável para o estudante. 

O livro apresenta uma matemática sem fórmulas, baseada no raciocínio do protagonista Beremiz. O Homem que Calculava mostra, com isso, que a disciplina não é um conjunto de fórmulas decoradas e que o conhecimento pode solucionar questões do dia a dia.

As Mil e Uma Noites (Contos árabes, tradução Antoine Galland)


Não foi um único autor e sim uma legião de narradores anônimos, cujas histórias foram reunidas durante séculos até formarem a coletânea que é o clássico da literatura fantástica. 

As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. No mundo ocidental, a obra passou a ser amplamente conhecida a partir de uma tradução para o francês realizada em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num clássico da literatura mundial. 

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. 

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por ter sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites. 

Célebres no mundo inteiro, estes contos árabes ganharam uma tradução cuidadosa de Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros, e uma primorosa edição ilustrada. 

As narrativas, entre as quais estão as famosas viagens de Simbad, o marujo, as aventuras de Aladim e a lâmpada maravilhosa e a mirabolante história de Ali Babá e os quarenta ladrões, são contadas por Sherazade, essa jovem corajosa que se sacrifica pelo seu povo para salvá-lo da ira do sultão Shariar.

Extremamente habilidosa na arte de contar histórias, a protagonista consegue, ao final de mil e uma noites, salvar o seu reino e transformar o pensamento de seu esposo. 

O poeta confere ao livro As mil e uma noites um toque todo especial pela sua linguagem clara e agradável, tendo utilizado a primeira versão, em língua ocidental, feita por Antoine Galland.

sábado, 16 de novembro de 2013

A Casadinha de Fresco (Artur Azevedo)


Carlos era privado do Capitão General e também fora amante da esposa dele. Quando ele foi descoberto, aceitou até mesmo ser morto, mas o Capitão preferiu outro tipo de vingança. Quando Carlos se casasse, ele iria seduzir a esposa do rapaz e pagar na mesma moeda. Por esse motivo, Carlos fingia sofrer de um reumatismo e assim ficava retirado no campo, porém lá ele planejava seu casamento em segredo com Gabriela. 

Carlos estava em uma estalagem e preparava seu casamento com dificuldades, já que o dono da estalagem e sua filha eram curiosíssimos e ficavam sempre buscando descobrir o que Carlos tramava, ainda mais por ele ser estrangeiro (era de Lisboa). Nessas circunstâncias, o pai de Gabriela, Castelo Branco, reclamava porque concedera o casamento pensando só em suas terras. Castelo pensava que vendo sua filha casada com o privado (Carlos) do Capitão General, não teria problemas mais em perder a sua casa. Cochicholo era uma fazenda muito querida por Castelo, e o Capitão General quis comprá-la por todo o preço; agora ele acabaria conseguindo de qualquer forma comprar a fazenda. 

 Agora o casamento não só demorava a sair, como também não lhe traria o benefício esperado. Queria então que ao menos a filha se casasse logo. Mas Carlos precisava de duas testemunhas, uma era um mudo da cidade e a outra era um amigo de sua confiança que iria chegar, pois assim seu casamento não seria descoberto pelo Capitão. Porém, o amigo e a segunda testemunha não puderam ir e isso atrasou mais ainda o casamento. 

Castelo Branco pediu para chamarem Bento, o dono da estalagem, mas Carlos não queria porque o homem era um curioso e logo espalharia a notícia. Foi quando passou por lá Manuel de Souza, um conhecido de Carlos, de quem na verdade ele tinha salvado a vida. Assim, Carlos, em troca do favor, pediu que ele testemunhasse seu casamento e guardasse o segredo. Manuel não queria, pois estava fora de casa há três dias a mais do que falara a sua esposa, Gertrudes, e ela era muito ciumenta em razão de uma traição passada cometida por Manuel. 

Porém, então, Manuel acabou ficando e assim o casamento foi feito. Mas em seguida chegou ali o Capitão porque pela manhã tinha recebido um recado de Carlos dizendo que estava tão mal que acreditava que hoje mesmo morreria. Em tais circunstâncias, Carlos, então, articulou uma mentira para enganar o Capitão e não ter que ceder sua mulher. Falou que Gabriela era esposa de Manuel. O Capitão, que instantaneamente se interessou pela moça, convidou Manuel, ela e o pai de Gabriela, Castelo Branco, para morassem em sua casa em Porto Alegre. 

Em meio a isso tudo, Gertrudes, que ia atrás de Manuel, chegou à estalagem e, quando convencida pelo marido de que ele não havia sido infiel e ao ouvir o convite do Capitão, alegrou-se toda com a nova vida.

Nisso partiram rapidamente. Gertrudes ficou e Carlos também, mas ele seguiu a caravana logo depois. Chegando à casa do Capitão General, ele fez de Manuel o senhor das lanças, e fez de Castelo Branco o senhor-mor e de Gabriela, sua leitora, já no plano de conquistá-la. Depois de realizadas essas nomeações, Carlos chegou. Ele tinha um plano, claro: Gertrudes ficaria na estalagem e um médico a faria crer que ela estava doente, porque a mesma tinha desmaiado depois da saída repentina de Manuel. Assim, nesse tempo, Carlos fingiria ser o marido de Gertrudes durante o dia e, à noite, ele iria ficar com sua esposa, escapando da vingança do Capitão General. 

Tudo caminhava bem, mesmo depois da chegada de Gertrudes, que novamente convencida de que o marido não estava sendo infiel, aceitou a idéia de tê-lo como marido também só durante a noite. Carlos tinha inventado uma história de que a família de Manuel tinha uma tradição de marido e mulher dormirem em quartos separados, o que facilitaria o ajuste dos casais durante a noite. 

Porém, o Capitão General chamou Carlos e lhe propôs o perdão caso ele o ajudasse a conseguir o coração de Gabriela. Carlos claramente não aceitou, defendendo sua amizade com Manuel. 

Nesse ponto, Carlos viu como última saída fugir com Gabriela, a esposa. A fuga estava pronta e os dois estavam partindo quando Gertrudes os atrapalhou. Manuel, que havia deixado apenas um recado avisando que tinha ido cumprir uma missão determinada pelo Capitão, fez com que Gertrudes acreditasse que ele estava traindo-a. Assim, quando viu o casal fugindo, ela achou que era o marido e fez com que eles fossem descobertos pelo Capitão General e os guardas. 

Foi aí, então, que toda a verdade foi revelada e o Capitão General prendeu Carlos. Estando Gabriela junto ao Capitão suplicou-lhe perdão ao marido. Como ele exigiu algo em troca, ofereceu o cochicholo. Frente à inocência da menina que não entendia o que realmente ele queria, acabou aceitando esse pagamento pela liberdade de Carlos. Mas o capitão exigiu também que ela não contasse o que tinha feito pra conseguir a liberdade dele. 

Quando Carlos foi liberto, Gabriela abraçava o Capitão em demonstração da amizade que eles tinham agora. Carlos então pensou que a vingança estava cumprida e por isso destratou Gabriela e a devolveu ao pai. Nesse instante, entrou rindo o Capitão General e também Gertrudes com Manuel. 

Gertrudes, que já tinha tentado antes conseguir que o Capitão concedesse a dispensa de Manuel de seu cargo, estava decidida a conseguí-la agora. O motivo era que andando pela casa do Capitão encontrou um retrato de sua esposa e viu que ela se tratava da mesma mulher com quem Manuel tinha tido o caso que a deixara tão ciumenta. 

Então o Capitão, vendo que a sua esposa tivera mais de um amante, percebeu que não valia a pena a sua vingança pois a sua mulher não valia nada. Sendo assim, o Capitão General falou a verdade a Carlos, que se reconciliou com Gabriela. E todos ficaram felizes: Carlos e Gabriela, Gertrudes e Manuel.

sábado, 12 de outubro de 2013

Uma vida em segredo (Autran Dourado)


Prima Biela viera morar na cidade depois da morte de seu pai. Seu primo Conrado a buscou na fazenda do Fundão onde vivera isolada do mundo, na companhia apenas do pai e dos empregados. Conrado era casado com Constança e tinham cinco filhos; Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu e Silvino. A esposa, depois de muita conversa, o convencera de trazer a prima Biela para morar com eles. 

No dia da sua chegada as crianças e Constança aguardavam ansiosas. No finalzinho da tarde prima Biela chegou acompanhada de Conrado. Para todos ela foi uma decepção, mais parecia um “bicho do mato”, com um vestido de chita, calada e de cabeça baixa. Constança falava sem parar devido ao silêncio de Biela, que resolveu ir para o quarto – oportunidade em que todos se juntaram para falar das impressões que ela causara. 

