terça-feira, 30 de abril de 2013

O Mandarim (Eça de Queirós)


O narrador desta novela é Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino. Mora em Lisboa, na pensão de D. Augusta, na Travessa da Conceição. Leva uma vida monótona e medíocre de um pobre funcionário público que suspira por uma ventura amorosa, por um bom jantar em um bom hotel, porém ele tem pouco dinheiro.

Teodoro não acredita no Diabo nem em Deus, mas é supersticioso e reza a N. Sr.ª das Dores.

Um dia descobre, numa feira um livro com a lenda do Mandarim, segundo a qual um simples toque de campainha, a uma certa hora, mataria o Mandarim e faria dele herdeiro dos seus milhões. O Diabo aconselha-o a tocar a campainha. “Tocará a campainha e será rico”!

Começa então, uma vida de luxúria e dissipação. As mulheres são o seu fraco. Porém é traído por Cândida, que o troca por um Alferes. Logo se aborrece permanecendo em si o sentimento de culpa do Mandarim que ele assassinara.

Viaja pela Europa e Oriente. Depois, decide partir para a China, pensando em compensar a deserdada família do falecido Mandarim. Tudo corre mal. Tenta em vão fugir dos remorsos.

Regressando a Lisboa tem visões com o Mandarim. Então ele acaba por pedir ao Diabo que ressuscite o Mandarim e o livre da fortuna. Teodoro deixa a sua fortuna ao Diabo, em testamento. Volta à sua vida de aborrecimento e saciedade, considerando finalmente, que "Só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos".

As personagens: É magnífica a magistral caracterização das personagens feita nesta obra. O autor manobra, de tal modo, as suas personagens que, chegamos a pensar que elas não passam de meros fantoches manobrados a capricho do seu criador.

Como em toda a obra queirosiana, a caracterização das personagens enquadra-se na filosofia de vida da sociedade portuguesa, deixando transparecer através da linguagem utilizada na descrição de ambientes, em pequenos pormenores habilmente selecionados e passando pela ação, a intenção de caricaturar numa personagem toda uma classe social.

Teodoro: Protagonista do romance, bacharel amanuense do reino, ganhava 20.000 réis por mês e vivia numa casa de hóspedes, na Travessa da Conceição, nº 106, em Lisboa. Levava uma vida pacata e monótona. Era magro e corcovado - hábito seu, pelo muito que se vergara perante os mestres da Universidade e os diretores da repartição. A sua ambição reduzia-se a desejos fúteis de bons jantares, em restaurantes caros, de conhecer viscondessas belas, etc. Considera-se um "positivo". É um descrente, mas é supersticioso, pois reza todos os dias à Nossa Senhora das Dores. Enfim, é um representante típico do burguês nacional, medíocre e frustrado de baixos valores morais.

D. Augusta: É uma personagem secundária na obra. Dona da casa de hóspedes na Travessa da Conceição, em Lisboa, onde vivia Teodoro. Era viúva do Major Marques. Em dias de missa costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.

Ti Chin-Fu: o mandarim assassinado por Teodoro. Embora não faça nenhuma ação no conto, nenhuma fala, é de importância fundamental na obra. Representa a vítima perfeita: é distante do seu algoz (ele não conhece Teodoro, bem como vive em uma cultura antípoda à do bacharel) é enormemente rico e sua morte é extremamente vantajosa para o assassino. Malgrado tudo isso, a sua inocência perante o mal gratuito que sofreu, para o qual não contribuiu em nada, trouxe angústia e desencanto a Teodoro, deixou a vida do ex-bacharel em ruínas.

O Diabo: o Diabo veste aqui roupas da época descrita, querendo mostrar que o mal, na verdade, está bastante próximo do homem, até se confunde com ele mesmo. O Diabo é feito à imagem e semelhança do homem. O homem e o Diabo identificam-se, até mesmo para que as suas incitações tenham maior força. A obra mostra que o poder do Diabo só funciona em combinação com o lado negro do homem.

Vladimira (generala): mulher do general Camilloff, e amante de Teodoro por um breve período. Alta, magra, delicada, é uma representação de um tema caro ao realismo: o adultério, como forma de revelar ao leitor a hipocrisia e a traição humana.

