sábado, 22 de abril de 2017

Bufo & Spallanzani (Rubem Fonseca)


Bufo & Spallanzani é um romance repleto de citações e sobre outros autores e livros, além de muitas digressões sobre a arte de escrever narrativas. Enfim, tal obra literária está, sempre que possível, fazendo referências à própria literatura, o que, em outras palavras, costumamos chamar de exercício da função metalingüística. 

lvan Canabrava narra acontecimentos de sua vida em flash-back. Ora a nós leitores, ora a Minolta, sua namorada, amiga, amante e confidente. Várias histórias se entrelaçam, se misturam nesse enredo de Rubem Fonseca. O livro se divide em cinco grandes partes: Foutre ton encrier, Meu passado negro, O refúgio do Pico do Gavião, A prostituta das provas e A maldição. Essas partes correspondem a episódios da vida do narrador. Cada uma delas poderia ser independente caso não houvesse um fio narrativo condutor. 

No primeiro episódio, Foutre ton encrier, o escritor Gustavo Flávio conta a Minolta sua relação com Madame X. Compõe-se de seis capítulos. Madame X, mais tarde revelada como Delfina Delamare, é uma bela e casada grã-fina por quem o narrador se apaixona. Delfina é encontrada morta. O detetive Guedes suspeita de Gustavo Flávio, porém não tem provas contra ele. A princípio, levanta a hipótese de suicídio, porém após os exames periciais comprova-se o homicídio. O marido de Delfina, o ricaço Eugênio Delamare, tem interesse na idéia de homicídio. No capitulo 5, Gustavo Flávio revela a identidade de Madame X a Minolta. Conta também que recebera, antes da morte de Delfina, a visita ameaçadora do marido traído. No último capitulo. Gustavo Flávio é convidado a depor como um dos suspeitos do assassinato de Delfina Delamare. 

O segundo episódio — Meu passado negro — volta ao passado de Gustavo Flávio. Antes de ser Gustavo Flávio, o escritor havia sido professor primário, amante de Zilda. Seu nome: lvan Canabrava. lvan passa a trabalhar numa firma de seguros, que deverá pagar um prêmio altíssimo a Clara Estrucho, viúva de Maurício Estrucho, que fez o seguro poucos meses antes de morrer. Desconfiado, lvan começa a investigar o caso. Descobre, no lixo encontrado no apartamento abandonado do casal Estrucho, um sapo morto e um ramo de flores murchas. Com a ajuda de Ceresso, presidente da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, lvan Canabrava descobre também que o veneno do sapo, da espécie Bufo marinus, associado ao sumo da planta, causa catalepsia profunda. Excitado pela descoberta da fraude, lvan não percebe o descaso de seu chefe e entrega-lhe o relatório completo de suas investigações. No entanto, sob suspeita de loucura, lvan não tem crédito e parte para a experiência da catalepsia. Mesmo com seu próprio atestado de óbito, lvan não consegue convencer o chefe. Não desiste, porém: vai ao cemitério acompanhado por Minolta, Siri e Maria, seus amigos hippies, para abrir o túmulo onde estaria Maurício Estrucho. Na ocasião são surpreendidos pelo coveiro e, para calá-lo, lvan o agride, matando-o sem querer. lvan é preso e considerado louco. Vai para o Manicômio Judiciário, de onde foge com a ajuda de Minolta e Siri. Passa então dez anos escondido com Minolta. lvan Canabrava adota o pseudônimo de Gustavo Flávio (uma homenagem ao escritor francês Gustave Ftaubert), engorda trinta quilos, torna-se escritor famoso e aprende a amar as mulheres. Por sugestão da sua segunda companheira, volta ao Rio de Janeiro. No final da segunda parte, o narrador retoma o relato sobre seu romance com Delfina Delamare. Minolta observa que o escritor está sentindo dificuldades para começar a escrever seu romance Bufo & Spallanzani e sugere a Gustavo Flávio que se recolha ao Refúgio do Pico do Gavião. 