Conrado era o tutor da prima e zelava pela riqueza que ela havia herdado. Os primeiros dias na casa foram muito difíceis para Biela. Se tivesse coragem teria pedido ao primo que a levasse de volta para a fazenda do Fundão. Constança representava para ela muita coisa, via nela uma ternura, lembrava-se da mãe, muito cedo perdida. Chegava a compará-la com uma das santas do altar. Admirava como ela comia, como se vestia e conversava. 

Os momentos na mesa eram os mais constrangedores para Biela, seguravam-se para não rir do modo que ela comia e de como se atrapalhava com os talheres. Biela tinha medo de Alfeu, ele a perturbava, ria dela. Conrado só se sentiu melhor quando a prima finalmente trocou algumas palavras com ele. Perguntou-lhe quando chegavam suas coisas lá da fazenda. 

Quando seus pertences chegaram, ela os organizou e na frente do espelho arrumou o coque de modo que parecesse com o de Constança. Foi a única vez em que sentiu orgulho e, por isso, na hora do jantar saiu com o coque arrumado. Viu o riso na cara de Alfeu, mas o sorriso de aprovação de Constança e a arrumada que Mazilia deu no coque a animara. Foi assim que saiu para comprar vestidos. 

Ela não acreditava que podia comprar panos tão finos, mas Constança afirmava que ela era rica e podia gastar. No caminho para a loja, Constança sentiu-se envergonhada por estar em companhia de Biela, mas depois tal sentimento se desfez e elas compraram novos vestidos. Prima Biela para eles mais parecia um espantalho, parecia que os vestidos não lhe pertenciam. Ela via que não lhe caíam bem, mas sentia prazer por estar com panos tão bonitos. 

Com o tempo Biela se transformou em uma presença comum na casa. Ela acompanhava Constança às missas e a algumas visitas, mas já fazia suas próprias amizades. Ficara conhecida na cidade, todos falavam que prima Biela era um moça muito boazinha. Em casa, com a família, falava apenas o necessário, se relacionava melhor com o pessoal da cozinha, Gomercindo e Joviana. Constança nem dava mais tanta importância a esse fato. 

 Foi então que a prima descobriu Mazília, passou a tratar com ela depois da tarde em que ela tocou piano. Biela sempre via aquele armário, mas não sabia do que se tratava. Ela e Mazília começavam uma pequena amizade. Ela continuava com suas visitas, até se perguntava como vivera tanto tempo solitária, longe do mundo, no Fundão. Ao mesmo tempo Biela também se dedicava a Mazília, achava-a a moça mais bonita, prendada e educada de todas. Quando ela ia tocar na igreja, ía à missa e bebia música.

Conrado passou a reunir alguns amigos para jogarem truco, Biela fazia bolos e quitandas e servia para eles junto com café. Foi assim que ela e Modesto começaram a trocar olhares. Ela não entendia o moço, mas Constança notou o que acontecia. Passou a falar dela para ele e vice e versa, sempre ressaltando as qualidades de cada um e muitas vezes até exagerando. Foi assim que o pai de Modesto pediu a mão de Biela em casamento para o filho. 

Constança perguntou a Biela se era de bom agrado para ela. Ela não entendia o que Modesto queria, nem compreendia o porquê de se casar. Porém, via que o casamento agradava a família e assim aceitou. Nos encontros dos dois reinava o silêncio e hora ou outra ele lhe perguntava sobre suas posses. Modesto não gostava de trabalhar, mas seu pai dera um jeito nisso. E foi justamente um dos serviços de Modesto que o levou a fugir, abandonando a noiva. 

Muitos comentaram sobre o caso. Depois de um tempo, Biela rasgou aqueles vestidos que a deixavam como um espantalho, vestiu seu vestido de chita e mudou o rumo de sua vida. As primas casaram e foram embora, Biela sofreu por Mazília. Alfeu foi estudar e Silvino virou fazendeiro como o pai. 

Biela passou a viver na cozinha com os empregados, rompeu relações com a casa, mudou-se para um quartinho ao lado da despensa. Conrado e Constança apenas aceitaram o seu jeito de ser. Ela continuava com suas visitas, mas agora elas se direcionavam às empregadas da casa e não às donas. Com o tempo passou a realizar pequenos serviços nas casas e a receber moedas em troca. 

Conrado se irritou com o fato de ver sua prima trabalhando em outras casas apesar de ser rica. Por isso, perguntou-lhe se ela não gostaria de cuidar do seu próprio dinheiro já que agora era capaz, por ser maior de idade. Mas Biela gostava das coisas como estavam. Biela envelhecia e aparentava muito mais idade do que realmente tinha. Tossia muito, mas não acreditava em médicos. Tomava suas receitas caseiras e seguia. 

Um dia, ao voltar para casa, uma noite, encontrou um cachorro. Ele a seguia, mas não deixava que ela se aproximasse. Ele a seguiu até sua casa, e, depois de um tempinho, entrou pela porta que ela deixara aberta. Ela o alimentou e o batizou como Vismundo. Era sua paixão, o que tinha de mais precioso. Eram grandes amigos e os netos da casa a deixavam com ciúme quando brincavam com ele. 

Foi nesses tempos que Biela, de fato, adoeceu. Constança se arrependeu por ter deixado as coisas tomarem o rumo que tomaram. Biela foi levada ao hospital e começaram a tratá-la. Vismundo sentia a falta da dona, foi visitá-la um dia. Conrado veio ao hospital e Biela fez seu testamento, assinando no lugar de seu nome: “Gabriela da Conceição Fernandes”. 

Depois disso, transferiram-na para a área das indigentes, porque ela queria ficar com as amigas que fizera quando visitava o hospital. Conrado não aceitou, mas o médico acabou por convencê-lo, e ele só cedeu porque continuou a pagar pelo quarto que ela não usava. 

Biela nem pode aproveitar a enfermaria geral onde conhecia algumas pobres amigas suas. Na terceira noite passou mal e o médico e os primos foram chamados. O novo padre da cidade veio e passou nos olhos, ouvidos, nariz, mãos e pés o óleo santo. Os olhos de Biela já estavam fechados para sempre enquanto ela via imagens de sua mãe cantando a cantiga de ninar, Mazília no vestido de noiva e por último Vismundo. Por fim, prima Biela faleceu.

domingo, 6 de outubro de 2013

A Divina Comédia - Dante Alighieri (Dante Alighieri)


Os três livros que formam a Divina Comédia são divididos em 33 cantos cada, com aproximadamente 40 a 50 tercetos, que terminam com um verso isolado no final. O Inferno possui um canto a mais que serve de introdução a todo o poema. No total são 100 cantos. Os lugares descritos por cada livro (o inferno, o purgatório e o paraíso) são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 (3 vezes 3 vezes 3) níveis. Os três livros rimam no último verso, pois terminam com a mesma palavra: Stelle, que significa 'estrelas'.

Dante chamou a sua obra de Comédia. O adjetivo "Divina" foi acrescido pela primeira vez em uma edição de 1555. A Divina Comédia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustave Doré, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e William Blake estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Comédia como tema de um de seus poemas sinfônicos. 

Inferno: Quando Dante se encontra no meio da vida, ele se vê perdido em uma floresta escura, e sua vida havia deixado de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio - poeta da antiguidade que ele admira - disposto a guiá-lo por um caminho alternativo. Virgílio foi chamado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que o viu em apuros e decidiu ajudá-lo. Ela desceu do céu e foi buscar Virgílio no Limbo. O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio guiaria Dante até as portas do céu. Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas. 

Purgatório: Saindo do inferno, Dante e Virgílio se veem diante de uma altíssima montanha: o Purgatório. A montanha é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo chegando a alcançar o céu. Na base da montanha encontram o ante-purgatório, onde aqueles que se arrependeram tardiamente dos seus pecados aguardam a oportunidade para entrar no purgatório propriamente dito. Depois de passar pelos dois níveis do ante-purgatório, os poetas atravessam um portal e iniciam sua nova odisséia, desta vez subindo cada vez mais. Passam por sete terraços, cada um mais alto que o outro, onde são expurgados cada um dos sete pecados capitais. No último círculo do purgatório, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre. Finalmente, às margens do rio Letes, Dante encontra Beatriz e se purifica, banhando-se nas águas do rio para que possa prosseguir viagem e subir às estrelas. 