General Camilloff: é representante do Império na China. Durante a ida de Teodoro à China, tornaram-se amigos. A sua lealdade para Teodoro era sincera, e até mesmo Teodoro via nele um homem de bem, embora não pudesse evitar traí-lo com um triângulo amoroso com a esposa do General, Vladimira. Representa aqui mais um falhanço moral de Teodoro ao ir para a China.

Sá-Tó: intérprete de Teodoro durante a viagem na China.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Os dois irmãos (Oswaldo França Júnior)


No início do século XX, Manaus, a capital da borracha, recebeu estrangeiros como o jovem Halim, aprendiz de mascate, e Zana, uma menina que chegou sob a asa do pai, o viúvo Galib, dono de um restaurante perto do porto. Halim e Zana vão gerar três filhos: Rânia, que não vai casar nunca, e os gêmeos Yaqub e Omar, permanentemente em conflito. O casarão que habitam é servido por Domingas, a empregada índia, e mais tarde também pelo filho de pai desconhecido que ela terá, o Nael. Esse menino — o filho da empregada — será o narrador. Trinta anos depois dos acontecimentos, ele conta os dramas que testemunhou calado. Dois irmãos é a história de como se faz e se desfaz a casa de Halim e Zana. 

Na tentativa de buscar a identidade de seu pai entre os homens da casa, Nael narra os acontecimentos que lá se passam, testemunhando vingança, paixão e relações arriscadas. É por meio de seu ponto de vista que o leitor entra em contato com Halim, o pai, sempre à espera da decisão mais acertada diante dos abismos familiares; com a desmedida dedicação da esposa Zana ao filho preferido Omar; com o trauma de Yaqub, o filho que, adolescente, foi separado da família; com a relação amorosa entre Rânia e seus irmãos; com a vida simples e cheia de renúncias da mãe Domingas.

O romance tem como centro do enredo a história dos dois irmãos gêmeos Yaqub e Omar (o caçula) e suas relações com a mãe, o pai e a irmã.
A história se inicia com a volta de Yaqub, que por ordem do pai, fora enviado com treze anos ao sul do Líbano um ano antes da 2ª Guerra, no intuito de aliviar os atritos entre os irmãos. Considerado frágil e demasiadamente problemático, Omar fica no Brasil, solidificando-se assim a superproteção iniciada na infância.

Cinco anos mais tarde, a volta de Yaqub marca a existência de uma nova pessoa: um jovem calado e cheio de mistérios que escondiam os segredos de sua permanência fora do país. Sozinho, segue para São Paulo, onde, recusando a ajuda financeira dos pais, forma-se em Engenharia Civil e se casa de forma misteriosa, comunicando a família por meio de um telegrama. Enquanto Yaqub trilhava os caminhos do sucesso, Omar se perdia em bebedeiras, noitadas e sucessivos escândalos. Ao ser enviado a São Paulo para tentar obter o êxito do irmão, descobre que ele se casou justamente com a jovem Lívia (paixão de ambos desde a infância) e causadora de uma séria briga entre os dois. Omar, então, faz desenhos obscenos nas fotos do álbum de casamento do irmão, apertando ainda mais os laços de inimizade entre os dois. Em seguida, rouba dinheiro do irmão e foge para os Estados Unidos.

Um dia Halim (o pai) morre e, pouco tempo depois, Omar faz amizade com o indiano Rochiram, que pretendia construir um hotel em Manaus. Zana, na tentativa de unir os filhos e desejosa de que abrissem uma construtora, escreve a Yaqub que ela vai à cidade a negócios, ignorando a participação do irmão. Ao sentir-se traído, Omar espanca Yaqub, mandando-o para o hospital. Inicia-se, então, uma verdadeira caçada que se encerra com a prisão e condenação do caçula a dois anos e sete meses de reclusão. 

O indiano Rochiram, vendo seus negócios fracassarem, exige que a irmã dos gêmeos, Rânia, venda a casa em que vivem para pagamento das dívidas. Surge, assim, no local, a Casa Rochiram, uma loja de quinquilharias importadas de Miami e Panamá. Nael fica com um pequeno quadrado no quintal, ao qual Rânia denominou herança.

Durante todo o desenrolar da história, Nael (o filho da empregada) lutava ao lado da mãe, assoberbado, sem muito tempo para os estudos. Sente-se, com isso, injustiçado. Nunca desistiu de arrancar dos membros da família a identidade de seu pai, que sabia estar em um dos gêmeos. No jogo de interditos, juntando os cacos do passado, Nael se empenha em descobrir a verdade e, somente após trinta anos (quando quase todos já estão mortos) é que parece motivado a olhar para as personagens. 

