domingo, 25 de maio de 2014

A Capital (Eça de Queirós)


Artur Corvelo é um jovem tipicamente cheio de ilusões e ambições sobre a vida, com ideais alimentados por todos os exemplos que leu e estudou desde a sua protegida infância de precoces ensinamentos eruditos, instigados e alimentados pelos seus pais, igualmente iludidos quanto ao potencial do seu rebento para uma carreira sonante na sociedade. 

Desde cedo Artur Corvelo revelou uma veia poética na qual todos acreditaram e que viria a ser o cerne das suas perenes ilusões quanto à vida, alicerçando-se no exemplo de grandes poetas do passado que foram incompreendidos durante muito tempo até serem reconhecidos. Após um estágio em Coimbra, onde estudou durante dois anos, conheceu a vida boêmia dos supostos intelectuais que frequentavam a Universidade, onde foi vagamente aceite mais pela sua admiração e devoção à cultura, que propriamente pelas suas ideias e talento. 

Com a trágica morte da sua mãe, e, pouco depois, do seu pai, é obrigado a fazer uma estada na província com umas tias suas, onde, vítima dos seus ideais, arranja uma série de conflitos com toda a gente, sendo salvo por uma súbita herança que lhe permite realizar o sonho de estar num sítio onde todas as suas ambições poderiam ser alcançadas, na Capital, Lisboa. 

A partir daqui segue-se uma odisseia hilariante e sarcástica da tentativa humilde e ingênua de Artur Corvelo de se evidenciar numa sociedade lisboeta onde reina o egoísmo brutal dos nichos de sociedade e indivíduos que apenas se aproximam dos outros por algum interesse de sua conveniência. Desta forma, vítima de toda a gente, Artur Corvelo, apesar de imensos momentos de ilusória felicidade e ascensão social, intelectual, política, e amorosa, leva revés atrás de revés mas, pacientemente, vai sempre acreditando numa última réstia de esperança, de ambições cada vez mais limitadas, para a sua vida. 

Características: O romance é um magnífico retrato da sociedade, não apenas pela descrição detalhada dos costumes da época (final do século XIX), embora o suficiente para não entediar o leitor, mas pela construção psicológica e motivações dos imensos personagens que se cruzam na vida de Artur Corvelo, das suas personalidades mesquinhas e aviltantes, de todas as classes sociais, com os seus círculos de relacionamento hipócritas e enganadores, onde, comparando a vida social na cidade com a vida social na província, as duas diferem apenas no grau e complexidade dos jogos de interesses que se geram entre as pessoas, onde a ingenuidade, a sinceridade e o bom coração são espezinhados e desprezados. 

Por ser uma excelente caricatura da sociedade que facilmente identificamos com a sociedade dos nossos dias, onde os costumes são diferentes mas a motivação dos grupos sociais a mesma, e por estarmos perante um enredo de constantes acontecimentos, trágicos e cômicos, com Artur Corvelo constantemente em sarilhos, que causam ao leitor uma grande empatia pela personagem, uma vez que ele é o foco e vítima de toda a marcha cega e fútil da sociedade, este é um romance inesquecível, clássico exemplo de uma aprendizagem de vida e suas frustrações, enriquecido pela diversidade e complexidade das situações que são narradas.

sábado, 10 de maio de 2014

Gabriela Cravo e Canela (Jorge Amado)


Modernismo de segunda fase. Gabriela Cravo e Canela é dividido em duas partes, que são em si divididas em outras duas. A história começa em 1925, na cidade de Ilhéus. 

A primeira parte é “Um Brasileiro das Arábias” e sua primeira divisão é “O langor de Ofenísia”. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade, melhorar os portos e derrubar Bastos, o inepto governante. Nacib é um sírio ("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio, que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu partiu para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna. Ele encomenda com um par de gêmeas careiras, mas passa toda a parte procurando por uma nova cozinheira. No final desta pequena parte aparece Gabriela, uma retirante que planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica, apesar dos pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau. 

A segunda parte desta primeira parte é “A solidão de Glória” e passa-se apenas em um dia. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia, frutos de um crime passional (todo mundo dá razão ao marido traído/assassino), segue com as preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib. No jantar acirram-se as diferenças políticas e, na prática, declara-se a guerra pelo poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo). Quando o jantar acaba (em paz), Nacib volta para casa e, quando ia deixar um presente para Gabriela silenciosa mas, não inocentemente, tem com ela a primeira noite de amor/luxúria. 

A terceira parte chama-se propriamente “Gabriela Cravo e Canela” e sua primeira parte, o capítulo terceiro, chama-se “O segredo de Malvina”, terceiro capítulo, passa-se cerca de três meses após o fim do outro capítulo, e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo, as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. Vamos pela ordem. Josué era admirador de Malvina, filha de um coronel com espírito livre. Esta começa a namorar Rômulo, um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). Josué se desaponta e se interessa por Glória, amante de um outro coronel. Rômulo foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da sociedade ilheense) pai de Malvina, Malvina faz planos de se libertar e Josué começa um caso em segredo com Glória. Na política, acirra-se a disputa por votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de Mundinho. Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. E perde quando esse foge covarde. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. 

Nacib enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. Mas está sendo atacado pelos ciúmes (todos querem Gabriela, perfume de cravo, cor de canela). Aos poucos ele percebe que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do juiz (alarme falso, ele já havia desistido). Mas foi a tempo, já que até roças do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela. O capítulo acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil, já que Nacib é muçulmano não-praticante), quando chegam as dragas no porto de Ilhéus. 

A quarta e última parte chama-se “O luar de Gabriela”. Nesta resolvem-se todos os casos. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória é expulsa de sua casa por seu coronel. Na parte da política, após o coronel Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar, sem sucesso, seu ex-aliado; o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela, que o conhecia), ele morre placidamente em seu sono, seus aliados reconhecem que estavam errados (a lealdade era com o homem, não suas ideias) e a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. Quanto a Nacib e Gabriela... Gabriela não se adapta de jeito nenhum à vida de "senhora Saad", para desespero de Nacib. Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos, seu padrinho de casamento. Mas ninguém ri de Nacib; pelo contrário, Tonico é humilhado e sai da cidade, o casamento é anulado sem complicações (os papéis de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Nacib fica amargurado e vai se recuperando. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem um restaurante juntos. O cozinheiro chamado pelos dois é... convidado a se retirar da cidade por admiradores de Gabriela, que acaba sendo recontratada por Nacib. Semanas depois, Nacib e ela reiniciam seu caso, tão ardente como era no começo e deixara de ser após o casamento. 

Num epílogo, o coronel, assassino dos dois amantes da primeira parte, é condenado à prisão. Cheio de uma crítica à sociedade ilheense, a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção em Gabriela. Torna-se mais cantada, mais típica da região (como é a fala de todos), deixando a leitura cada vez mais saborosa.