Paraíso: O Paraíso de Dante é dividido em duas partes: uma material e uma espiritual (onde não há matéria). A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), o céu das estrelas fixas e o Primum Mobile - o céu cristalino e último círculo da matéria. Ainda no paraíso terrestre, Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se, "transumanando". Guiado por Beatriz, Dante passa pelos vários céus do paraíso e encontra personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. Chegando ao céu de estrelas fixas, ele é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No céu cristalino Dante adquire uma nova capacidade visual, e passa a ter visão para compreender o mundo espiritual, onde ele encontra nove círculos angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística, se separa de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, "o amor que move o sol e as outras estrelas".

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Noites Brancas (Fiódor Dostoiévsky)


Primeiramente, em termos de curiosidade, a expressão “Noite Branca” refere-se ao fenômeno climático comum na Rússia e no Leste Europeu, onde o sol não se põe em nenhuma hora do dia fazendo com que as noites fiquem brancas, e realmente, para quem lê o livro, o ambiente em que essa história se passa parece esbranquiçado, claro, um pouco vazio e solitário. Outra observação é de que “O Sonhador” se refere ao narrador que é também o personagem central dessa história. E por último esclarecer que essa obra é do romantismo, e sendo assim não se assustem com o final nada atípico, já que o amor impossível é uma característica desse fenômeno literário. 

Noites Brancas é um livro escrito pelo russo Fiódor Dostoiévsky em 1848, escrito antes de sua prisão. Talvez por isso é uma obra que traz mais sensibilidade. 

Para que possamos entender essa obra de Dostoievsky precisamos saber que esse escritor não foi um romancista do nada, a vida fez com que ele se identificasse com esse tipo de trabalho, que ele sempre teve uma vida sofrida: perdeu a mãe ainda pequeno, sua esposa e seu irmão morreram no mesmo ano e depois de sair da prisão sofreu de paranóia, do vício do jogo, do alcoolismo e da pobreza. Pelo que parece a melancolia presente, nessa e em outras obras, é por causa de sua vida, que não foi uma das melhores.

Nessa história, que é dividida em cinco capítulos: Primeira Noite, Segunda Noite, Terceira Noite, Quarta Noite, Manhã, o nosso personagem principal é o Sonhador, como ele mesmo se denomina. Ele narra à história fazendo parecer tudo muito real, os sentimentos são evidenciados de maneira plausível. Ainda como personagem temos a cidade de São Petersburgo; parece um pouco estranho ter a cidade como personagem, porém isso evidencia mais uma vez a solitude melancólica em que nosso Sonhador vive, até porque ele demonstra ser um grande conhecedor da cidade. 

O livro narra as longas caminhadas do Sonhador pelas ruas de Petersburgo, momentos em que observa as pessoas, suas vidas e tenta afastar a solidão de sua existência. O Sonhador sente um vazio tão profundo que chega a ser divertida a forma como se relaciona com "as coisas" que encontra pelo caminho. É sério... observando casas, rios, transeuntes ele faz deles seus "amigos".

Foi numa dessas caminhadas que o Sonhador encontrou a desiludida Nastássia. Seu choro chamou-lhe à atenção. Aproximaram-se. Durante as quatro noites seguintes eles se encontraram neste mesmo lugar e trocaram confidências, suas vidas, seus amores, seus anseios... São um encontro de almas. A cumplicidade entre os dois cresce gradativamente. 

Nesse período o Sonhador começa a contar a sua história, expondo apenas seus devaneios, pois considera que não tem história, sempre se ridiculariza. 

Nastássia se impressiona com sua solitude e, por pena, dá seu voto de confiança a ele. E ela começa a contar sua história: ela também, como o Sonhador, demonstra ter muitos sonhos e ser uma pessoa sozinha. Sua avó a prendera junto da sua saia com alfinetes. Ela vivia junta ao mesmo vestido da avó, que por ser cega queria ter mais controle sobre a neta. Porém Nastássia havia se relacionado com um “homem” que fora inquilino de sua avó e por questões trabalhistas ele se mudara de cidade prometendo voltar dali a um ano para aquela que havia roubado o seu coração. 

Nesse momento Nastássia se emociona alegando que aquele era o dia exato em que ele tinha partido a um ano atrás. Então o Sonhador consola-a e se compromete a mandar uma carta a esse homem pedindo satisfações, uma vez que era hábil com as palavras. Os dois se comprometem a se reencontrar na noite seguinte. 

Na terceira noite Nastássia chega muito alegre, agradecendo ao Sonhador por não ter se apaixonado por ela – o que não era verdade, o Sonhador já sofria de amores por ela -! 

Em certo momento Nastássia começa a chorar dizendo que o homem por quem se apaixonara não iria voltar, porém o Sonhador a consola e fala que ainda não dera tempo da carta chegar. Nastássia muito comovida agradece o Sonhador e diz : “Por que ele não é o senhor? Por que ele não é como o senhor? Ele é pior do que o senhor, embora eu o ame mais do que a si.” De novo os dois se comprometem em se encontrar novamente na noite seguinte. 

Na quarta e última noite o Sonhador decide se declarar a Nastássia. Ela, então, comovida e sem esperanças de que sua verdadeira paixão volte diz querer se entregar ao Sonhador. Em alguns momentos dessa noite os dois riram, choravam, andaram juntos com um tom de felicidade estampado no rosto, porém tudo isso é interrompido... por aquele homem que havia prometido voltar, e voltou!

Nastássia saiu em disparada aos braços desse homem. Mas, ela, um pouco ressentida vira-se ao Sonhador e em forma de agradecimento por tudo o envolve em seus braços e lhe aplica um beijo intenso e caloroso. Depois, sem dizer uma palavra ela volta aos braços do seu amor, que a leva consigo.

Pela manhã do dia seguinte, o Sonhador recebe uma carta de agradecimento e pedido de desculpas de Nastássia. 

Então o Sonhador volta a sua postura emblemática de melancolia e se vê em casa, na mesma casa, com a velha Matriôna quinze anos mais tarde. “Meu Deus! Um momento inteiro de júbilo! Não será isto o bastante para uma vida inteira?...”

domingo, 25 de agosto de 2013

A Cidade Sitiada (Clarice Lispector)


Lucrécia Neves era uma moradora de São Geraldo, um subúrbio que aos poucos se transformou acompanhando a modernização ao redor. Lá havia uma grande quantidade de cavalos que disputavam a rua com os moradores, viam-se também galinhas, e o cheiro dos poucos motores se misturava ao aroma do campo.

Lucrécia morava com a mãe, Ana. Era extremamente patriota em relação ao subúrbio, sentia-se dona da cidade. Era magra e alta, o rosto era pálido e, em alguns momentos, apresentava manchas negras, talvez pelo efeito da luz. Ela era uma mulher fria e também ingênua.

Sua mãe era viúva, viviam as duas juntas em uma casa cheia de bibelôs, a comunicação entre mãe e filha não era das melhores, na verdade, juntas encenavam uma “farsa”. Não eram pobres, o que elas tinham permitia uma vida adequada sem luxos ou extravagâncias.

Lucrécia namorava Felipe, que fazia parte da cavalaria; ela amava homens do exército, aqueles que usavam fardas e carregavam armas. Felipe se enquadrava bem a esse perfil. Ao mesmo tempo saía com Perseu, um jovem bonito, talvez o homem mais bonito que ela já tivera; Perseu gostava dela, achava-a maravilhosa; no entanto, para ela, ele era um belo e educado homem, mas também um fraco, já que ela se mantinha à frente do relacionamento deles.

Lucrécia e Felipe romperam no momento em que ela lhe negou um beijo e ele ofendeu o subúrbio dela; ela o criticara como forasteiro e assim acabara o romance. Felipe tinha farda, porém não pertencia a São Geraldo. Perseu e ela também acabaram se separando, mesmo depois da tentativa dele de mudar o jeito de ser, ao que Lucrécia reagira negativamente, fazendo-o voltar a ser o Perseu maravilhado pela pessoa dela.

Nessas circunstâncias, existia Mateus, um homem rico, morador da metrópole, mas que vinha a São Geraldo e fazia visitas à Ana com o verdadeiro intuito de conseguir Lucrécia. E ela, como já tinha a idade para se casar, casara-se com ele e foram para a metrópole.

Na metrópole íam às festas e teatros. Lucrécia ao mesmo tempo se espantava e admirava o ritmo acelerado da metrópole com toda a sua modernidade. Moravam em um hotel; ela não fizera amizades e também não compreendia o marido, porém o amava. Mateus era rico, saía cedo para trabalhar e era bondoso. Lucrécia só viera a compreender o jeito de ser do marido quando ele morrera. Foi aí que ela descobrira a bondade do marido e como a rotina do casamento o alegrava.

Lucrécia, cansada da metrópole, decidira voltar a São Geraldo. Mateus aceitara instantaneamente a idéia.