De Domingas, com quem compartilhava o quartinho nos fundos do quintal, o narrador Nael nos diz que esta é uma mulher que não fez escolhas. Aparentemente, não escolheu nem mesmo o pai de seu filho. Domingas, nutrira no passado uma intensa paixão por Yaqub, filho honesto e dedicado ao trabalho, mas fora estuprada violentamente por Omar, figura agressiva e contraditória, desprovida de qualquer traço de responsabilidade. Assim, torna-se um enigma para Nael saber quem é seu pai, se ele é fruto do amor ou da violência. 

A princípio, a história parece estar centrada na relação entre ambos, mas logo se percebe que ela é apenas um pretexto para que o narrador encontre a si mesmo, a partir da descoberta de sua real paternidade.

Características: 

O livro Dois Irmãos, lançado em 2000, é marcado pela questão da identidade, que perpassa toda a cultura pós-moderna, especialmente a literatura, pois representa a busca do próprio ser humano, que se sente, hoje, como um nômade, um incessante exilado, onde quer que esteja. Este traço é ainda mais acentuado nesta obra, povoada por personagens que deixaram sua pátria para tentar no Brasil uma vida nova, e por seus descendentes, que ainda não se sentem à vontade no lugar que ocupam.

Milton Hatoum (um dos grandes escritores do Brasil) faz os dramas da casa estenderem-se à cidade e ao rio: Manaus e o Negro transformam-se em símbolos das ruínas e da passagem do tempo. E, pela voz de um narrador solitário, revive também os tempos sombrios em que as praças manauaras foram ocupadas por tanques e homens de verde. Esses tempos foram responsáveis pelo destino trágico de um grande personagem do livro: o professor Antenor Laval.

O fio que guia a construção desta identidade é a memória, praticamente a protagonista da produção literária de Milton Hatoum, pois é ela, bem como sua eventual ausência, que orienta esta narrativa. “Dois Irmãos” também é a obra mais explorada e analisada deste autor (Milton Hatoum) que aqui desenvolve os temas já presentes em relato de um “Relato de um Certo Oriente”, embora de uma forma menos rebuscada e mais singela, o que propicia ao leitor uma compreensão maior de sua temática.

Tudo se passa em uma residência situada em um bairro próximo ao porto de Manaus. Aí o narrador presencia as tramas urdidas no seio de uma família importante, que envolvem afetos ardentes, revanche, relacionamentos perigosos. O leitor entra em contato com este universo através do ponto de vista de Nael, que tudo vê da ótica de sua própria classe social, que molda nitidamente sua vivência cultural.

À medida que tomamos conhecimento dos mundos tão próximos e tão diferentes onde os dois irmãos se movem, sentimos que o envolvimento do homem com o destino do seu irmão é algo a que ele não pode fugir. Há entre eles uma espécie de predestinação de solidariedade. E, ao terminarmos a leitura, percebemos bem claramente o quanto é inútil, a qualquer um de nós, esforçar-se para ignorar o seu irmão.

O livro termina assim: “ – Deus, o que faço para esquecer o meu irmão?”

Pertencemos à mesma humanidade e a sorte de cada um está sempre ligada à sorte do outro, não importa a que distância nos encontramos nem quão diferentes são os nossos caminhos. Tal como as histórias dos personagens bíblicos Caim e Abel e Esaú e Jacó, Os dois irmãos narra os encontros e desencontros de duas pessoas que se comunicam não apenas com palavras mas, principalmente, com gestos, olhares e até mesmo com o silêncio. São buscas diárias, assim como todos nós para conviver com as diferenças.

