sábado, 28 de março de 2015

O segredo do meu marido (Liane Moriarty)


"O segredo do meu marido" foi um livro que chamou minha atenção logo pela capa, isso sem falar nas resenhas positivas. 

O livro é divido entre três personagens principais: Tess, Rachel Crowley e Cecília. Ambas mulheres com personalidade forte e bem construídas. 

Tess é uma mulher que morre de medo do convívio social. Mas apesar de conviver com essa “fobia”, ela considera que tem uma boa vida e que é feliz, pois tem seu próprio negócio, um filho lindo chamado Liam e é super bem casada. O problema é que a vida a pega de surpresa: ela acaba de ser comunicada que sua melhor amiga e prima está tendo um caso com seu marido Will. Eles três trabalham no mesmo negócio e ela nunca desconfiou que pudesse estar sendo traída. Tesse era gerente de comunicação e marketing, Will era diretor criativo de uma agência de publicidade e Felicity era designer. Felicity e Will estavam se apaixonando. Sem saber como agir com essa novidade ela resolve voltar para a casa de sua mãe onde acaba encontrando pessoas que fizeram parte do seu passado. Chegando a sua cidade natal Tess resolve matricular Liam na escola St. Angela em que ela estudava de maneira provisória. Nesta escola trabalha Rachel (a outra personagem), e também trabalha Connor Whitby como professor de educação física. Este tinha sido no passado namorado de Tess e também chegou a namorar a Janie (a filha de Rachel) em sua juventude. Com o tempo, Tess chateada com o relacionamento do marido dela com Felicity resolve também ter relação sexual com Connor Whitby, seu ex- namorado que ela reencontrou. 

Rachel é uma pessoa amargurada pois não consegue se livrar do fantasma da morte de sua filha. Janie foi assassinada há muitos anos atrás e depois disso a vida de Rachel virou um terrível pesadelo. Logo depois da morte de sua filha ela se afastou completamente de seu filho e seu marido acaba falecendo pouco tempo depois. Rachel vive como uma pessoa que espera a morte lhe levar. Sua única alegria é seu pequeno neto Jacob, mas ela acaba de receber a notícia que seu filho Rob, sua nora Lauren e o neto Jacob iriam se mudar para Nova York por que sua nora fora promovida. 

Cecília tem a vida que sempre sonhou é casada com John-Paul e tem três lindas filhas Isabel, Polly e Esther. Apesar de ser dona de casa e cuidar das filhas, ela ainda consegue ser a melhor vendedora de Tupperware. Mas, ela começa a perceber que seu casamento está ficando meio “sem sal”. Cecília queria mais emoção. Um dia ela vai no sótão procurar um pedaço do muro de Berlim que comprou como lembrança de uma viagem que fez quando jovem, então ela dá de cara com uma carta com seu nome dizendo que só poderia ser aberta após a morte de seu marido. O mais estranho disso tudo é que John-Paul está vivo e ela não tem ideia do motivo pelo qual ele escreveria aquela carta. Cecília liga para seu marido para dizer que achou a carta e ele implora que ela não a abra. Como Cecília nunca teve motivos para desconfiar de seu marido, ela acaba não abrindo a carta imediatamente. 

Porém, em um dia, por vias de fato, Cecília resolve abrir a carta e ler o seu conteúdo. Para a sua surpresa, ela não acreditou no que leu.... [ a revelação do segredo não pode ser contada aqui pois segredo é segredo, então o leitor precisa ler para saber... rsrs]. 

A autora consegue desenvolver muito bem a história e só aí entendemos a ligação das três personagens. "O Segredo do Meu Marido" é um livro interessantíssimo. Ele mostra que todas as pessoas tem segredos e que isso pode ser saudável ou não, mas nunca iremos saber o que ocorreria se o contrário ocorresse. Ainda sim, no final temos algumas demonstrações de "perdão" em prol de bens maiores. 

"Nenhum de nós conhece todos os possíveis cursos que nossas vidas poderiam ter tomado. E provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem ficar guardados para sempre”.

sábado, 7 de março de 2015

Negrinha (Monteiro Lobato)


Negrinha é narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. Sem dúvida alguma é conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças." 