Ana havia se mudado para uma fazenda de um parente ou conhecido, assim eles voltaram a morar na antiga casa de Lucrécia. No subúrbio, os cavalos já davam espaço para os bondes. As fábricas surgiam e um viaduto fôra construído varrendo os cavalos, galinhas e o cheiro de campo para longe.

Como Mateus viajava muito, em uma de suas viagens deixara Lucrécia em uma ilha para que ela engordasse e não ficasse só em São Geraldo. Nessa ilha vivia Dr. Lucas, já conhecido de Lucrécia. A mulher dele vivia em um manicômio e foi assim que ela se apaixonara pelo doutor. Eles passeavam juntos e, às vezes, os braços se tocavam e ela se apaixonava cada vez mais. Ele achava impossível o romance e depois questionava se Lucrécia reapareceria.

Na noite seguinte, Lucrécia estava lá declarando que por ser impossível esse amor, não iria continuar. Os dois viveram um romance. Mais tarde Lucrécia voltara à São Geraldo e Mateus morrera. Lucrécia sofrera, arrependera-se de como era a vida com o marido, sem nunca ter compreendido o quão bom era ele.

Nesse tempo, Perseu se tornara um homem, encontrara uma mulher no trem com quem se sentou para beber depois da viagem e mudara-se para outra cidade para exercer a medicina.

Viúva, Lucrécia morava só no subúrbio que não era mais o seu subúrbio. Os cavalos foram banidos e a nova geração, domada pela modernidade, tomava conta das ruas.

E foi assim que Lucrécia recebera uma carta entregue por sua mãe, de  um homem de “bom coração” que se interessara por ela (tinha visto uma foto). Lucrécia se encantara com a novidade e assim fôra embora de São Geraldo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Feliz Aniversário (Clarice Lispector)


D. Anita completava 89 anos de vida, ela morava com Zilda, uma de suas filhas que organizara toda a festa. Ela arrumou a mãe horas antes do horário da festa e a deixou sentada na cabeceira da mesa, onde o bolo, os croquetes e sanduíches de presunto seriam postos. Estava tudo preparado pela Zilda.
Os primeiros convidados foram chegando, primeiro a nora Olaria e depois a nora Ipanema. Quando as duas já não aguentavam mais o silêncio e o tédio do momento, os demais convidados chegaram.
Com o passar do tempo, as crianças já estavam sujas e descabeladas. Os sanduíches e croquetes eram devorados, não sustentavam, mas matavam a fome e as pessoas conversavam. José, o filho mais velho - depois da morte de Jonga - falava para Manoel, seu irmão e sócio, que aquele dia era o da mãe deles, e não um dia para se falar de negócios.
A noite entrava e D. Anita ficava ali sentada, imóvel, sem dizer nada. Um pouco mais cedo ela tinha reparado nos guardanapos e no movimento dos balões quando um carro passava. Porém agora seu rosto era impassível.
Cantaram finalmente o “Parabéns” para D. Anita, alguns em inglês, outros em português. As pessoas presentes diziam para ela partir o bolo. E com uma força que chegou a assustar, a velha partiu o bolo que rapidamente foi devorado por todos.
Os filhos, netos, noras, continuavam a conversar e a comer, mas D. Anita estava chateada pois único que ela gostava mesmo daquela família toda era Rodrigo, um de seus netos; o resto ela olhava com desprezo. Achava ela que todos os filhos fizeram péssimas escolhas para as noras; esposas que não sabiam mandar em uma empregada, esposas que usavam muitos brincos e pulseiras, mas nada de ouro. E os netos seguiam os mesmos caminhos.
Por um momento na festa D. Anita gritou que queria vinho. Uma das netas perguntou se não lhe faria mal. Mas D. Anita mandou que todos fossem para o inferno. Dorothy, então, trouxe um copo com dois dedos de vinho e todos acharam que ela iria reclamar, no entanto D. Anita não falou nada, porém não bebeu o vinho. E todos continuaram comendo e rindo.
Uma nora de D. Anita se levantou pois tinha que ir embora. Em seguida, José foi fazer o discurso. Falou que era um privilégio de poucos poder comemorar o aniversario da mãe, mas se limitava a dizer mais, pois nessa hora sentira falta de Jonga, que era quem fazia os discursos. Desde que ele morrera D. Anita não falara mais nele. De qualquer forma o discurso ficou marcado como um “até o ano que vem”!
Assim a festa acabou e todos deixaram a casa, descendo as escadinhas do prédio e se despedindo na promessa de se verem no próximo ano. Nesse momento as pessoas foram mais amáveis umas com as outras, pois a despedida permitia isso.
Algumas pessoas pensavam na palavra do discurso como uma promessa de que não teriam que se ver por mais um ano, outros, na perspectiva de que Anita vivesse mais um ano. A nora Ipanema fora embora desejando que a sogra vivesse mais um ano para que completasse um número bonito - noventa anos!


domingo, 18 de agosto de 2013

Pai Rico Pai Pobre (Robert Kiyosaki e Sharon Lechter)


Pai Rico, Pai Pobre conta à história do norte-americano Robert Kiyosaki. Ele conseguiu ser um investidor de sucesso e conquistar a independência financeira. A alfabetização financeira de Robert começou aos nove anos, com lições do pai de um amigo, a quem o autor passou a chamar de "Pai Rico". Foi dele que Robert recebeu as primeiras noções sobre o valor do dinheiro. Conselhos bem diferentes dos dados por seu verdadeiro pai, a quem chama de "Pai Pobre".

O objetivo deste livro é o de partilhar percepções quanto à maneira como uma maior inteligência financeira pode ser empregada para resolver muitos dos problemas comuns da vida. Sem treinamento financeiro, frequentemente recorremos a fórmulas padronizadas para levar a vida, como trabalhar com afinco, poupar, fazer empréstimos e pagar impostos demais. Segundo o autor, cada indivíduo tem o poder de determinar o destino do dinheiro que chega às mãos. 

A escolha é de cada um. A cada dia, a cada nota, decidimos ser rico, pobre ou classe média. Dividir este conhecimento com os filhos é a melhor maneira de prepará-los para o mundo que os aguarda. Ninguém mais o fará. No livro há comparações entre o pai rico e o pai pobre, tendo como principal diferença a Inteligência financeira. 

Uma combinação de várias habilidades e talentos, que necessitam também de sólidos conhecimentos em quatro grandes áreas: Contabilidade (capacidade de ler e entender demonstrações financeiras, permitindo identificar os pontos fortes e fracos de qualquer negócio), investimento, conhecimento da lei (como utilizar vantagens tributárias) e entendimento dos mercados. 

Segundo o autor, a educação formal não prepara as crianças para a vida real, e boas notas e formação não bastam para garantir o sucesso de alguém. A diferença está entre ter o controle do próprio destino ou não. O livro traz lições para controlar o destino e tornar-se bem-sucedido.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O assassinato na casa do pastor (Aghata Christie)