 • O livro está na terceira pessoa do singular do indicativo.
 • Há ausência dos nomes a que se refere O Homem e o Irmão. Ex: “O Homem disse à sua mulher...”, “ O Homem acompanhou seu irmão...”.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O Processo (Franz Kafka)


O bancário e escrevente Joseph K.  acorda pela manhã e espera que Anna, a cozinheira da Senhora Grubach lhe traga o café da manhã, como de costume. Sentido a demora, Joseph K. vai à porta, encontra dois policiais que estão ali para cumprir uma ordem de prisão contra ele. Joseph K. exige uma explicação, mas os mesmos aconselham-no a manter-se calmo e aguardar novas instruções. Quando serviam o café, estes policiais o tomam, e com ar de deboche, aconselham-no a dar-lhes seu pijama e suas roupas íntimas. Indignado com as atitudes dos policiais, exige uma audiência com o Inspetor, que lhe é negado. Confinado em seu quarto, fica impaciente. Fica sabendo que está preso, na primeira audiência, que foi acusado pelo Tribunal e nem o próprio inspetor sabe explicar o porquê, podendo trabalhar normalmente, desde que acompanhado por outras três pessoas que o estarão vigiando.

No Banco, recebe um telefonema, informando a decisão de que seria ouvido em audiência no domingo próximo. É recebido por uma bela mulher, que o conduz a uma sala onde se encontram muitos homens, o Tribunal. Revoltado com sua situação de prisioneiro, indaga o porquê da acusação, diz que não os reconhece como autoridades, não entende como pode estar sendo mal tratado, escoltado e vigiado por homens inescrupulosos e corruptos. Foi aplaudido pela plateia. De repente, todos se voltam para a mulher bonita que adentra o salão e é seduzida por um jovem. Joseph K. pede para que os separem, nada fazem, um dos membros diz a Joseph K.   que ele perdera a oportunidade de ser ouvido.

Em outro dia, volta ao tribunal, encontra-o vazio, apenas a bela mulher estava lá. Joseph K. vendo alguns livros sobre a mesa do juiz, folheia-os, estavam repletos de fotos pornográficas, e ele revolta-se. Novamente aparece o rapaz, e seduz a mulher. Fora do salão, chega o marido da tal mulher, que diz a Joseph K. não suportar mais essa situação, mas que nada poderia fazer. Ela gostaria que Joseph K. pudesse fazer algo. Entra com o oficial nas salas do Tribunal, onde pode ver muitos homens, aguardando preocupados e inconformados com os resultados de seus inquéritos. No outro dia, ao sair do Banco, Joseph K.  depara-se com os dois policiais que o escoltavam sendo açoitados por um carrasco, por causa das acusações feitas por ele no tribunal. Pedem então que não os castigue, tenta suborná-lo e ele não aceita. Chega ao Banco seu tio e tutor, Albert K, o leva a casa do amigo e advogado de renome, Dr. Huld, que os apresenta ao chefe dos assistentes do Tribunal.

Conhece Leni, acompanhante do Dr. Huld, que o seduz. Durante uma conversa diz a Joseph K. que não existe meio de defender-se quando é acusado pelo Tribunal. Fica por horas com Leni. Na saída é repreendido por Albert, que diz não ter conseguido a ajuda do chefe dos assistentes do Tribunal, devido sua ausência. Joseph K. volta ao Dr. Huld e diz que fará sua própria defesa. Leni dá um bilhete a Joseph K. com o endereço de Titorelli, o tio que pintava os retratos dos juízes. Chegando lá, o pintor diz que poderia ajudá-lo que ele tinha a chance da absolvição real onde todos os documentos desapareceriam e o processo fosse arquivado; na ostensiva, se livraria da pena, mas os documentos permaneceriam, podendo ser utilizados novamente pelo Tribunal e o adiamento seria indeterminado e o processo interrompido. Joseph K. não se interessou. Voltou à casa do Dr. Huld decidido a demitir o advogado.

Joseph K. recebe um telefonema do Sr. Daimen, do Banco, pedindo-lhe para que sirva de guia turístico a um importante cliente que visitava a cidade. Ele vai a Catedral, onde estaria lhe esperando o Sr. Ross. Decide entrar e fica aguardando sentado em um banco. Quando decide ir embora é chamado pelo sacerdote. Vira-se e o sacerdote diz a ele que queria falar com Joseph K. já que era o capelão da prisão, disse que deveria modificar sua atitude, uma vez que o veredicto vai sendo formado com o decorrer do processo e que até aquele momento, não tinha feito nada em seu favor. Joseph K. parecendo confiar no sacerdote, queixa-se de tudo. O sacerdote tenta convencê-lo de que está sendo enganado. Joseph K. afirma que confia no sacerdote, que é o único membro do Tribunal que inspira confiança.

