domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Pagador de Promessas (Alfredo Dias Gomes)


O pagador de promessas, escrito em 1959, pelo baiano Alfredo Dias Gomes, teatrólogo, romancista e autor de minisséries e telenovelas, como Saramandaia, Roque Santeiro, Araponga e As noivas de Copacabana. Pertencente também à Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes morreu em 1999 em um acidente em São Paulo. 

O pagador de promessas é organizado em três atos: 

Primeiro ato: 

Após caminhar sete léguas com sua mulher, Rosa, Zé do Burro chega às escadarias da Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, Bahia, carregando nos ombros uma cruz tal qual a de Cristo. Tal fato é resultado de uma promessa feita à Santa Bárbara, em prol de seu burro Nicolau, que foi ferido por um galho de árvore numa noite de tempestade. Depois de várias tentativas, Zé do Burro faz uma promessa no terreiro de candomblé, onde Santa Bárbara é a figura sincrética de Iansã. Com o amigo curado, além de levar a cruz à igreja citada, ele também divide sua pequena propriedade com os lavradores da região. Nos diálogos entre Zé do Burro e Rosa há humor, o que faz da peça uma tragicomédia. 

Zé do Burro quer cumprir a promessa, mas o guarda intervém. Na sequência, Rosa aparece com aspecto de “culpada” que mais a frente se revelará na peça como a traição com Bonitão. Logo chega o Repórter sensacionalista querendo tirar proveito da história do lavrador e tenta torná-lo um mártir a fim de virar notícia. 

Segundo ato: 

No segundo ato, Dedé Cospe-Rima, o poeta, se oferece para narrar a história de Zé do Burro. Em seguida, aparecem o capoeirista Mestre Coca e o investigador de polícia, o Secreta, este último foi chamado por Bonitão para enquadrar Zé do Burro com o objetivo de deixar Rosa livre para ele. “O caso Zé do Burro” sai na primeira página do jornal. Chegando o Monsenhor, o pagador de promessa tem a esperança de colocar a cruz que carregou por sete léguas no altar de Santa Bárbara. Porém, o Monsenhor o aconselha a trocar a promessa, mas Zé do Burro rejeita. 

Terceiro ato: 

O último ato tem início com uma roda de capoeira, em que Mestre Coca e Manuelzinho Sua-Mãe jogam capoeira. Dedé Cospe-Rima, Mestre Coca e Galego fazem uma aposta colocando em jogo a sorte de Zé do Burro. O poeta promete a Zé do Burro escrever denunciando a atitude de padre Olavo. Rosa tenta convencer o esposo a ir embora, afinal, teme a chegada da polícia. 

O delegado dá ordem de prisão a Zé do Burro, que resiste. Os soldados tentam levá-lo à força, os capoeiristas interferem e defendem-no. Em meio a confusão, um tiro é disparado e atinge Zé do Burro, que não aguenta e morre na porta da igreja. Liderados por Mestre Coca, os capoeiristas colocam o corpo do pagador de promessas deitado sobre a cruz e entram na igreja. 

Estilo de época: Dias Gomes pertence ao Modernismo brasileiro, especificamente na geração de 45 que procurou inovar, principalmente na área linguística, dentre esses autores estão Guimarães Rosa e Clarice Lispector – de caráter regionalista e intimista, respectivamente. 

Temáticas: 

1. Crítica ao conservadorismo clerical: segundo o crítico teatral Sábato Magaldi, é evidente a crítica ao formalismo clerical. 

Zé: Está bem, Padre. Se for assim. Deus vai me castigar. E o senhor não tem culpa. Padre: Tenho, sim. Sou sacerdote. Devo zelar pela glória do Senhor e pela felicidade dos homens. 

Zé: Mas o senhor está me fazendo tão infeliz. Padre! Padre (sinceramente convicto): Não! Estou defendendo a sua felicidade, impedindo que se perca nas trevas da bruxaria. 

Zé: Padre, eu não tenho parte com o Diabo, tenho com Santa Bárbara. GOMES, Dias. O pagador de promessas. 29. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986. p.135-136. 