St. Mary Mead, um pacato vilarejo, onde há quinze anos não ocorre um homicídio e onde as pessoas discutem a vida alheia tomando chá. Quando um sangrento crime acontece em plena casa do pastor, o alvoroço é grande. O arrogante inspetor Slack é escalado para investigar o caso. O mistério também intriga uma discreta moradora que gosta de jardinagem e de observar pássaros de binóculo, mas cujo principal hobby é o estudo do comportamento humano, Miss Marple. A estreia da sagaz velhinha, o aparecimento de personagens inusitados e a engenhosidade da trama fazem deste romance de 1930 um dos clássicos de Agatha Christie.
Agatha Christie é uma das autoras mais traduzidas, mais lidas e melhores - dentro do seu gênero - do mundo. Ela é conhecia por seus dois personagens principais: Hercule Poirot e Miss Marple.
Assassinato na casa do pastor é o primeiro caso da Miss Marple - uma senhorinha extremamente observadora que é muito interessada no comportamento humano. Nada escapa aos seus olhos.
Tudo começa quando Protheroe é assassinado na casa do pastor - vocês nem devem ter desconfiado pelo título, imagino. Como St. Mary Mead é um vilarejo minúsculo, logo todos estão sabendo do ocorrido. E claro, todos estão curiosíssimos para saber quem é o assassino.
As pessoas começam a conversar mais umas com as outras, a igreja fica cheia de gente - querendo fofocar no pátio depois da cerimônia - e todo mundo parece ter uma desculpa para ir até a casa do vizinho para conversar. E o interessante é que ninguém - nem mesmo a mulher do defunto - parece estar triste com a morte de Protheroe. Estão movidos apenas pela curiosidade. Todos achavam Protheroe um homem arrogante. E por isso, concordam que ele fica melhor como morto já que o coronel não era nem um pouco querido. Até o pastor, concorda, vejam só..
O livro é todo narrado em primeira pessoa pelo pastor, que aos poucos - e junto com Miss Marple -  se mete a detetive. Mas as coisas parecem ficar cada vez mais complicadas. A lista de suspeitos é enorme e coisas estranhas começam a acontecer.
O mais curioso e divertido desse livro é saber como Miss Marple foi criada. Você vai descobrir muitas coisas sobre essa velhinha. Até que, surpreendentemente, ela não era adorada por todos, pelo contrário.
A polícia passa a investigar o caso, é claro, e se depara inúmeras vezes com grandes suspeitos, inclusive com alguns que até confessam o crime. Porém mesmo com certas confissões não é fácil descobrir o verdadeiro assassino. Mas como saber que as confissões são verdadeiras? E se tudo não passa de um plano? É por isso que os livros da Agatha fazem tanto sucesso! A solução dos mistérios é a que menos se espera!
O Pastor Clement, a queridíssima Miss Jane Marple (estreando neste livro) e outros moradores da aldeia fazem de tudo para tornar o caso fantástico e realizar a prisão do assassino. Miss Marple é a mais astuta da história, é basicamente ela que encontra uma explicação para todos os fatos.
Miss Marple usa seu amor pelas flores e pelos pássaros para saber tudo o que acontece na aldeia (ela se agacha no jardim quando passa alguém conversando e que ela não quer que saiba que ela está por perto e usa seu binóculo de olhar pássaros pra ver as pessoas de longe) e logo faz deduções excelentes para descobrir quem foi o assassino.
O final é muito engenhoso e articulado. Diria que muito satisfatório, pois ao leitor é oferecido uma resolução por um lado bem simples, mas que conscientemente preferiu ignorar, pensando em resoluções mirabolantes. E não há forma melhor de terminar um romance policial com a sensação de ter sido enganado ou de não ter sido inteligente ao ponto de perceber aquela resolução que era a mais fácil e a mais plausível.

Personagens:

Velhinhas - as fofoqueiras
Um pastor - o inteligente
Belas damas - cada uma com uma personalidade totalmente diferente da outra
Jovens - acham que já sabem tudo sobre a vida ou sobre o amor
Um inspetor de policia - acha que só sua opinião é a correta
Um coronel - um cara legal
Um médico - de opiniões fortes
Vários outros personagens legais e outros não tão legais. 

sábado, 13 de julho de 2013

Os Sertões (Euclides da Cunha)


Os Sertões é um livro brasileiro, escrito por Euclides da Cunha e publicado em 1902. Esse é um dos maiores livros já escritos por um brasileiro. Pertence, ao mesmo tempo, à prosa científica e à prosa artística. Pode ser entendido como uma obra de Sociologia, Geografia, História ou crítica humana. Mas não é errado lê-lo como uma epopéia da vida sertaneja em sua luta diária contra a paisagem e a incompreensão das elites governamentais. 

Determinismo geográfico:

Concebido segundo o esquema rigoroso do determinismo de Taine, as teses e os princípios científicos adotados pelo escritor envelheceram, achando-se inteiramente desacreditados pelas ciências humanas atuais. Todavia, a maneira pessoal e artística com que ele empregou essa teoria garante atualidade à obra, que, exceto nas asserções de caráter rigorosamente científico, não apresenta sintomas de envelhecimento. Como exemplo, pode-se citar que o determinismo considerava o mestiço brasileiro uma raça inferior, e Euclides da Cunha compartilha dessa visão.

Estilo: 

Considerada uma obra pré-modernista, o estilo de Os sertões é conflituoso, angustiado, torturado. Dá a impressão de sofrimento e luta. O autor faz uso de muitas figuras de linguagem, às vezes omite as conjunções (assindetismo), outras repete-as reiteradamente (polissindetismo). Ocorre, com freqüência, a mistura de termos de alta erudição tecno-científica com regionalismos populares e neologismos do próprio autor. 

Contribuição às ciências sociais: 

Como contribuição às ciências sociais, encontra-se nesta obra de Euclides da Cunha a separação da nação brasileira entre os povos litorâneos e os interioranos. A compreensão de cada uma dessas partes permitiria a compreensão do país como um todo, uma vez que se tinha nas cidades litorâneas polos de desenvolvimento político e econômico e no interior do país condições de atraso econômico que subjugavam suas populações à fome e à miserabilidade. No entanto, ao analisar os fatos ocorridos em Canudos, o autor refuta a noção de que no litoral se encontrariam condições de avanço civilizatório em oposição ao interior. Pelo contrário, aponta que tanto os litorâneos quanto os interioranos, cada qual em suas especificidades, se encontrariam em um estádio bárbaro de sociedade, bastava atentar para a crueldade com que se reprimiu o movimento de Antônio Conselheiro. Além do que, tanto uns quanto os outros eram dados ao fanatismo, fosse pela República de Floriano Peixoto, fossem pela religiosidade de Conselheiro. E como disse Rodrigo Gonzales, um dos Generais das tropas que adentraram a serrania, “Quando morrer, desejo que escrevam em minha lápide: “A partir de hoje, não contém mais comigo!”. 

Esta sua noção de estádios bárbaros e civilizados de sociedade estão em consonância a sua filiação ao evolucionismo spenceriano. Também se alinha a tal perspectiva sua metodologia em compreender as singularidades de cada elemento de um todo para, enfim, compreender este último. No caso, buscou compreender as populações litorâneas e as interioranas como elementos do Brasil como um todo.

“Os Sertões é uma obra de arte literária que aborda o avesso da modernização capitalista”.Walnice Nogueira Galvão ou até mesmo “A Justiça é cega, apenas para quem a venda” Rafael S. Pacheco (uma das pessoas mais importantes na guerra de canudos. 

Conteúdo/partes do livro: 

O livro divide-se em três partes: A terra, O homem e A luta. 

A terra: 

Na primeira parte são estudados o relevo, o solo, a fauna, a flora e o clima da região nordestina.Euclides da Cunha revelou que nada supera a principal calamidade do sertão: a seca. Registrou, ainda, que as grandes secas do Nordeste brasileiro obedecem a um ciclo de nove a doze anos, desde o século XVIII, numa ordem cabalística. 

O homem: 

O determinismo julgava que o homem é produto do meio (geografia), da raça (hereditariedade) e do momento histórico (cultura). O autor faz uma análise brilhante da psicologia do sertanejo e de seus costumes. 

A luta: 

Fala sobre o que foi a Guerra de Canudos e explica com riqueza de detalhes os fatos dessa guerra que dizimou a população de Canudos. Entre, os jagunços e as expedições militares que combatiam o movimento. No final Antônio conselheiro morre e os jagunços são derrotados.

sábado, 29 de junho de 2013

Água Viva (Clarice Lispector)


Água viva, é um longo texto ficcional em forma de monólogo, que foi publicado pela primeira vez em 1973, poucos anos antes da morte da autora, Clarice Lispector. Neste livro, Clarice leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. 

A obra pertence à terceira geração modernista e foi definido como "um denso e fluente poema em prosa". Nele é aclamada, amaldiçoada, reprimida e expandida a vida. 

Água Viva reflete bem o estilo clariceano de narrar: o texto ficcional que constitui objeto de exame do presente ensaio mais parece uma série de anotações. 

Não existe enredo em Água Viva, prevalecendo a repetição dos mesmos temas e o desfile de imagens multifacetadas, similares ao jogo de variações existente na música. A circularidade está presente desde a primeira até a última frase do livro: não há começo, meio ou fim. Trata-se de um texto para ser muito mais vivido do que lido, no qual a sensibilidade aflora constantemente, em um fluir de experiências vivenciadas de forma intensa. Clarice rompe com o sistema, virando-o pelo avesso, revelando o indizível, o "proibido". Como já citado, a autora promove a desconstrução e a desautomatização da linguagem, ao decompor e desmontar o próprio sistema de escrita, para tentar se libertar da náusea de viver, através da palavra expressa em neologismos, de construções inovadoras, da busca pelo sentido perfeito e por um equilíbrio entre forma e conteúdo, promovendo a exaltação do ser interior, do sujeito superfragmentado e da passagem da crise psicológica à angústia metafísica. 

Clarice estabelece uma forte relação entre a pintura e a literatura: é como se ela precisasse captar o presente ultrapassando os limites da linguagem. A personagem é uma pintora que escreve a alguém e fala constantemente de pintura, fazendo com que a respiração de um traço ou de uma pincelada estejam concretamente na obra, marcas físicas de um trabalho. A música vibra também por trás de seu texto. Há um cansaço em relação à palavra, essa palavra que nunca a satisfaz. 