O sacerdote conta-lhe uma história sobre os portões da Lei. Diante da Lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a ele e pede para entrar na Lei. O porteiro diz que não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e pergunta se poderia então entrar mais tarde, o porteiro disse que era possível. Uma vez que a porta da Lei continua sempre aberta, o homem se inclina e olha o interior através da porta; o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: Eu sou o poderoso! E sou apenas o último dos porteiros”.

Passado anos, cansado, dos seus pedidos, o porteiro aceita até suborno dizendo:  “Eu só aceito para que não ache que deixou de fazer alguma coisa”.

O sacerdote explica a Joseph K. que o Tribunal não precisa dele, que o acolhe quando vem e o deixa quando vai embora.

Na véspera de seu aniversário, dois senhores chegam à casa de Joseph K.  de surpresa. Carregam-no pelos braços. Preocupado com a atitude deles, Joseph K. começa a criar dificuldades para a locomoção. Conservou o discernimento tranquilo, já que sempre quis abarcar o mundo com as pernas, deveria suportar as consequências. Foi conduzido por eles à pedreira onde seus algozes cravaram-lhe uma faca no coração.

Sobre o livro:

Conta a história de Joseph K. bancário que é processado sem saber o motivo. A figura de Joseph K. nos faz lembrar daquela pessoa que sofre sem que tenha dado motivo para isso. Embora Kafka tenha retratado um autoritarismo da justiça ao se ver com o poder nas mãos para condenar alguém, sem lhe dar chance para se defender, ou ao menos saber por que estava sendo punido; podemos levar a figura de Joseph K. bem como de seus acusadores, para vários campos da vida humana: trabalho (quem nunca se viu cobrado ou perseguido, sem que seus acusadores lhe dissessem em que estaria sendo negligente), religião (quem nunca se viu pego, de surpresa, como K. por um fanático encolerizado, dizendo que teríamos ferido às leis divinas, sem que nos dissessem por que), na escola (quem nunca se viu como Joseph K. ao ser criticado por seu desempenho, sem que soubesse em que havia falhado, não nota, mas há críticas vagas, às vezes de colegas, às vezes dos próprios mestres).

A história se resume em poucas linhas. Na manhã em que completava 30 anos, Joseph K.  é detido em sua própria casa. A acusação? Desconhecida. O tribunal? Obscuro. O processo? Inatingível. Apesar de estar detido, ele pode viver normalmente, trabalhar. Mas toda a sua vida é transformada de acordo com os trâmites. Os juízes, assim como todos os integrantes desse tribunal aparentemente “paralelo”, são corruptos. Os termos e os usos do processo são inteiramente herméticos, só se conhece pequenas partes, e de forma indireta. Ainda assim, o processo mantém sua coerência interna, com os funcionários, lugares e acusados movendo-se infinitamente sem chegar a nenhuma conclusão.

É assim que começa mais um dos alucinantes – para não dizer alucinógeno – pesadelo kafkaniano. Conhecido por fazer os seus personagens viverem episódios angustiantes e insólitos, como em um medonho pesadelo, Kafka ataca novamente, fazendo seus leitores refletirem sobre as incertezas humanas.

De início, o protagonista de O Processo demonstra não se preocupar com o fardo judicial que se abate sobre si. Todavia, com o desenrolar da prosa, Joseph K. passa a se envolver crescentemente com o caso, prejudicando inclusive a sua promissora carreira profissional. Joseph K. é procurador de um banco. O motivo do processo segue sinistro até as últimas linhas do livro. Tal como o acusado, os leitores também não ficam a par, embora sejam colhidas informações importantes sobre a obscura justiça no decorrer da penosa saga de Joseph K.

Por fim, Joseph K. é novamente abordado em casa, por funcionários da justiça - altamente burocrática e inacessível - diga-se de passagem. Seu processo está no fim. Acabamos por nos solidarizarmos com o personagem, após nos comovermos com a sua incessante luta pela liberdade plena.

Infelizmente o desfecho é chocante. Joseph K. é morto com uma brutal facada no peito. Absurdamente, em caráter oficial, foi feita a justiça! Do ponto de vista moral, o que se vê é o assassinato de um indivíduo de bom caráter.

Mais uma vez, o surrealismo literário do fantástico Franz Kafka nos leva a uma pungente reflexão.