D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio: “Assim cresceu “Negrinha”, magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a ideia dos grandes. 

Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico, hein?" Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em hora. 

Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim... Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da peste que grassava... "O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..."

D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa roda de cocres bem fincados!..." Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz... O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa... 

Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, rechonchudas, louras, "criadas em ninho de plumas." E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : "E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..." Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim. 

Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos..." 

No final da narrativa, o narrador nos alerta: "E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia: - "Como era boa para um cocre!..." 

É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.

domingo, 1 de março de 2015

Um momento inesquecível (Nicholas Spark)


Landon diz ao leitor: "No início você vai sorrir, depois vai chorar - não diga que não avisei". Tenho que admitir que não chorei, apesar de por várias vezes sentir meus olhos se encherem de lágrimas.


A história começa com um Landon Carter de cinquenta e sete anos a confessar como a experiência que vai ser narrada foi trágica e marcante para ele. Voltamos a 1958, onde o encontramos com dezessete anos e nos descreve a sua realidade. Seguindo o conselho do pai ausente, Landon candidata-se à presidência da Associação de Estudantes da sua escola, para facilitar a sua entrada na Universidade. Acaba por ganhar e vê-se sem alternativas para arranjar um par para o Baile, recorrendo assim à prestável Jamie Sullivan, com quem sempre gozara, por ser extremamente bondosa e prestável e levar a Bíblia sempre consigo e cujo pai, o pastor da Igreja de Landon, sempre fora alvo das partidas deste. 

Mas a noite acaba por ser melhor do que o esperado, com Jamie a ajudar Landon em várias situações. Como consequência, ele vê-se na obrigação de aceitar o emotivo pedido de Jamie e entrar na peça do Reverendo Sullivan, que retrata a sua filha e falecida esposa. 

Os dias sucedem-se entre aulas, ensaios e uma visita ao orfanato que Jamie ajudava, até que um dia, esta pede a Landon que a acompanhe em casa, iniciando assim uma rotina irá se manter. É nesses passeios que Landon fica a conhecer melhor Jamie, percebendo que, apesar de tudo o que a distingue, ele acaba por ter sentimentos contraditórios e normais. Mas o gozo dos seus amigos desperta nele sentimentos contra Jamie em toda a peça. Na noite da representação, percebe finalmente como a convivência com Jamie o fizera crescer e também como esta era realmente bonita e lhe fazia falta.

Na semana seguinte, como compensação pelas suas palavras grosseiras, Landon recolheu as latas de contribuição para os órfãos e ao verificar a mísera quantia recolhida, operou um pequeno “milagre”, salvando o Natal dos órfãos. Foi exatamente na véspera de Natal, no orfanato, após Jamie lhe ter oferecido a Bíblia, que fora da sua mãe, que Landon percebeu a verdadeira natureza dos seus sentimentos, começando ambos a namorar alguns dias depois. Como ela era diferente de todas as pessoas jamais conhecidas por Landon, este tinha sempre que premeditar as suas ações, além de contar com a extrema devoção de Jamie ao pai. 

Mas a relação decorreu com normalidade, e assim, um dia enquanto passeavam Landon disse-lhe que a amava. Jamie desata a chorar e confessa-lhe então ter leucemia! Landon, destroçado, abraça-a fortemente enquanto não acreditava, pois Jamie estava com leucemia já em fase terminal. 

Chocada com esta notícia, toda a população manifestou a sua tristeza e arrependimento. Landon vivia numa angústia, a pensar nos dias que lhes restavam e no que devia fazer para os aproveitar. Por entre conselhos da sua mãe e torrentes de emoções dentro de si próprias, procurava a resposta que tão ansiosamente desejava. 

Jamie estava cada vez mais magra e pálida e Landon sentia-se impotente. Como a amava demais pediu-a em casamento, que foi celebrado pouquíssimo tempo depois. 

A 12 de Março de 1959, Landon e Jamie casaram-se como ela sempre sonhara.

Jamie morre... 

O livro termina com a retrospectiva de Landon e com a certeza de que, não interessa quantos anos se passe; ele irá recordar-se sempre deste momento da sua vida porque, afinal de contas, os milagres podem mesmo acontecer.