O terceiro episódio poderia constituir-se em outra história, não fosse também vivenciada por Gustavo Flávio. O Refúgio do Pico do Gavião refere-se à conturbada estada do escritor nesse lugar. Há outros hóspedes: um elegante casal de bailarinos, Roma e Vaslav; um maestro e sua esposa prima-dona, Orion e Juliana Pacheco; um rapaz magro e tímido, Carlos; duas "primas", Suzy e Euridice, que são, na verdade, amantes. Além dos hóspedes, outras personagens participam da trama: Trindade, proprietário do lugar, e D Rizoleta, sua mulher. Numa conversa entre os hóspedes, o maestro questiona o talento dos artistas literário defendendo a idéia de que qualquer um pode ser escritor. A isso Gustavo Flávio responde com um desafio: dá um tema aos presentes, que deverão desenvolvê-lo numa narrativa e apresentá-lo. O maestro, Roma e Suzy aceitam o desafio. O escritor escreve as primeiras linhas de Bufo & Spallanzani: é uma história de homens e sapos. A propósito, começa a perceber-se a ligação do romance com o titulo: Bufo marinus é a espécie de sapo encontrada por lvan Canabrava; Spallanzani foi um biólogo italiano do século XVIII que estudava a circulação sanguínea, a digestão e os animais microscópicos. A Experiência que o escritor deseja relatar em seu romance tem como personagens dois sapos, Bufo e Marina (qualquer semelhança será mera coincidência?), cobaias de Spallanzani. Ao mesmo tempo, os hóspedes do Refúgio separadamente mostram a Gustavo Flávio suas narrativas que, segundo o narrador, são autobiográficas. Constata-se que realmente escrever é muito difícil. Durante este episódio, acontece outro crime: Suzy é encontrada morta. Ao mesmo tempo, Minolta recebe um aviso sobrenatural e resolve procurar Gustavo Flávio no Refúgio. O detetive Guedes também vai ao encontro de Gustavo Flávio. 

O quarto episódio divide-se em três capítulos: neles começa a ser desvendado o assassinato de Delfina. Guedes descobre que o assassino confesso não matara a grã-fina e deixa-o em liberdade. O farsante fora pago por Eugênio Delamare, o marido traído, para que o caso fosse encerrado na policia. Guedes, em suas andanças pelo local do crime, encontra Dona Bernarda e seu cão Adolfo. Ela é a testemunha de que Guedes precisa para incriminar Gustavo Flávio. 

A última parte, intitulada A maldição, está reservada para o clímax e o desenlace. Ë dividida em oito capítulos. No primeiro capítulo, o narrador faz considerações sobre o gênero do romance em geral. Faz também reflexões sobre a dificuldade de concluir-se uma história. No segundo capitulo, o relato do Refúgio do Pico do- Gavião é retomado. Descobre-se que o assassino de Suzy é Euridice e que Carlos é a Maria da narrativa que Suzy contara tendo como mote o tema dado por Gustavo Flávio. Segundo Suzy, Maria era casada com José. Os dois fizeram um pacto de amor: quem traísse o companheiro seria morto pelo outro. Maria, então, por ter atentado contra a vida do marido, disfarçara-se em Carlos. Após solucionado o caso, as personagens retornam ao Rio de Janeiro. Guedes avisa a Gustavo Flávio que passará em sua casa. Na visita, Guedes comunica a Gustavo Flávio que o vigarista preso pelo crime da ricaça havia sido assassinado e que a vítima seguinte seria ele. Gustavo Flávio, então, arma-se e aguarda o marido enganado. Nesse interím, o escritor apaga de seu computador os dados do arquivo para o romance que tentara escrever. Eugênio Delamare consegue aprisioná-lo e corta suas bolsas escrotais. Durante a tortura, Guedes chega com policiais. Após o tiroteio, Guedes e Gustavo Flávio sobrevivem, os demais morrem. Finalmente, Gustavo Flávio conta a Minolta quem é o verdadeiro assassino de Delfina. Quando Delfina descobrira que tinha leucemia, decidira que não acabaria da maneira suja, dolorosa e humilhante que a morte escolhera para ela. Resolvera matar-se. Mas a coragem lhe faltava. Convencera, então, Gustavo Flávio a fazer isso por ela. Confessando pormenorizadamente o crime, tenso, ele termina a narrativa dirigindo-se a Minolta. 