Ilíada e Odisséia (Homero)


Ilíada e Odisséia são duas epopéias escritas pelo famoso escritor e poeta grego Homero.

Homero viveu por volta do século VIII a.c. e foi um renomado aedo (poeta que cantava poemas e feitos heróicos na Grécia antiga), tendo como suas principais obras a Ilíada  e a Odisséia. Apesar de a própria existência de Homero ser contestada devido à grande inexatidão com que é mencionado durante a história (as vezes como indivíduo, as vezes como várias pessoas), Homero fez uma grande contribuição histórica com a Ilíada e a Odisséia pois ambas são a fonte de vários conhecimentos que temos sobre as tradições e costumes da Grécia antiga após a invasão das tribos Dóricas. De forma resumida, na Ilíada Homero narrou um período entre o nono e o décimo ano da guerra de Tróia que foi iniciada segundo a lenda com o sequestro de Helena, mulher do Rei grego Menelau, e que terminaria com os gregos vitoriosos. E a Odisséia nos conta as histórias de Ulisses (Odisseu), um famoso herói grego que volta da guerra de Tróia para sua cidade natal, Ítaca, mas que no caminho sofre inúmeras provações, narradas na epopéia.

Ambas as epopéias retratam de forma muito fiel os costumes gregos, inclusive a organização social da época e grandes famílias que administravam determinada cidade ou região. Além disso, a própria existência de Tróia foi descoberta através da Ilíada (mesmo que a real existência da cidade seja muito contestada). Boa parte do que sabemos hoje sobre a Grécia após a invasão dórica vem das epopéias homéricas.



“Ilíada”

A Ilíada, é um poema épico composto de 24 cantos escritos em versos, cujo tema é um episódio da guerra de Tróia.
A ação se passa no nono ano do cerco imposto a Tróia pelos gregos, centrando em Aquíles, cuja ira foi provocada pelo rapto de sua escrava Briseida e pela perda de seu amigo íntimo, Pátroco. Este foi morto por Heitor em combate e teve o seu corpo arrastado pelo mesmo para o torno do túmulo de Pátroco, que terminou por restituí-lo a Príamo, rei de Tróia e pai da vítima. Aquiles porém é em seguida morto por Páris.


“Odisséia”


A Odisséia é consagrada ao retorno de Ulisses, que durante 10 anos, afrontou perigos na terra e no mar, antes de poder chegar ao reino de Ítaca. O mar é quase que o personagem principal, onde Ulisses batalhou como herói, em esforços para voltar para casa.

Na primeira parte, “Telemaquia”, Telêmaco parte a procura do pai. Na segunda parte, “Volta de Ulisses”, recolhido após um naufrágio, pelo rei Alcino, ele relata suas peregrinações que o levaram até o Ciclope de um olho só, devoradores de homens, e como ele e sua tripulação o cegaram, a fim de fugirem de seu poder. Conta também como foi protegido por seu próprio fascínio mágico, forçando a feiticeira Circe a quebrar o encanto que tinha transformado sua tripulação em porcos. Conta ainda como foi aos infernos, o mar das sereias e como  conseguiu proteger a sua tripulação tampando seus ouvidos com cera de abelha  e se amarrando com cordas ao mastro do navio, de forma que não pudesse mexer-se enquanto estava  sob o encanto das sereias e não forçasse sua tripulação à remar em direção da morte. Conta ainda histórias da ninfa Calipso.

E na terceira e última parte “a Vingança de Ulisses”, de volta a Ítaca Ulisses disfarça-se de mendigo e chega ao palácio, invadido pelos pretendentes à mão de sua esposa Penélope; ela, porém declara que só se casará com aquele que conseguir manejar o arco de Ulisses; nessa oportunidade, então, ele se dá a conhecer e massacra os pretendentes.

