sábado, 11 de fevereiro de 2017

O Físico (Noah Gordon)


Resumo: 

O Físico, de Noah Gordon, descreve toda a trajetória de Rob Cole, um médico do século XI que fica órfão de pai e mãe na infância e para poder sobreviver torna-se aprendiz de um barbeiro cirurgião, charlatão antiético que viaja pela Inglaterra vendendo um elixir para ganhar seu sustento. 

Quando Rob toma conhecimento de Avicena, um grande médico, que é mestre em uma escola de medicina extraordinária na Pérsia, resolve ir para lá, começando assim, uma viagem que dura dois anos e atravessa toda a Europa, aventura esta muito bem descrita em detalhes, sobre os povos, seus hábitos e costumes de todos os lugares por onde passou. 

Quando finalmente chega à Pérsia, Rob tem que fingir ser um judeu, pois a escola não aceitava cristãos. Lá, fica conhecendo o famoso médico e sua esposa, por quem se apaixona. Uma aventura, às vezes turbulenta, às vezes sensual, às vezes divertida, mas sempre narrando a dedicação de um apaixonado pela arte de salvar vidas, com uma linguagem bastante acessível e envolvente. 

Resenha: 

Os elementos estão todos costurados com maestria: muito romance, sensualidade, aventura, fatos históricos, o cenário da Idade Média e das Cruzadas; além do fascínio ocidental pelos mistérios do oriente. Só a citação dessa lista já faria de O Físico um livro imperdível para quem aprecia ao menos alguns dos ingredientes descritos acima. Mas Noah Gordon, não satisfeito em reunir tantos ícones do imaginário literário em um único livro, ainda é um bom contador de histórias. Uma verdadeira encarnação masculina de Sherazadi. As quase 600 páginas do livro avançam quase que de um só fôlego e o leitor fica querendo mais. 

Para quem não conhece ou nunca teve coragem de ler com medo do tamanho do romance, já que a obra foi lançada em 1996 e está na 14ª edição no Brasil, O Físico conta a história de Rob Cole, um órfão inglês que, após a morte dos pais, termina como uma mistura de filho adotivo e empregado/assistente de um barbeiro cirurgião beberrão e com ares de saltimbanco na Europa do século XI, obscura, supersticiosa e com o braço repressor da igreja baixando – e mandando para o cadafalso – qualquer suspeito de bruxaria. Rob, que traz uma espécie de dom místico para curar e deseja vencer a morte e a doença que dizimaram sua família; depois de adulto, ouve falar do mítico Avicena e de uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, para onde ele viaja, assumindo a identidade falsa de um estudante judeu… Daí para frente, vocês mesmos leem, senão perde a graça. 

A pretensão de Gordon não é contar em termos precisos e didáticos a história da origem da medicina, mas narrar a grande aventura que era ser médico numa época em que enquanto o Oriente era vanguardista e concentrava além de grande riqueza material, uma ainda maior intelectual; o Ocidente afundava em reinados sangrentos e corruptos e nos medos impostos por um cristianismo amargo e inquisidor que impedia acima de tudo o avanço da ciência que coloca a existência de Deus em xeque. A partir da saga do jovem Rob, o autor romanceia o que deve ter sido a realidade de muitos homens – e mulheres – de carne e osso naqueles tempos árduos. Havia um conflito profundo entre ciência e fé, como ainda hoje existe. E todos os lados da questão são abordados com grande propriedade e leveza pelo escritor. 

Usando figuras reais que se tornaram mito, como o próprio Avicena, Noah Gordon tenta desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental e europeu para traçar um panorama da riqueza cultural e social tanto do Islã, quanto do Cristianismo e do Judaísmo medieval e mostrar onde estariam as origens não só do eterno conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos, mas das idiossincrasias daquelas que são consideradas as três maiores religiões da humanidade. 

Sem defender ou demonizar nenhum dos três credos e sem deixar de apontar as origens históricas para cada um dos bens – e dos males – que deles resultam, ele transfere para o olhar estrangeiro de Rob Cole a mistura típica de fascínio e repulsa que acomete qualquer pessoa que é tirada de uma cultura e um modo de pensar e confrontada com outra. 

No meio disso tudo e para não cansar o leitor, o autor tempera todas as questões filosóficas e dados históricos levantados pelo seu romance épico, com descrições generosas e perfeitas de cenários que vão do susto ao encanto, no compasso do trote dos cavalos e dos exóticos camelos. As cores e os cheiros do mundo conhecido naquela época e os temores pelo desconhecido impregnam quem se aventura junto com Rob pela sua jornada. 

Que a Idade Média é o tempo histórico mais presente no imaginário coletivo não é novidade, basta lembrar-se da quantidade enorme de romances e filmes que abordam diversos aspectos do período, desde o amor cortês de Romeu e Julieta, até as lendas da Távola Redonda, passando por toda a mítica de fadas, magos e atos heróicos de cavaleiros de armadura. 

Sem abrir mão de uma pitada sutil de sobrenatural (a espantosa capacidade de Rob Cole de curar ou prever a morte), e sem deixar também de citar cenas empolgantes de batalhas dos exímios cavaleiros árabes, Noah Gordon nos oferece outra perspectiva da Idade Média, aquela que debruça-se sobre o fervilhante caldeirão cultural e filosófico de um tempo em que os homens viviam a dúvida de obedecer a um Deus invisível e cheio de regras, preconceitos e preceitos (seja esse cristão, muçulmano ou judeu) ou obedecer a própria inclinação natural à curiosidade que leva à evolução.

Tanto para quem é fascinado por história, principalmente a medieval, quanto para quem é fã de carteirinha de um bom romance de aventura, O Físico é leitura mais que recomendada.