Sobre:

É importante compreender o desdobramento da personagem protagonista para articular os episódios entre si. O fio narrativo, que corresponde ao fato transformador da vida de lvan, encontra-se na figura do sapo. Bufo, além disso, possui outro sentido: significa, segundo o dicionário do Aurélio, "ator ou personagem de comédia ou farsa encarregado de fazer rir o público com mímicas, esgares, etc". Desde o início da narrativa, o narrador se denomina glutão, sátiro e atacado por satiríase. Sátiro, convém lembrar, é, na mitologia pagã, um semideus lúbrico habitante das florestas, e que tinha chifres curtos e pés e pernas de bode; no sentido figurado significa homem devasso, luxurioso, libidinoso. Satiríase, por sua vez, é um termo da área médica, que significa excitação sexual masculina mórbida. Pode-se fazer, portanto, uma relação entre o impulso de escrever e o impulso ou excitação sexual. A narrativa parece jorrar, em sua complexidade como um jato em que as partes se articulam e apresentam o quadro fabular e suas personagens.

domingo, 26 de março de 2017

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles)


Os objetos é o primeiro conto e narra o diálogo entre o marido e sua mulher sobre os objetos comprados, os seus valores e suas representações. Como o peso de papel que só tem função se está sobre papéis e um anjinho que só tem valor quando tocado, ganha vida. 

Verde lagarto amarelo fala sobre dois irmãos, o mais velho, Rodolfo, e o caçula, Eduardo. O mais novo sempre foi o preferido da mãe, e o mais velho vivia a serviço do querer dele por intervenção da mãe. O mais velho sempre mais calado e quieto cresceu e vivia sozinho; a única coisa que sentia ter era a escrita; ele era escritor. Já o mais novo era casado, animado. Foi numa visita que fez ao irmão que lhe declarou também ter escrito um romance, roubando assim a única coisa pertencente ao irmão mais velho.

Apenas um saxofone é a história de uma mulher velha e rica. Tinha um homem rico que a sustentava, um jovem que lhe satisfazia e um professor espiritual com quem dormia. Possuía jóias, tapetes e uma mansão, no entanto vivia infeliz. Vivia na saudade do seu grande amor, um saxofonista que se dedicara a ela completamente. Ela era a música dele. Ele tocava com paixão o saxofone e assim mantinha a mulher. Mas a relação se desgastou a ponto dele ir embora enojado. E assim ela vivia só com a lembrança. 

Helga fala de um jovem do sul do Brasil que vivia em férias na Alemanha, logo assumindo uma vida alemã. Em uma das férias passou pela guerra, não seria mais aceito no Brasil. Vivia ali de uma espécie de tráfico de alimentos. Foi lá que conheceu Helga, uma alemã por quem se apaixonou. Ela tinha uma cara perna ortopédica. Chegou a noivar, o pai dela propôs que iniciassem o tráfico de penicilina, mas faltava o investimento inicial. Foi assim que ele casado com Helga roubou-lhe a perna ortopédica e desapareceu voltando, tempos depois rico para o Brasil. 

O moço do saxofone narra a história de um chofer de caminhão que se instalou em uma pensão. Nela viviam inúmeros anões e uma mulher com seu marido que era saxofonista, um homem traído e conformado. Na pensão havia quartos separados. Quando a esposa estava com outro homem o marido tocava o saxofone de uma forma deprimente. Isso incomodava demais o chofer. Quando ele se encontrou com a mulher do saxofonista marcaram um encontro. Ela explicou qual era a porta; no entanto quando ele chegou foi ter com o saxofonista. Conformado como era indicou a direção e ao ser questionado o por que não fazia nada ele afirmou que tocava o saxofone. Com isso o chofer partiu da pensão. 