2. Traição: ao se sentir pouco desejada pelo marido, Rosa se envolve pelo malandro Bonitão. 

3. Jogo de interesses/hipocrisia: várias personagens se beneficiam da situação vivenciada por Zé do Burro. 

4. Reforma agrária: Zé do Burro, apesar de não conhecer a reforma agrária, a faz em sua promessa ao dividir sua pequena propriedade entre os lavradores da região. 

5. Sincretismo religioso: sobre isso, o autor comenta em uma nota antes do início da peça: [...] O sincretismo religioso que dá motivo ao drama é fato comum nas regiões brasileiras que, ao tempo da escravidão, receberam influências de cultos africanos. Não podendo praticar livremente esses cultos, procuravam os escravos burlar a vigilância dos senhores brancos, fingindo cultuar santos católicos, quando, na verdade, adoravam deuses nagôs. Assim, burlavam uma correspondência entre estes e aqueles – Oxalá (o maior dos orixás) identificou-se com Nosso Senhor do Bonfim, o santo de maior devoção da Bahia. Oxóssi, deus da caça, achou o seu símile em São Jorge. Exu, orixá malfazejo, foi equiparado ao diabo cristão. E assim por diante. Por isso, várias festas católicas, na Bahia (como em vários estados do Brasil), estão impregnadas de fetichismo, com danças, jogos e cantos de origem africana. Entre elas a de Santa Bárbara (Iansã na mitologia negra), que serve de cenário ao drama.

GOMES, Dias. Op. cit. p. 20.

A Casa da Madrinha (Lygia Bojunga Nunes)


Em “A Casa da Madrinha” se conta a história do menino Alexandre, pobre que mora na favela e precisa trabalhar para ajudar sua família. Sua única válvula de escape da sua realidade cruel é a escola, onde conhece uma professora que possui uma maleta com várias surpresas, e a quem Alexandre tem enorme admiração. Devido ao método nada tradicional de lecionar da professora ela é mandada embora, onde a autora apresenta sua primeira crítica ao sistema educacional. 

O irmão de Alexandre, Augusto, pede para o irmão começar a ajudar mais em casa já que ele irá se casar em breve e Alexandre abandona os estudos. Certa noite Augusto começa a contar para Alexandre uma história sobre a casa da Madrinha, um lugar que fica bem no interior do Brasil com vista para o mar. A casa fica no alto de um morro repleto de flores, ela é toda branca com quatro janelas, e com uma porta azul com uma flor ao centro. Nesta flor fica a chave da casa, que apenas a Madrinha, Augusto e agora Alexandre sabem, sendo este um segredo que ele precisava guardar.

Augusto contou que a casa possuía uma cadeira que tinha vontades próprias e apenas deixava sentar quem era educado e não fala palavrão, um armário que servia todos os tipos de comida, um guarda roupa repleto de roupas, entre outras coisas mágicas. Alexandre se empolga e quer conhecer a casa; Augusto promete que no verão quando retornar para casa levará o irmão. Augusto se casou e nunca mais retornou, e Alexandre decide procurar sozinho pela casa. 

No caminho encontra quem seria seu futuro companheiro, o pavão. A ave já havia tido cinco donos e todos queriam se aproveitar do pavão. A ave era muito inteligente e não queria se submeter a ordens, por isso foi enviado para uma escola onde depois ficou com o “pensamento pingado”, ou seja, mais devagar. Outra crítica ao sistema educacional. 

Alexandre e o Pavão começam a fazer shows pelas ruas para conseguir dinheiro e aos poucos íam seguindo viagem. Certo dia conhecem Vera, uma menina que se encanta com Alexandre e dá abrigo a ambos. 

Os pais de Vera pressionam a menina para expulsá-lo, e falam que não existe madrinha e que Alexandre vive à toa. Alexandre decide ir embora e junto com Vera criam o cavalo de nome “Ah”, de rabo amarelo que leva as duas crianças e o pavão em direção a Casa da Madrinha, local que finalmente conseguem encontrar.