A epopéia comporta um aspecto coletivo que visa transmitir um conjunto de narrativas tradicionais relacionadas com a ordem do mundo e da comunidade, ordem cuja existência e estabilidade são frutos de proezas divinas de heróis excepcionais. A epopéia descreve-se então por longas narrativas poéticas de aventuras heróicas.



sábado, 13 de abril de 2013

A Carne (Júlio Ribeiro)


A obra A Carne de Júlio Ribeiro é um romance naturalista publicado em 1888 que aborda temas até então ignorados pela literatura da época, como divórcio, amor livre e um novo papel para a mulher na sociedade.
O livro conta a história da garota Lenita, cuja mãe morrera em seu nascimento e o pai educara-a ministrando-lhe instrução acima do comum. Lenita era uma garota especial, inteligente e cheia de vida.
No entanto, aos 22 anos, após a morte de seu pai, tornou-se uma jovem extremamente sensível e teve sua saúde abalada. Com o intuito de sentir-se melhor, Lenita decide ir viver no interior de São Paulo, na fazenda do coronel Barbosa, velho que havia criado seu pai. Lá, conhece Manuel Barbosa, o filho do coronel. Manuel era um homem já maduro e exímio conhecedor das coisas da vida, vivia trancado no quarto com seus livros e periodicamente  partia para longas caçadas; vivera por dez anos na Europa, onde se casara com uma francesa de quem separara-se há muito tempo. Lenita firmara uma sólida amizade com Manuel, que, aos poucos, vai se revelando uma tórrida paixão, no início, repelida por ambos, mas depois consolidada com fervor em nome do forte desejo da "carne".
Lenita desde logo revela-se uma moça dominada pelos desejos da carne, o que ela buscava não era propriamente o amor, mas a satisfação de seus desejos sexuais. Num episódio em que assiste a tortura que sofria um escravo, sentiu prazer ao ver a carne açoitada com violência. “... do alto do céu no lodo da terra, sentia-se ferida pelo aguilhão da carne, espoliar-se nas concupiscências do cio, como uma negra boçal, como uma cabra, como um animal qualquer... era a suprema humilhação.”
Lenita diante da presença afetuosa do Coronel Barbosa chega a desejá-lo, e o mesmo Coronel também se remói diante do pensamento de ter Lenita como amante, diante do impasse, resolve viajar a negócios.
Passou a considerar a possibilidade do namoro com o filho do Coronel Barbosa, embora a sua figura, em princípio não correspondia ao ideal de homem que pensava pudesse satisfazer os seus desejos. As impossibilidades do casamento, por ser Manuel um homem que já havia contraído o matrimônio, não afligiam Lenita, visto que, sonhava apenas com a realização dos desejos da carne, descartando a possibilidade de uma mera amizade. O livro narra a ardente trajetória desse romance singular, marcado por encontros e desencontros, prazer e violência, desejo e sadismo, batalha entre mente e carne. A história caminha para um trágico desfecho a partir do momento em que Lenita, encontrando cartas de outras mulheres guardadas por Manuel, sente-se traída e resolve abandoná-lo; estando grávida de três meses, casa-se com outro homem. Manuel, não suportando tamanha traição, suicida-se, o que comprova o resultado final da batalha "mente vezes carne". O suicídio de Manuel é dramático e injetando curare nos minutos finais assiste ao desespero dos pais enquanto lhe passam na mente os pensamentos que o levara a tal atitude, chega a querer reverter o quadro, mas não tem como avisar os outros acerca do antídoto, pois o veneno o paralisa completamente; triunfam os prazeres da carne, no trágico final, os desenganos da mente.




Olhai os Lírios do Campo (Érico Veríssimo)