Antes do baile verde narra a preparação da jovem Tatisa para o carnaval. Com ajuda da sua empregada pregavam nos últimos minutos as lantejoulas na saia da moça. Nesse momento a empregada se inquietava, pois iria se atrasar para o encontro com seu homem e também discutiam o fato de que o pai de Tatisa vivia seus últimos minutos. Ainda antes de sair a menina duvidosa da proximidade da morte do pai desejava ir ao baile. Assim, as duas saíram à porta deixando o pai de Tatisa desfalecendo. 

A caçada fala de um homem que visitando uma loja de antiguidades encontra uma tapeçaria velha onde encontra alguma lembrança que não reconhece. Então torna-se preso à imagem e se sente como personagem da caçada que ela ilustrava. Passou a ir à loja com frequência para observar a peça e foi na frente dela que teve um ataque cardíaco. 

A chave fala de um casamento saturado onde Tom e sua mulher se arrumam para um jantar enquanto ele insatisfeito reclama e pensa na inutilidade desses jantares e no quanto gostaria de ficar ali dormindo.

Meia noite em ponto em Xangai narra a noite de uma cantora que alcança o momento de brilho de sua carreira em um concerto na China. Ela recebe em casa, depois do show, seu empresário e conversam sobre a carreira dela e sobre a desumanidade dos empregados dali. Porém, depois que o empresário se vai a cantora junta-se a seu cachorrinho e se aterroriza com a escuridão e com a suposta presença do empregado no aposento. 

A janela narra a conversa entre um homem e uma mulher. O homem chega ao quarto da mulher, se aproxima da janela dizendo que seu filho morrera ali e que na janela havia uma roseira que seu filho amava. A mulher o questiona mas ele pouco responde preso à lembrança do filho. A mulher então lhe oferece um refresco ao que ele aceita, mas quando ela retorna ao quarto vem acompanhada de médicos. Ele lhe pergunta o motivo e sem necessidade da camisa de força os médicos o levam embora. 

Um chá bem forte e três xícaras fala da espera de uma mulher enquanto observa uma nova borboleta em uma rosa por sua convidada ao chá, uma jovem de 18 anos que trabalha com seu marido. A empregada que está com ela pergunta se tal moça é a que telefona procurando o patrão e ela afirma que sim. Depois, limpando as lágrimas a mulher caminha até o portão para receber a jovem que vem chegando enquanto a empregada vai buscar o chá e três xícaras, caso o patrão venha também. 

O jardim selvagem fala sobre o chamado Tio Ed, casado com Daniela que era como um jardim selvagem. A princípio, em confidência com a sobrinha, a Tia Pombinha, irmã de Ed, desaprova o casamento dizendo que Daniela vive constantemente com uma luva em uma das mãos a qual ninguém vê. No entanto, depois de conhecê-la a acha um amor. Depois de um tempo a empregada da casa conta à sobrinha de Ed que viu Daniela matar o cachorro da casa com um tiro na cabeça; ela afirmou que só o poupou da dor que a doença lhe causava. Por isso, a empregada pediu até demissão. Dias depois chegou a notícia que Ed estava doente e mais tarde que ele se matou com um tiro na cabeça. 

Natal na barca narra o diálogo de uma senhora com uma mulher em uma barca que cruza o rio no dia de natal. A mulher trás no colo o filho doente a quem está levando ao médico. Durante a viagem ela conta a senhora de como perdeu o filho mais novo quando ele pulou do muro intencionando voar e como o marido a abandonou mandando uma carta depois. A senhora, sem saber o que dizer arruma a manta do bebê; então percebe que ele está morto. Nesse ponto a embarcação chega e ela se precipita para descer não querendo ver a dor da mulher. Porém, assim que descem o bebê acorda e a senhora vê a mãe e a criança partirem. 

A ceia trata da despedida de dois amantes em um restaurante. A mulher desesperada e apaixonada tristemente suplica para que o homem a visite, mas ele afirma que acabou. No entanto, diz que foi bom durante o tempo que durou e não quer romper como inimigos. Ela assume um ar sarcástico e o questiona sobre a noiva; depois lhe pede que vá embora, partindo sozinha. 