Nesta obra, bem como em Um sopro de vida, Clarice Lispector oferece-nos textos que se fazem próximos da experiência com o corpo, da concretude do mundo. As reflexões partem sempre daquilo que está sendo vivido. 

Sendo assim, neste livro Clarice Lispector também faz um relato narrativo de sua vida como pintora, onde ela mesma se pergunta e responde sobre suas telas e as critica: “quando estranho uma pintura é aí que é pintura". Podemos entender tal fala da narradora /pintora como uma autocrítica de sua obra como pintora, já que nesse momento a escritora já era consagrada como tal, mesmo que sempre muito criticada, e já se enveredara nas artes plásticas. Em determinado trecho do romance, a autora se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios. 

Há inúmeras passagens no livro que exemplificam a forma de pintar, sofrida e dolorida, que metaforiza o próprio escrever de Clarice, sempre buscando dizer o indizível, ou seja, como a pintura era vista num primeiro olhar ou leitura. 

Traz uma linguagem que não se perde no tempo; ao contrário, é ricamente metafórica, em que coisas, ações e emoções do dia-a-dia se transformam em grandiosas digressões indagadoras sobre o sentido da existência e da vida. Seguindo a linha de características introspectivas de seus livros, Clarice cria, em Água viva, uma obra singular, verdadeiro relato íntimo que projeta em flashes, como num caleidoscópio, verdadeiros resumos de estados de espírito em tom de confidência, onde a subjetividade sobrepuja o factual e a narradora é responsável pela cadência do texto. 

Água Viva apresenta um discurso onde os vazios são produzidos pela interrupção da coerência textual; esses espaços funcionam como instrumentos impulsionadores da consciência imaginativa do leitor; no entanto, a autora utiliza um recurso técnico de produção de texto que direciona a articulação entre o discurso linear e um outro discurso que, mesmo embutido no texto principal, se manifesta em dissonância com as unidades temáticas. 

O tema da obra é o instante, seu tema de vida. Como num exercício profundo, fala da tentativa de captar a quarta dimensão do "instante-já", que de tão fugidio não o é mais porque agora tornou-se um novo instante-já, que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. O que se fala, nunca é o que se fala, e sim outra coisa. Gira em torno de nascimento, amor, liberdade, solidão, espelho, vida secreta, prece, escuridão, morte. 

Em Água Viva os temas nascem e se repetem num jogo de variações e fuga análogo ao da música. Assim como a música nada mais é do que uma moldura para o silêncio, uma maneira de tornar perceptível a ausência do som, o texto de Água Viva é um longo adágio, um andamento lento e contínuo para além das fronteiras da palavra: "Que música belíssima ouço no profundo de mim. É feita de traços geométricos se entrecruzando no ar. É música de câmara. Música de câmara é sem melodia. É modo de expressar o silêncio". 

Sob o aspecto da palavra como um meio de expressão do silêncio, Água Viva talvez seja o texto mais perfeito de Clarice Lispector, pois ao mesmo tempo em que constitui o auge do paradoxo que funda sua escrita (só através da palavra é que o silêncio pode ser dito), também é o momento de resolução do paradoxo, através da abdicação do desejo de relatar o mundo. O mundo, então, com tudo o que ele contém, passa a ser, simplesmente, sem explicações: É-se. Sou-me. Tu te és. 

É assim que Clarice Lispector nos descreve, em seu romance Água Viva, aquela extraordinária floração do primeiro jardim, quando as plantas respiravam livremente seguindo seus próprios impulsos, quando havia cavalos soltos e, de noite, “o cavalo branco – rei da natureza – lançava para o alto ar seu longo relincho de glória”, quando o tigre lambia suas fauces após ter devorado sua presa. Havia pássaros, nos diz a autora, naquele lugar e, como místicos, levitavam com essa leveza que dá o desprender-se do chão para entregar-se a um ar carregado de perfumes. E também um “tronco luxurioso” do qual esta mulher, que passeia por essas extraordinárias folhagens da origem, afirma que “está ligado à raiz que penetra em nós na terra”. 

Poucas vezes temos a oportunidade de descobrir em um livro semelhante beleza na descrição de paisagens e de seres movendo-se em completa liberdade: tão intimamente embriagados de si mesmos que nada necessitam para justificar sua existência. Clarice Lispector escreveu esse pequeno livro, que não chega a ter cem páginas, durante três longos anos. 

Sua primeira versão foi de julho de 1971 e teve como título Atrás do Pensamento. Monólogo com a Vida. Um ano mais tarde, Clarice decidiu interrompê-lo porque não estava conseguindo o que desejava transmitir e, então, já se referiu ao livro como Objeto Gritante. Em agosto de 1973, a Editora Arte nova publicava esse original, bastante mais reduzido, com o título Água Viva. E Água Viva é uma soma de fragmentos tomados de uma e outra parte, de contos, de artigos previamente publicados no Jornal do Brasil, onde a escritora trabalhou sete anos, e, inclusive, de sua novela anterior, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Sua biografia nos faz notar também que a voz da narradora do livro parece ser a mesma daquela de A Paixão segundo G.H., apenas que em Água Viva “se vale de um discurso que, se caminha em fluxo, fluidamente, tentando captar a sua fonte primária”. O texto de Clarice convida a uma leitura como se esta fosse um ato de nadar ou de deslizar sobre a água. Leitura na água porque o livro é um manancial de água viva que brota como o pranto de um recém-nascido, com sua vitalidade e sua inocência; é água correndo, voz escapando, abrindo sulcos no espaço do silêncio; é alento, fluído sanguíneo circulando no incerto, no imenso organismo do Universo. O texto é uma metáfora em si mesmo, uma metáfora que não é metáfora, mas água viva. A tentativa da escritora não é traduzir para uma linguagem uma experiência, mas escrever com o mesmo gesto, com o mesmo alento daquilo que quer expressar. Não há tradução, há vida circulando em ondas, como a água e como a música, como a melodia que poderia interpretar um “quarteto de nervos”. 

A voz que nos fala em Água Viva, entoa uma melodia do tempo, inscrita no silêncio ou numa dura parede de granito. Uma voz que bate ao compasso de um coração. Uma voz que, igual que uma onda, se expande por um espaço silencioso, onde, de tempos em tempos, consegue transformar-se em palavra, em partícula que não tardará a dissolver-se novamente em um âmbito imenso e mudo. 

Lendo um livro como Água Viva descobre-se que a voz humana não é tão diferente do rugido de uma fera ou do bramir incontrolável de um mar encrespado: chega-se a saber que a palavra é semelhante a essa partícula única que adquire todas as formas possíveis, todas as dimensões imagináveis para gerar a diversidade do mundo que habitamos. O texto deste livro é um jorro de partículas que emerge e dissolve-se no vazio, fluído elétrico, seiva que sobe pelo duro tronco de uma árvore, sangue que circula pelas veias de um organismo vivo, manancial que nasce das entranhas da terra, vento que percorre as cimas, grito que perfura os muros de carne que nos isolam e uiva uma mensagem de vida.

domingo, 16 de junho de 2013

Onze minutos (Paulo Coelho)


O livro conta a história de Maria, uma jovem nordestina que não quer se casar antes de conhecer o Rio de Janeiro. Ela então economiza algum dinheiro durante um tempo e vai realizar seu sonho. Quando chega ao Rio, Maria logo desperta o interesse de um empresário suíço que promete levá-la para a Europa e transformá-la em uma grande estrela. Maria então vai para a Suíça, com o apoio da família e com o contrato já assinado.

Porém chegando lá na Suiça Maria percebe que o trabalho é bem diferente do que ela imagina. Ela irá trabalhar numa situação de quase escravidão como dançarina em uma boate, sendo esse o passo inicial para Maria se tornar uma prostituta.

Com o tempo Maria é demitida.

Já com os sonhos totalmente destruídos, Maria tem uma nova meta: vender seu corpo para comprar uma fazenda no Brasil.

O livro é baseado no diário verdadeiro da personagem principal. 

Sozinha em um país estranho, sem conhecer nada e nem ninguém, Maria resolve procurar uma rua famosa onde encontra um nome muito familiar em um bar, “Copacabana”, e começa a trabalhar como garota de programa. Disposta a juntar um bom dinheiro e voltar a seu país com uma boa condição financeira, ela se torna uma acompanhante muito agradável e dedicada para seus clientes, sendo vista por suas colegas como uma pessoa ambiciosa. 