Romance publicado em 1938 Olhai os lírios do campo é um dos livros nacionais que maior número de edições alcançou. Esse romance (na acepção amorosa da palavra) vem conquistando o público leitor com sua linda, porém dramática história de Eugênio e Olívia. Entretanto, Erico não escreve somente mais uma história de amor, o ponto principal da obra é a lição de vida que ela nos passa: o respeito aos nossos ideais. Olhai os lírios do campo narra a história de Eugênio, um jovem médico, que sofre a angústia do mundo moderno. O livro divide-se em duas partes sendo a primeira o cruzamento de dois níveis temporais: o presente: aqui temos Eugênio dentro do carro em direção ao hospital para reencontrar sua amada Eugênia, rememorando os fatos que fazem parte do seu passado, onde, junto a ele, relembramos sua infância, seus traumas, seus aprendizados com Olívia, o casamento com Eunice, a frustração, o sentimento de se ter vendido para vencer. A segunda parte desenvolve-se de maneira mais linear, embora o passado se misture ao presente da filha. Assim, nesta narrativa de vários planos temporais, entrelaça-se uma crítica à sociedade fútil e vazia, ao acúmulo de riquezas e à conseqüente hipocrisia das relações sociais. Saindo da fazenda em direção ao hospital, Eugênio começa por relembrar fatos de seu passado, a difícil infância, a família humilde. Surgem fatos como a humilhação no colégio, por ter sua calça rasgada nos fundilhos numa brincadeira, por ter um pai alfaiate, simplório, quando ele gostaria que seu pai fosse mais altivo. Nesse relembrar, notamos uma formação ácida em Eugênio, um rancor que se foi formando ao longo dos anos. Seu irmão que nada quer da vida, sua mãe que não reage ao modo de vida que levam. Todos esses fatores sociais formam um perfil psicológico ambicioso, determinado, que pensa fazer o que for preciso para vencer na vida, ao contrário de seus pais, que nunca buscaram progredir.
Nesse processo, a faculdade de medicina é o caminho mais curto, pois é a única forma de um jovem pobre tornar-se um doutor. Porém na faculdade Eugênio mente sobre suas origens, tem vergonha de sua família. Um dos episódios mais dramáticos da obra surge num passeio com dois colegas de medicina em que Eugênio vê seu pai, vestindo um terno roto e surrado, com um embrulho de baixo do braço, provavelmente alguma roupa para ser entregue. Ao ver seu pai prestes a parar e cumprimentar o orgulho da família, Eugênio finge não conhecê-lo, deixando-o de chapéu na mão, em plena rua. Em casa, roído de remorso, anseia pelas críticas paternas, pela raiva do pai, mas ele se decepciona, pois seu pai mantém a mesma passividade, a vergonhosa humildade que tanto Eugênio odiava, ignorando o acontecido. Neste mundo em crise, surge uma voz que traz um certo alento, que apresenta certa alegria na vida desse jovem determinado em ser alguém na vida, mas movido por rancores: Olívia. Ela surge como uma colega de faculdade que, como ele, também vem de origem humilde, que com dificuldade formou-se. Fazendo aquele homem fechado sorrir, Olívia o conquista desde o primeiro dia, tendo encontros em seu pequeno apartamento, que representam a felicidade que Eugênio ainda não havia experimentado. Entretanto, o trabalho e a vida ao lado de Olívia não ofereciam ascensão esperada por ele. Eis que surge, então, Eunice, rica, bela e interessada nele. Seduzido pela beleza dessa mulher e, principalmente, pela perspectiva de subir na vida, de ter posses e dinheiro, de ingressar na sociedade, sonho há muito almejado. Eugênio troca os momentos felizes que tinha com Olívia, por essa vida a tanto almejada. Porém, segundo a ótica do romance de 30, Erico Veríssimo busca mostrar que dinheiro não traz felicidade. Com Eunice ele conquista a satisfação material, mas a felicidade conjugal não. Tempos depois, reencontra Olívia, que tem uma filha, mas não está casada. Isso o faz repensar toda a sua vida. Porém, mesmo angustiado, não abandona a riqueza. Somente quando fica sabendo que Olívia está no hospital, às portas da morte, Eugênio toma a decisão que muda sua vida, partindo de uma mensagem de otimismo e confiança que Olívia deixara para ele. Era preciso pensar nos outros e fazer alguma coisa em favor deles.... Por que não começar algum trabalho em benefício das crianças abandonadas? Por que não dar-lhes alimentação adequada, boas roupas e higiene, instrução, assistência médica e dentária, colônia de férias, oportunidades de se divertirem, de serem alegres...?
Então nosso protagonista assume a filha, abandona a casa do sogro rico, abandona a mulher Eunice e assume-se como um médico comunitário. É sintomático que o herói do romance, Eugênio, seja médico. O médico tornou-se na sociedade atual, aquele mediador entre a ciência, a técnica e o sentimento humanitário. Pensando primeiro em si mesmo, egoisticamente, Eugênio evolui para a solidariedade, através das colocações de Olívia, que embora morta, é um personagem presente no romance, fazendo contraponto com Eugênio. O lirismo romântico da história de Eugênio, descobrindo que o dinheiro não traz felicidade, exatamente nos moldes do romance urbano de 30, de caráter socialista; a ambição de Eugênio traçada a partir de uma vida difícil, que o alimenta de amargor e determinação na busca de sua afirmação material. O grande sucesso dessa dramática história de amor pode ser creditado à habilidade do autor de construir personalidades psicológicas complexas: ninguém é só bom nem só ruim na obra.