Venha ver o pôr-do-sol fala da história de um casal que depois de um tempo que já haviam rompido o relacionamento e devido às súplicas desse homem se reencontraram. Ricardo marca um encontro no cemitério. Raquel vai relutante e assim conversando ele a conduz até o jazigo que dizia ser de sua família. Ele a leva até lá a fim de mostrar no túmulo a fotografia da sua prima que tinha olhos parecidíssimos com os dela. Quando entra no jazigo Raquel vê que a data da morte da moça era muito antiga para ela ter sido prima de Ricardo mas a esse ponto ele já havia fechado o jazigo. Ele trancou a fechadura e depois foi embora com um olhar mortiço. 

Eu era mudo e só fala sobre um homem oprimido pelo casamento que o afastou dos amigos. A mulher, criada na perfeita educação das aparências também passa isso para a filha Gisela. Ele abandonara o jornalismo e se tornara sócio do sogro no ramo de máquinas agrícolas apenas para manter o padrão que Fernanda exigia. 

Pérolas fala sobre Tomás e Lavínia, que são casados. Ela se prepara para uma reunião. Ele sentado observa ela a se arrumar e já imagina o que acontecerá na reunião: Vê a mulher com Roberto na sacada próximos, sem palavras, mas sabendo que se amam. Ele fica incentivando-a a ir. Quando ela procura o colar de pérolas, para finalmente ir para a reunião, não o encontra. Ele o escondera para diminuir a realidade do que aconteceria na sacada, mas quando ela estava já saindo na calçada ele a grita dizendo ter achado o colar e o entrega à ela. 

Menino narra a ida do menino e sua mãe ao cinema. Enquanto caminham ele vai orgulhoso por causa da beleza da mãe. Então entram na sala e passam por muitos acentos com vaga para duas pessoas até que chegam ao acento com lugar para três. O filme começa e o menino reclama da enorme cabeça na sua frente. Ele tenta mudar de lugar, mas a mãe não deixa. Assim um homem chega e senta na cadeira vazia ao lado da mulher. Depois de alguns momentos o menino olha e vê a mãe de mãos dadas ao estranho que sentara ao lado e depois as mãos nos joelhos. Daí para frente a imagem da mão branca da mãe e da mão morena do homem deixa o menino perturbado. Pouco antes do fim do filme o homem vai embora. O menino e a mãe vão embora; ela alegremente! Chegando em casa o menino encontra o pai e então chora mas não diz o que aconteceu.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O Físico (Noah Gordon)


Resumo: 

O Físico, de Noah Gordon, descreve toda a trajetória de Rob Cole, um médico do século XI que fica órfão de pai e mãe na infância e para poder sobreviver torna-se aprendiz de um barbeiro cirurgião, charlatão antiético que viaja pela Inglaterra vendendo um elixir para ganhar seu sustento. 

Quando Rob toma conhecimento de Avicena, um grande médico, que é mestre em uma escola de medicina extraordinária na Pérsia, resolve ir para lá, começando assim, uma viagem que dura dois anos e atravessa toda a Europa, aventura esta muito bem descrita em detalhes, sobre os povos, seus hábitos e costumes de todos os lugares por onde passou. 

Quando finalmente chega à Pérsia, Rob tem que fingir ser um judeu, pois a escola não aceitava cristãos. Lá, fica conhecendo o famoso médico e sua esposa, por quem se apaixona. Uma aventura, às vezes turbulenta, às vezes sensual, às vezes divertida, mas sempre narrando a dedicação de um apaixonado pela arte de salvar vidas, com uma linguagem bastante acessível e envolvente. 

Resenha: 

Os elementos estão todos costurados com maestria: muito romance, sensualidade, aventura, fatos históricos, o cenário da Idade Média e das Cruzadas; além do fascínio ocidental pelos mistérios do oriente. Só a citação dessa lista já faria de O Físico um livro imperdível para quem aprecia ao menos alguns dos ingredientes descritos acima. Mas Noah Gordon, não satisfeito em reunir tantos ícones do imaginário literário em um único livro, ainda é um bom contador de histórias. Uma verdadeira encarnação masculina de Sherazadi. As quase 600 páginas do livro avançam quase que de um só fôlego e o leitor fica querendo mais. 