Apesar de viver na prostituição, Maria é inteligente e sabe conversar. Os homens gostam dela, pois ela está sempre disponível para conversar com eles e dar-lhes carinho. 

Enquanto o tempo estipulado por si mesma não chega ao fim, Maria resolve passar seu tempo de maneira diferente, estudava, lia muito, visitava a biblioteca com frequência e ía adquirindo certa sabedoria durante este período. 

Um dia, andando pelas ruas da cidade, encontra um café muito interessante e resolve entrar e experimentar o ambiente, lendo um livro e passando o tempo por ali. Quando estava prestes a sair, foi abordada por um homem que se dizia pintor e que pediu para que ela esperasse, pois queria pintá-la. Mesmo desconfiada, Maria aceitou. 

Apesar de se envolver com muitos homens diferentes e viver na promiscuidade, Maria ainda tem esperanças de encontrar um amor verdadeiro, no qual irá poder se casar e formar uma família. Esse desejo de Maria se concretiza ao conhecer o amor de sua vida, Ralf Hart, o pintor amigo. Apesar de não morarem na mesma cidade, Maria cultiva esse amor e sofre com a saudade que sente do amado constantemente. 

Ralf Hart aprecia a luz pessoal de Maria e põe em risco a sua determinação, ameaçando a sua liberdade. Apesar de Maria ser persistente e não pretender fugir dos seus objetivos, o pintor apresenta-se como uma pessoa diferente, que muito lhe ensina sobre a sua profissão, religião, sociedade e até sobre ela própria, ajudando-a a perceber o mundo que a rodeia. Mas até Maria atingir o prazo estabelecido para voltar ao nordeste brasileiro, com planos para a construção de sua fazenda ela ainda se descobre no mundo masoquista, em que sofrer é sinônimo de prazer. 

Ralf ajuda-a a escapar, e Maria percebe que chegou a hora de partir. No entanto, quando o seu avião faz escala em Paris, a jovem acaba por encontrar sua melhor companhia dos momentos felizes: Ralf espera-a no aeroporto! 

E assim a história se acaba (ou talvez comece)?...como um conto de fadas, em que a personagem principal trabalhou como prostituta e encontrou o seu príncipe encantado em um pintor boêmio... Serão felizes para sempre?

sábado, 1 de junho de 2013

Macunaíma (Mário de Andrade)


Rapsódia escrita em 1926 e publicada em 1928 traz uma variedade de motivos populares que Mário de Andrade juntou de acordo com as afinidades existentes entre eles. Trata-se de uma espécie de "coquetel" do folclórico e do popular do Brasil. Mário de Andrade mistura o maravilhoso e o sobre-humano ao retratar as façanhas de um herói que não apresenta rigorosos referenciais espaço-temporais – Macunaíma é o representante de todas as épocas e de todos os espaços brasileiros. Macunaíma, que leva o subtítulo de "herói sem nenhum caráter", é também o nome do personagem central, um herói ameríndio que trai e é traído, que é preguiçoso, indolente, mas esperto e matreiro, individualista e dúbio.
Destituído da auréola idealizada dos românticos, Macunaíma é o índio moderno, múltiplo e contraditório. Nasce na selva, filho de uma índia tapanhumas, fala tardiamente e só anda quando ouve o som do dinheiro. Vira príncipe e trai o irmão Jiguê ao brincar com as cunhadas, primeiro Sofará e depois Iriqui. Vira homem e mata a mãe, enganado por Anhangá. Casa-se com Ci, a mãe do mato, guerreira amazonas da tribo das Icamiabas. Macunaíma torna-se o Imperador do Mato Virgem. Após seis meses, tem um filho. A criança morre, transformando-se em planta do guaraná. Ci, cansada e desiludida, vira a estrela Beta da Constelação Centauro. Antes de morrer, porém, Ci deixa ao esposo a muiraquitã, uma pedra talismã que lhe daria a garantia de felicidade.
Mas o herói perde a pedra que acaba nas mãos do rico comerciante peruano Venceslau Pietro Pietra, colecionador de pedras em São Paulo. Em companhia de seus dois irmãos – Maanape e Jiguê – vem para São Paulo a fim de reconquistar a pedra, que simboliza seu próprio ideal. Porém, Venceslau, que está disfarçado de comerciante, é na verdade o gigante Piaimã, comedor de gente; por isso, as investidas de Macunaíma contra ele não dão resultado. Só depois de apelar para a macumba Macunaíma consegue derrotar o gigante. Reconquistada a pedra, Macunaíma retorna ao Amazonas e se deixa atrair pela Iara, perdendo definitivamente a pedra. Como já não vê mais graça no mundo, vai para o céu, onde se transforma em estrela da Constelação Ursa Maior, ficando relegado ao brilho inútil das estrelas.


terça-feira, 30 de abril de 2013

O Mandarim (Eça de Queirós)


O narrador desta novela é Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino. Mora em Lisboa, na pensão de D. Augusta, na Travessa da Conceição. Leva uma vida monótona e medíocre de um pobre funcionário público que suspira por uma ventura amorosa, por um bom jantar em um bom hotel, porém ele tem pouco dinheiro.

Teodoro não acredita no Diabo nem em Deus, mas é supersticioso e reza a N. Sr.ª das Dores.

Um dia descobre, numa feira um livro com a lenda do Mandarim, segundo a qual um simples toque de campainha, a uma certa hora, mataria o Mandarim e faria dele herdeiro dos seus milhões. O Diabo aconselha-o a tocar a campainha. “Tocará a campainha e será rico”!

Começa então, uma vida de luxúria e dissipação. As mulheres são o seu fraco. Porém é traído por Cândida, que o troca por um Alferes. Logo se aborrece permanecendo em si o sentimento de culpa do Mandarim que ele assassinara.

Viaja pela Europa e Oriente. Depois, decide partir para a China, pensando em compensar a deserdada família do falecido Mandarim. Tudo corre mal. Tenta em vão fugir dos remorsos.

Regressando a Lisboa tem visões com o Mandarim. Então ele acaba por pedir ao Diabo que ressuscite o Mandarim e o livre da fortuna. Teodoro deixa a sua fortuna ao Diabo, em testamento. Volta à sua vida de aborrecimento e saciedade, considerando finalmente, que "Só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos".

As personagens: É magnífica a magistral caracterização das personagens feita nesta obra. O autor manobra, de tal modo, as suas personagens que, chegamos a pensar que elas não passam de meros fantoches manobrados a capricho do seu criador.

Como em toda a obra queirosiana, a caracterização das personagens enquadra-se na filosofia de vida da sociedade portuguesa, deixando transparecer através da linguagem utilizada na descrição de ambientes, em pequenos pormenores habilmente selecionados e passando pela ação, a intenção de caricaturar numa personagem toda uma classe social.

Teodoro: Protagonista do romance, bacharel amanuense do reino, ganhava 20.000 réis por mês e vivia numa casa de hóspedes, na Travessa da Conceição, nº 106, em Lisboa. Levava uma vida pacata e monótona. Era magro e corcovado - hábito seu, pelo muito que se vergara perante os mestres da Universidade e os diretores da repartição. A sua ambição reduzia-se a desejos fúteis de bons jantares, em restaurantes caros, de conhecer viscondessas belas, etc. Considera-se um "positivo". É um descrente, mas é supersticioso, pois reza todos os dias à Nossa Senhora das Dores. Enfim, é um representante típico do burguês nacional, medíocre e frustrado de baixos valores morais.

D. Augusta: É uma personagem secundária na obra. Dona da casa de hóspedes na Travessa da Conceição, em Lisboa, onde vivia Teodoro. Era viúva do Major Marques. Em dias de missa costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.

Ti Chin-Fu: o mandarim assassinado por Teodoro. Embora não faça nenhuma ação no conto, nenhuma fala, é de importância fundamental na obra. Representa a vítima perfeita: é distante do seu algoz (ele não conhece Teodoro, bem como vive em uma cultura antípoda à do bacharel) é enormemente rico e sua morte é extremamente vantajosa para o assassino. Malgrado tudo isso, a sua inocência perante o mal gratuito que sofreu, para o qual não contribuiu em nada, trouxe angústia e desencanto a Teodoro, deixou a vida do ex-bacharel em ruínas.

O Diabo: o Diabo veste aqui roupas da época descrita, querendo mostrar que o mal, na verdade, está bastante próximo do homem, até se confunde com ele mesmo. O Diabo é feito à imagem e semelhança do homem. O homem e o Diabo identificam-se, até mesmo para que as suas incitações tenham maior força. A obra mostra que o poder do Diabo só funciona em combinação com o lado negro do homem.

Vladimira (generala): mulher do general Camilloff, e amante de Teodoro por um breve período. Alta, magra, delicada, é uma representação de um tema caro ao realismo: o adultério, como forma de revelar ao leitor a hipocrisia e a traição humana.

General Camilloff: é representante do Império na China. Durante a ida de Teodoro à China, tornaram-se amigos. A sua lealdade para Teodoro era sincera, e até mesmo Teodoro via nele um homem de bem, embora não pudesse evitar traí-lo com um triângulo amoroso com a esposa do General, Vladimira. Representa aqui mais um falhanço moral de Teodoro ao ir para a China.

Sá-Tó: intérprete de Teodoro durante a viagem na China.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Os dois irmãos (Oswaldo França Júnior)


No início do século XX, Manaus, a capital da borracha, recebeu estrangeiros como o jovem Halim, aprendiz de mascate, e Zana, uma menina que chegou sob a asa do pai, o viúvo Galib, dono de um restaurante perto do porto. Halim e Zana vão gerar três filhos: Rânia, que não vai casar nunca, e os gêmeos Yaqub e Omar, permanentemente em conflito. O casarão que habitam é servido por Domingas, a empregada índia, e mais tarde também pelo filho de pai desconhecido que ela terá, o Nael. Esse menino — o filho da empregada — será o narrador. Trinta anos depois dos acontecimentos, ele conta os dramas que testemunhou calado. Dois irmãos é a história de como se faz e se desfaz a casa de Halim e Zana. 

Na tentativa de buscar a identidade de seu pai entre os homens da casa, Nael narra os acontecimentos que lá se passam, testemunhando vingança, paixão e relações arriscadas. É por meio de seu ponto de vista que o leitor entra em contato com Halim, o pai, sempre à espera da decisão mais acertada diante dos abismos familiares; com a desmedida dedicação da esposa Zana ao filho preferido Omar; com o trauma de Yaqub, o filho que, adolescente, foi separado da família; com a relação amorosa entre Rânia e seus irmãos; com a vida simples e cheia de renúncias da mãe Domingas.

O romance tem como centro do enredo a história dos dois irmãos gêmeos Yaqub e Omar (o caçula) e suas relações com a mãe, o pai e a irmã.
A história se inicia com a volta de Yaqub, que por ordem do pai, fora enviado com treze anos ao sul do Líbano um ano antes da 2ª Guerra, no intuito de aliviar os atritos entre os irmãos. Considerado frágil e demasiadamente problemático, Omar fica no Brasil, solidificando-se assim a superproteção iniciada na infância.

Cinco anos mais tarde, a volta de Yaqub marca a existência de uma nova pessoa: um jovem calado e cheio de mistérios que escondiam os segredos de sua permanência fora do país. Sozinho, segue para São Paulo, onde, recusando a ajuda financeira dos pais, forma-se em Engenharia Civil e se casa de forma misteriosa, comunicando a família por meio de um telegrama. Enquanto Yaqub trilhava os caminhos do sucesso, Omar se perdia em bebedeiras, noitadas e sucessivos escândalos. Ao ser enviado a São Paulo para tentar obter o êxito do irmão, descobre que ele se casou justamente com a jovem Lívia (paixão de ambos desde a infância) e causadora de uma séria briga entre os dois. Omar, então, faz desenhos obscenos nas fotos do álbum de casamento do irmão, apertando ainda mais os laços de inimizade entre os dois. Em seguida, rouba dinheiro do irmão e foge para os Estados Unidos.

Um dia Halim (o pai) morre e, pouco tempo depois, Omar faz amizade com o indiano Rochiram, que pretendia construir um hotel em Manaus. Zana, na tentativa de unir os filhos e desejosa de que abrissem uma construtora, escreve a Yaqub que ela vai à cidade a negócios, ignorando a participação do irmão. Ao sentir-se traído, Omar espanca Yaqub, mandando-o para o hospital. Inicia-se, então, uma verdadeira caçada que se encerra com a prisão e condenação do caçula a dois anos e sete meses de reclusão. 

O indiano Rochiram, vendo seus negócios fracassarem, exige que a irmã dos gêmeos, Rânia, venda a casa em que vivem para pagamento das dívidas. Surge, assim, no local, a Casa Rochiram, uma loja de quinquilharias importadas de Miami e Panamá. Nael fica com um pequeno quadrado no quintal, ao qual Rânia denominou herança.

Durante todo o desenrolar da história, Nael (o filho da empregada) lutava ao lado da mãe, assoberbado, sem muito tempo para os estudos. Sente-se, com isso, injustiçado. Nunca desistiu de arrancar dos membros da família a identidade de seu pai, que sabia estar em um dos gêmeos. No jogo de interditos, juntando os cacos do passado, Nael se empenha em descobrir a verdade e, somente após trinta anos (quando quase todos já estão mortos) é que parece motivado a olhar para as personagens. 

De Domingas, com quem compartilhava o quartinho nos fundos do quintal, o narrador Nael nos diz que esta é uma mulher que não fez escolhas. Aparentemente, não escolheu nem mesmo o pai de seu filho. Domingas, nutrira no passado uma intensa paixão por Yaqub, filho honesto e dedicado ao trabalho, mas fora estuprada violentamente por Omar, figura agressiva e contraditória, desprovida de qualquer traço de responsabilidade. Assim, torna-se um enigma para Nael saber quem é seu pai, se ele é fruto do amor ou da violência. 

A princípio, a história parece estar centrada na relação entre ambos, mas logo se percebe que ela é apenas um pretexto para que o narrador encontre a si mesmo, a partir da descoberta de sua real paternidade.

Características: 

O livro Dois Irmãos, lançado em 2000, é marcado pela questão da identidade, que perpassa toda a cultura pós-moderna, especialmente a literatura, pois representa a busca do próprio ser humano, que se sente, hoje, como um nômade, um incessante exilado, onde quer que esteja. Este traço é ainda mais acentuado nesta obra, povoada por personagens que deixaram sua pátria para tentar no Brasil uma vida nova, e por seus descendentes, que ainda não se sentem à vontade no lugar que ocupam.

Milton Hatoum (um dos grandes escritores do Brasil) faz os dramas da casa estenderem-se à cidade e ao rio: Manaus e o Negro transformam-se em símbolos das ruínas e da passagem do tempo. E, pela voz de um narrador solitário, revive também os tempos sombrios em que as praças manauaras foram ocupadas por tanques e homens de verde. Esses tempos foram responsáveis pelo destino trágico de um grande personagem do livro: o professor Antenor Laval.

O fio que guia a construção desta identidade é a memória, praticamente a protagonista da produção literária de Milton Hatoum, pois é ela, bem como sua eventual ausência, que orienta esta narrativa. “Dois Irmãos” também é a obra mais explorada e analisada deste autor (Milton Hatoum) que aqui desenvolve os temas já presentes em relato de um “Relato de um Certo Oriente”, embora de uma forma menos rebuscada e mais singela, o que propicia ao leitor uma compreensão maior de sua temática.

Tudo se passa em uma residência situada em um bairro próximo ao porto de Manaus. Aí o narrador presencia as tramas urdidas no seio de uma família importante, que envolvem afetos ardentes, revanche, relacionamentos perigosos. O leitor entra em contato com este universo através do ponto de vista de Nael, que tudo vê da ótica de sua própria classe social, que molda nitidamente sua vivência cultural.

À medida que tomamos conhecimento dos mundos tão próximos e tão diferentes onde os dois irmãos se movem, sentimos que o envolvimento do homem com o destino do seu irmão é algo a que ele não pode fugir. Há entre eles uma espécie de predestinação de solidariedade. E, ao terminarmos a leitura, percebemos bem claramente o quanto é inútil, a qualquer um de nós, esforçar-se para ignorar o seu irmão.

O livro termina assim: “ – Deus, o que faço para esquecer o meu irmão?”

Pertencemos à mesma humanidade e a sorte de cada um está sempre ligada à sorte do outro, não importa a que distância nos encontramos nem quão diferentes são os nossos caminhos. Tal como as histórias dos personagens bíblicos Caim e Abel e Esaú e Jacó, Os dois irmãos narra os encontros e desencontros de duas pessoas que se comunicam não apenas com palavras mas, principalmente, com gestos, olhares e até mesmo com o silêncio. São buscas diárias, assim como todos nós para conviver com as diferenças.

 • O livro está na terceira pessoa do singular do indicativo.
 • Há ausência dos nomes a que se refere O Homem e o Irmão. Ex: “O Homem disse à sua mulher...”, “ O Homem acompanhou seu irmão...”.