Para quem não conhece ou nunca teve coragem de ler com medo do tamanho do romance, já que a obra foi lançada em 1996 e está na 14ª edição no Brasil, O Físico conta a história de Rob Cole, um órfão inglês que, após a morte dos pais, termina como uma mistura de filho adotivo e empregado/assistente de um barbeiro cirurgião beberrão e com ares de saltimbanco na Europa do século XI, obscura, supersticiosa e com o braço repressor da igreja baixando – e mandando para o cadafalso – qualquer suspeito de bruxaria. Rob, que traz uma espécie de dom místico para curar e deseja vencer a morte e a doença que dizimaram sua família; depois de adulto, ouve falar do mítico Avicena e de uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, para onde ele viaja, assumindo a identidade falsa de um estudante judeu… Daí para frente, vocês mesmos leem, senão perde a graça. 

A pretensão de Gordon não é contar em termos precisos e didáticos a história da origem da medicina, mas narrar a grande aventura que era ser médico numa época em que enquanto o Oriente era vanguardista e concentrava além de grande riqueza material, uma ainda maior intelectual; o Ocidente afundava em reinados sangrentos e corruptos e nos medos impostos por um cristianismo amargo e inquisidor que impedia acima de tudo o avanço da ciência que coloca a existência de Deus em xeque. A partir da saga do jovem Rob, o autor romanceia o que deve ter sido a realidade de muitos homens – e mulheres – de carne e osso naqueles tempos árduos. Havia um conflito profundo entre ciência e fé, como ainda hoje existe. E todos os lados da questão são abordados com grande propriedade e leveza pelo escritor. 

Usando figuras reais que se tornaram mito, como o próprio Avicena, Noah Gordon tenta desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental e europeu para traçar um panorama da riqueza cultural e social tanto do Islã, quanto do Cristianismo e do Judaísmo medieval e mostrar onde estariam as origens não só do eterno conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos, mas das idiossincrasias daquelas que são consideradas as três maiores religiões da humanidade. 

Sem defender ou demonizar nenhum dos três credos e sem deixar de apontar as origens históricas para cada um dos bens – e dos males – que deles resultam, ele transfere para o olhar estrangeiro de Rob Cole a mistura típica de fascínio e repulsa que acomete qualquer pessoa que é tirada de uma cultura e um modo de pensar e confrontada com outra. 

No meio disso tudo e para não cansar o leitor, o autor tempera todas as questões filosóficas e dados históricos levantados pelo seu romance épico, com descrições generosas e perfeitas de cenários que vão do susto ao encanto, no compasso do trote dos cavalos e dos exóticos camelos. As cores e os cheiros do mundo conhecido naquela época e os temores pelo desconhecido impregnam quem se aventura junto com Rob pela sua jornada. 

Que a Idade Média é o tempo histórico mais presente no imaginário coletivo não é novidade, basta lembrar-se da quantidade enorme de romances e filmes que abordam diversos aspectos do período, desde o amor cortês de Romeu e Julieta, até as lendas da Távola Redonda, passando por toda a mítica de fadas, magos e atos heróicos de cavaleiros de armadura. 

Sem abrir mão de uma pitada sutil de sobrenatural (a espantosa capacidade de Rob Cole de curar ou prever a morte), e sem deixar também de citar cenas empolgantes de batalhas dos exímios cavaleiros árabes, Noah Gordon nos oferece outra perspectiva da Idade Média, aquela que debruça-se sobre o fervilhante caldeirão cultural e filosófico de um tempo em que os homens viviam a dúvida de obedecer a um Deus invisível e cheio de regras, preconceitos e preceitos (seja esse cristão, muçulmano ou judeu) ou obedecer a própria inclinação natural à curiosidade que leva à evolução.

Tanto para quem é fascinado por história, principalmente a medieval, quanto para quem é fã de carteirinha de um bom romance de aventura, O Físico é leitura mais que recomendada.